11/06/2026

A TRAJETÓRIA DO MESTRE PÁDUA DE QUEIRÓZ - DA SERRA DE BATURITÉ AO TESOUROS VIVO DA CULTURA CEARENSE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


SINOPSE

 

   Esta autobiografia narra a emocionante trajetória de Mestre Pádua de Queiróz, poeta popular, cordelista, pesquisador, educador e Mestre da Cultura Tradicional Popular do Estado do Ceará.

 

Nascido em Baturité, no Maciço cearense, Mestre Pádua transformou os desafios da vida em inspiração para construir uma história marcada pela perseverança, pelo amor ao conhecimento e pelo compromisso com a cultura popular. Das brincadeiras de infância às experiências no Corpo de Fuzileiros Navais, das primeiras apresentações em escolas aos grandes eventos literários do país, sua caminhada revela a força de quem acreditou no poder transformador da educação e da arte.

 

Ao longo destas páginas, o leitor conhecerá episódios marcantes de sua vida pessoal e profissional, sua dedicação à literatura de cordel, a luta pela valorização da cultura nordestina, o reconhecimento como primeiro Mestre dos Saberes e Fazeres das Culturas Populares de Baturité, sua participação na fundação da Academia Cearense de Literatura de Cordel e a conquista do título de Tesouro Vivo da Cultura Cearense.

 

A obra também registra o nascimento da Esferogravura, técnica artística criada pelo autor, inspirada na tradição da xilogravura nordestina, demonstrando que a criatividade popular continua viva e em constante renovação.

 

Mais do que a história de um homem, este livro é o retrato de uma geração, de uma comunidade e de uma cultura que resistem ao tempo através da memória, da palavra e da arte. É um testemunho de gratidão, superação e compromisso com as raízes nordestinas, oferecendo ao leitor uma verdadeira viagem pelos caminhos da literatura de cordel e da cultura popular brasileira.

 

Uma obra inspiradora que mostra como os sonhos, quando alimentados pela dedicação e pelo amor ao que se faz, podem transformar uma vida comum em um legado para as futuras gerações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frase de impacto

 

"Enquanto eu fizer cordel, é sinal que ainda existo."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PREFÁCIO

 

     Há livros que contam histórias.

 

 Há livros que registram memórias.

 

 E há livros que se transformam em testemunhos vivos de uma época, de uma cultura e de uma missão de vida.

 

 Esta obra de Mestre Pádua de Queiróz pertence a essa última categoria.

 

 Ao percorrer as páginas que seguem, o leitor encontrará muito mais do que a trajetória de um homem. Encontrará a história de um nordestino que fez da palavra sua ferramenta de trabalho, da cultura popular sua bandeira e da literatura de cordel sua forma de educar, preservar memórias e transformar vidas.

 

 Nascido em Baturité, no coração do Maciço cearense, Mestre Pádua construiu uma caminhada marcada pela perseverança, pela simplicidade e pelo compromisso com o saber popular. Sua história demonstra que os grandes mestres não nascem prontos; são forjados pelas experiências da vida, pelas dificuldades enfrentadas e pela capacidade de transformar desafios em aprendizado.

 

 Ao longo de décadas, dedicou-se à literatura de cordel, à pesquisa histórica, às palestras educativas, às oficinas culturais e à valorização das tradições nordestinas. Seus versos atravessaram escolas, bibliotecas, feiras literárias e eventos culturais, levando conhecimento, identidade e pertencimento a milhares de pessoas.

 

 O reconhecimento de sua obra veio naturalmente. Tornou-se o primeiro Mestre dos Saberes e Fazeres das Culturas Populares de Baturité, foi membro fundador da Academia Cearense de Literatura de Cordel, recebeu o título de Tesouro Vivo da Cultura Cearense, concedido pelo Governo do Estado do Ceará, e teve seu saber reconhecido academicamente pela Universidade Estadual do Ceará através do Notório Saber em Cultura Tradicional Popular.

 

 Contudo, o maior mérito deste livro não está nos títulos ou homenagens aqui relatados.

 

 Está simplesmente, na humanidade de seu autor.

 

 Outro aspecto admirável desta trajetória é sua permanente inquietação criadora. Mesmo após alcançar reconhecimento como cordelista e mestre da cultura popular, Mestre Pádua continuou reinventando sua arte. Dessa busca nasceu a Esferogravura, técnica autoral criada a partir da caneta esferográfica, demonstrando que a criatividade popular continua produzindo novas formas de expressão sem romper com suas raízes tradicionais.

 

 Ao narrar suas experiências, o autor também registra parte importante da história cultural do Ceará. Seus relatos revelam personagens, instituições, movimentos culturais e acontecimentos que ajudam a compreender a riqueza do patrimônio imaterial nordestino.

 

 Este livro é, portanto, um documento de memória.

 

 Que as páginas seguintes inspirem novos leitores, pesquisadores, educadores, artistas e cordelistas,  servindo de incentivo para aqueles que acreditam na força transformadora da educação e da cultura.

 

E que a trajetória de Mestre Pádua de Queiróz continue iluminando caminhos, assim como seus versos têm feito ao longo de tantos anos.

 

Ao abrir este livro, o leitor não encontrará apenas a história de um homem.

 

Encontrará a história de um povo, de uma tradição e de uma vida dedicada ao nobre ofício de semear conhecimento através da arte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SUMÁRIO

 

Sinopse

Prefácio

Parte I - Raízes

Capítulo 1 – O menino do Putiú

Capítulo 2 – Minha infância

Capítulo 3 – Dona Quinca – Minha mestra

Capítulo 4 – A escola e os primeiros sonhos

Parte II - Descobertas

Capítulo 5 – Fortaleza e os desafios da migração

Capítulo 6 – O futebol e a juventude

Capítulo 7 – o encontro com o professor Iton Lopes

Capítulo 8 – Meu primeiro cordel

Parte III – A Amazônia

Capítulo 9 – O fuzileiro naval

Capítulo 10 – A vida militar

Parte IV – Transformação social

Capítulo 11 – O retorno ao Ceará

Capítulo 12 – Dos campos aos palcos

Capítulo 13 – O Liceu de Baturité

Capítulo 14 – O nascimento do agente cultural

Parte V – O cordelista

Capítulo 15 – O retorno a Baturité

Capítulo 16 – Os saraus da Praça Santa Luzia

Capítulo 17 – Cordelizando na escola

Capítulo 18 – Cordelizando no Sítio

Parte VI – A obra

Capítulo 19 – Meus cordéis

Capítulo 20 – Quem acendeu Lampião?

Capítulo 21 – Minha música e a comunicação popular

Capítulo 22 – Festivais, bienais e encontros

Parte VII - Reconhecimento

Capítulo 23 – Academia Cearense de Literatura de Cordel

Capítulo 24 – Mestre dos saberes e fazeres das culturas populares de Baturité

Capítulo 25 – Tesouro vivo da cultura cearense

Parte VIII – A esferogravura e o legado

Capítulo 26 – Como descobri a esferogravura

Capítulo 27 – Da caneta esferográfica à arte de entalhar

Capítulo 28 – Legado e missão

Capítulo especial – Costa Senna: O encontro com o poeta de inspirou minha caminhada

Posfácio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PARTE I  RAÍZES

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 1

O MENINO DO PUTIÚ

 

"Eu sou Pádua de Queiróz

Canto e escrevo poesia

O cordel é minha arte

Minha razão e alegria

As lembranças do Putiú

Eu trago em meu dia a dia."

 

(Mestre Pádua de Queiróz – “No Putiú da minha infância” (2010)

 

 

 

    Nasci no coração do Maciço de Baturité, no bairro Putiú, lugar simples, acolhedor e cercado pelas belezas da natureza. Cresci vendo as serras verdes desenhadas no horizonte, ouvindo o canto dos pássaros ao amanhecer e sentindo o cheiro da terra molhada depois das chuvas.

 

 Minha infância foi vivida em uma época em que as crianças brincavam livremente pelas ruas de chão batido, pelos quintais e pelos campos abertos. Não existiam celulares, computadores ou redes sociais. Nossa diversão era construída pela imaginação.

 

 Brinquei de bola de meia, de peão, de bila, de esconde-esconde e de tantas outras brincadeiras que marcaram minha geração. Cada rua do Putiú guardava uma aventura diferente. Cada árvore era um castelo. Cada riacho era um mundo a ser descoberto.

 

 O bairro era uma verdadeira comunidade. As portas permaneciam abertas. Os vizinhos conheciam uns aos outros pelo nome. Quando uma família precisava de ajuda, toda a comunidade se mobilizava. Ali aprendi minhas primeiras lições sobre solidariedade, respeito e convivência.

 

 Recordo com carinho das festas religiosas, das novenas, das procissões e dos encontros familiares. Eram momentos que fortaleciam os laços entre as pessoas e ajudavam a construir nossa identidade cultural. O Putiú não era apenas o lugar onde eu morava. Era uma escola de vida.

 

 Foi naquele ambiente simples que nasceram meus sonhos e onde comecei a desenvolver o olhar observador que mais tarde me ajudaria a escrever cordéis e registrar histórias.

 

 Minha infância foi vivida entre as brincadeiras de rua, os banhos de rio, os jogos de futebol e a convivência comunitária típica das pequenas cidades do interior nordestino. A calçada da igreja transformava-se em campo de futebol. O Sítio do Tio Inácio ou de “Seu Juarez”, eram cenários de aventuras infantis.

 

 No Putiú da minha infância, bastava uma bola para reunir dezenas de meninos. A praça, o patamar da igreja, a estação ferroviária e os sítios que circundavam o bairro tornavam-se verdadeiras áreas de lazer. As brincadeiras aconteciam de forma espontânea, fortalecendo amizades e ensinando valores importantes para a nossa convivência social.

 

 Um dos aspectos mais divertidos daquela época, eram os apelidos de meus pequenos amigos. Essas alcunhas surgiam naturalmente e faziam parte da nossa cultura, e que cultura.

 

 Wedney era conhecido como Zé Galinha. Raimundo era chamado de Vovô, Guto tornou-se Bailarina, Robinho era Cascão, João Filho, o Sibíte, Edvam, o Grecthem.... Cada apelido carregava uma história, uma característica física ou algum acontecimento engraçado que marcou a vida daquele personagem.

 

 Diferentemente do que ocorre atualmente, os apelidos raramente eram motivo de conflitos. Na maioria das vezes, representavam sinais de amizade e integração social. Eram aceitos com naturalidade e ajudavam a fortalecer os laços entre os moradores.

 

 Eu mesmo desejava ter um apelido, mas ninguém conseguia encontrar um que me servisse. Os apelidos funcionavam como elementos de identidade coletiva. Muitas vezes, as pessoas eram mais conhecidas por eles do que pelos próprios nomes de batismo.

 

 Entre os episódios mais engraçados que me recordo foi o dia em que inventamos um cinema improvisado. Foi Joãozinho do Zé Paulino (este não tinha apelido também) que veio com essa ideia. Utilizamos uma caixa de papelão, uma vela acesa e alguns bonecos.  Joãozinho organizou uma sessão cinematográfica na sala da minha casa. O ingresso custava apenas um cruzeiro e a expectativa era enorme.

 

 Cabe ressaltar, que essa experiência demonstrava a extraordinária criatividade das crianças da época. Sem recursos tecnológicos, nós inventávamos várias formas de entretenimento utilizando objetos simples do cotidiano.

 

O que deveria ser uma apresentação tranquila transformou-se em uma grande confusão. A vela incendiou a caixa de papelão, os espectadores começaram a arremessar objetos para conter o fogo e o cinema acabou completamente destruído.

 

 Muitas das paisagens, personagens e experiências daquela época permanecem vivos em minha memória e continuam inspirando minha produção artística até os dias atuais.

Quando escrevo sobre minha infância, não estou falando apenas de mim. Estou falando de uma geração inteira que cresceu aprendendo com a natureza, com os mais velhos e com a convivência comunitária.

 

 O menino do Putiú continua vivo dentro de mim. É dele que nascem meus versos. É dele que surge minha inspiração. É dele que vem minha missão de preservar a memória do nosso povo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 2

MINHA FAMÍLIA

 

Lembro bem que lá em casa,

O carinho de meus pais,

Meus irmãos compartilhando,

Momentos que não voltam mais,

Porém na minha memória

São lembranças tão reais.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Versos soltos” (1989)

 

 

 

   Nenhuma história pode ser contada sem falar da família. Foi dentro de casa que recebi os ensinamentos que moldaram meu caráter e orientaram minha caminhada.

 

 Quando volto o pensamento para as lembranças mais preciosas da minha infância, encontro logo as figuras de meus pais, dois seres humanos simples, trabalhadores e honrados, que dedicaram suas vidas à criação de seus filhos. Foram eles os grandes responsáveis pela formação do homem que me tornei e pela construção dos valores que carrego até hoje.

 

 Minha mãe, Francisca Borges de Queiróz, também conhecida carinhosamente por todos como Dona Quinca, uma mulher de fibra, de coragem e de coração generoso. Costureira dedicada, passava horas diante de sua máquina de costura transformando tecidos em roupas, ajudando no sustento da família e atendendo às necessidades de muitas pessoas da comunidade. Suas mãos trabalhavam sem descanso, mas jamais deixavam de oferecer carinho, atenção e cuidado aos filhos.

 

 Além das atividades de costureira, Dona Quinca era a grande administradora do lar. Cuidava da casa, preparava os alimentos, orientava os filhos e mantinha a família unida. Sua rotina era intensa, mas ela enfrentava cada desafio com serenidade e amor. Seu exemplo de dedicação e sacrifício permanece vivo em minha memória como uma das maiores lições que recebi na vida.

 

 Fui o caçula dos doze filhos que mamãe gerou. Cheguei quando a família já possuía uma longa história de lutas, conquistas e aprendizados. Cresci cercado por irmãos mais velhos que, de alguma forma, ajudaram a me criar. Recebi deles atenção, proteção e muito afeto. Nunca me senti sozinho, pois sempre havia alguém por perto para me orientar, brincar comigo ou me ensinar alguma coisa.

 

 O carinho dos meus irmãos foi um presente valioso que Deus colocou em meu caminho. Cada um contribuiu para minha formação, deixando ensinamentos que guardo até hoje. Em nossa casa, apesar das dificuldades naturais de uma família numerosa, havia união, respeito e solidariedade. Aprendemos desde cedo a dividir o pão, os brinquedos, as tarefas e os sonhos.

 

 Meu pai, Antônio Borges, era policial militar. Homem disciplinado, correto e comprometido com seus deveres, dedicava sua vida à proteção da sociedade. Enquanto cuidava de sua família, também assumia a responsabilidade de zelar pela segurança de muitas pessoas. Sua profissão exigia coragem, equilíbrio e senso de justiça, qualidades que ele demonstrava diariamente.

 

 Mesmo diante das exigências do trabalho, papai nunca deixou de cumprir seu papel de pai. Sua presença transmitia segurança e confiança. Era um homem que ensinava mais pelo exemplo do que pelas palavras. Com ele aprendi o valor da honestidade, da responsabilidade e do respeito ao próximo. Sua postura firme mostrava que o trabalho digno é um dos maiores patrimônios que uma pessoa pode construir. Enquanto mamãe cuidava do lar com ternura e dedicação, papai trabalhava para garantir proteção e sustento. Juntos, enfrentaram desafios, superaram dificuldades e construíram uma história marcada pelo amor aos filhos.

 

 Hoje, ao recordar aqueles tempos, percebo o quanto fui privilegiado. Cresci em um ambiente simples, mas repleto de afeto. Recebi amor em abundância de meus pais e de meus irmãos. Os ensinamentos que herdei dessa convivência familiar tornaram-se parte de minha identidade e influenciaram todas as escolhas que fiz ao longo da vida.

 

 Se existe algo de bom em minha trajetória, muito devo à educação que recebi dentro de casa. As palavras de minha mãe, o exemplo de meu pai e o carinho de meus irmãos foram sementes plantadas em solo mim. Com o passar dos anos, essas sementes germinaram e ajudaram a formar o homem, o cordelista que sou hoje.

 

 Por isso, dedico este capítulo à memória e ao legado de meus pais, Dona Quinca e Antônio Borges, e também aos meus irmãos, que fizeram da minha infância uma época de amor, proteção e felicidade. São eles os verdadeiros pilares da minha existência, as raízes profundas que sustentam a árvore da minha história.

  

  

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 3

DONA QUINCA,

MINHA MAIOR MESTRA

 

Minha mãe, minha rainha

É luz que sempre me guia

Quando afaga meus cabelos

Eu sinto paz e harmonia

Sou seu eterno menino

E ela minha eterna alegria

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Meu amor maior” (1988)

 

 

 

   Entre todas as lembranças que guardo da infância, poucas são tão vivas e emocionantes quanto aquelas que me levam ao colo, à voz e ao carinho de minha mãe, Dona Quinca. Ainda hoje, passados tantos anos, ela continua sendo uma das maiores inspirações da minha vida, da minha sensibilidade artística e do meu amor pela literatura de cordel.

 

 Dona Quinca é uma mulher extraordinária. Leitora assídua de literatura de cordel, admiradora apaixonada de Luiz Gonzaga e devota de Santo Antônio de Pádua, carrega consigo uma sabedoria que não vem apenas dos livros, mas principalmente da experiência, da fé e do amor que dedica à família.

 

 Seu carinho é imensurável. Não apenas por mim, mas por todos os meus irmãos. Como mãe de uma grande família, sempre encontra tempo para cuidar, orientar, aconselhar e amar cada filho de maneira especial. Seu coração parece não conhecer limites quando o assunto é proteger e acolher aqueles que Deus lhe confiara.

 

 Como caçula, fui privilegiado por receber uma atenção muito especial. Tenho guardada na memória uma cena que se repetia quase todas as noites de minha infância. Eu só conseguia dormir depois de ouvir sua voz. Ela cantava para mim com uma doçura que até hoje ecoa em minhas lembranças.

 

 O mais curioso é que, muitas vezes, eu estava morrendo de sono, mas resistia ao máximo para não adormecer. Não queria perder nem um instante daquela melodia suave de sua voz. Na verdade, eu não lutava contra o sono; lutava para continuar ouvindo minha mãe cantar.

 

 Dona Quinca possui ainda uma relação muito íntima com a literatura de cordel. Sabe de cor inúmeros folhetos dos grandes mestres da poesia popular nordestina. Recita e canta versos de Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Firmino Teixeira do Amaral e tantos outros gigantes que ajudaram a construir a história do cordel brasileiro.

 

 O mais encantador era que ela não simplesmente lia aqueles folhetos para mim. Ela os transformava em música. Cada verso ganhava ritmo, emoção e vida. Sua voz dava alma às palavras. Os personagens pareciam saltar das páginas e ocupar os espaços da casa, tornando-se companheiros da nossa imaginação.

 

 Foi através dela que tive os primeiros contatos com o universo mágico das narrativas populares. As histórias de Trancoso, as fábulas e os contos tradicionais faziam parte do cotidiano de nossa família. Era costume Dona Quinca reunir meus amiguinhos no terreiro de casa para contar histórias.

 

 Aquele terreiro transformava-se num verdadeiro palco da imaginação. Ali surgiam reis e rainhas, príncipes e princesas, heróis valentes e vilões terríveis. Apareciam monstros fantásticos, animais falantes, tesouros escondidos e personagens que pareciam vir de mundos encantados.

 

 Nós, crianças, ouvíamos tudo com os olhos brilhando e os corações acelerados. Cada narrativa nos transportava para lugares distantes e aventuras extraordinárias. Nossa imaginação voava livremente pelos caminhos criados pela voz encantadora de Dona Quinca.

 

 Mas o mais importante de tudo era que suas histórias nunca serviam apenas para divertir. Cada conto trazia um ensinamento. Cada personagem deixava uma lição. Aprendíamos sobre honestidade, respeito, coragem, amizade, fé, humildade e perseverança.

 

 Sem que eu percebesse, minha mãe estava plantando em mim as sementes que mais tarde floresceriam em forma de versos, cordéis, livros e ações culturais. Foi ela quem despertou meu gosto pela palavra falada, pela narrativa popular e pela riqueza da tradição oral nordestina.

 

 Hoje compreendo que grande parte do cordelista, escritor e contador de histórias que me tornei nasceu ali, naquelas noites em que resistia ao sono para ouvir sua voz e naquelas tardes em que observava encantado suas narrativas no terreiro de casa.

 

 Dona Quinca não apenas criou filhos. Ela formou sonhadores. Não apenas contou histórias. Ela construiu memórias. Não apenas cantou cordéis. Ela ajudou a preservar uma tradição cultural que continua viva através daqueles que tiveram o privilégio de ouvi-la.

 

 Se existe em mim amor pela literatura de cordel, pela cultura popular e pela arte de contar histórias, muito desse amor nasceu da voz de minha mãe. A voz que embalou meu sono, que povoou minha imaginação e que continua cantando dentro de mim, mesmo depois de tantos anos.

 

 E hoje, já um homem de meia-idade, com os cabelos embranquecidos pelo tempo e pelas experiências da vida, continuo sendo tratado por ela como aquela criança de outrora. Em seu olhar ainda existe o mesmo cuidado, a mesma preocupação e o mesmo amor que me acompanhavam quando eu adormecia ouvindo suas cantigas e seus cordéis.

 

 Talvez seja esse o maior poder de uma mãe: o tempo passa, os filhos crescem, constituem suas próprias histórias, mas, para o coração materno, permanecem eternamente crianças.

 

 E enquanto eu viver, Dona Quinca continuará sendo a grande narradora da minha infância, a guardiã das minhas mais belas lembranças e uma das páginas mais emocionantes de minha autobiografia.

 

 Hoje compreendo que parte significativa de meu trabalho como cordelista nasceu da convivência com minha mãe. Ela foi minha primeira biblioteca viva. Cada vez que escrevo um cordel sobre memória, tradição ou identidade, encontro um pouco de Dona Quinca presente em minhas palavras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 4

A ESCOLA

E OS PRIMEIROS SONHOS

 

Na escola Estevão Alves

Para aprender a ler

Coube a Mirian Camurça

Me ensinar o ABC

A primeira professora

Eu jamais vou esquecer.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)

 

 

 

    Minha entrada na Escola Coronel Estevão Alves da Rocha marcou o início de uma nova etapa em minha vida. Foi ali que comecei a descobrir um universo muito maior do que aquele que conhecia no bairro Putiú. A escola abriu diante de mim caminhos que eu jamais havia imaginado e plantou sementes que mais tarde floresceriam em minha trajetória como poeta cordelista e Mestre da Cultura.

 

 Recordo com carinho da diretora Dona Nina Moreira, uma mulher dedicada que conduzia a escola com responsabilidade e compromisso. Lembro também de Dona Albenir, orientadora educacional que nos acompanhava com muita atenção, carinho e paciência. Sua forma de orientar os alunos transmitia segurança e acolhimento, fazendo com que nos sentíssemos valorizados e respeitados.

 

 Aos seis anos de idade, iniciei minha caminhada escolar cheio de curiosidade e vontade de aprender. Desde cedo, demonstrava interesse pelas atividades culturais promovidas pela escola. As festas juninas eram momentos muito especiais. Durante quatro anos consecutivos, tive a honra de representar o noivo da quadrilha junina escolar, participando das apresentações que reuniam alunos, professores e famílias em momentos de alegria e celebração das tradições nordestinas.

 

 Meu envolvimento com a cultura já dava sinais de que seguiria comigo por toda a vida. Gostava de adaptar músicas para homenagear datas comemorativas como o Dia das Mães, o Dia dos Professores, a Semana da Pátria e outras ocasiões importantes. Mesmo sem perceber, eu já exercitava a criatividade, o gosto pelas palavras e a capacidade de transformar sentimentos em versos e canções.

 

 Sempre fui uma criança curiosa. Gostava de observar, perguntar e compreender as coisas ao meu redor. Cada descoberta despertava novas perguntas e alimentava ainda mais minha vontade de aprender. A leitura começou a ocupar um espaço cada vez maior em minha vida. Os livros me apresentavam lugares distantes, personagens fascinantes e conhecimentos que ampliavam minha visão de mundo.

 

 Os professores tiveram um papel fundamental nesse processo. Cada aula representava uma oportunidade de crescimento. Com dedicação e paciência, eles nos ensinavam não apenas conteúdos escolares, mas também valores que ajudariam a formar nosso caráter. As amizades construídas naquele período tornaram a experiência escolar ainda mais significativa, criando laços que permaneceriam vivos em minhas lembranças.

 

 Mesmo quando os recursos eram limitados, eu procurava aproveitar todas as oportunidades para aprender. A escola não era apenas um lugar de ensino; era também um espaço de convivência, de descobertas e de desenvolvimento humano. Foi ali que comecei a desenvolver habilidades de comunicação, liderança e participação coletiva que mais tarde seriam essenciais em minha atuação cultural e comunitária.

 

 Muitos dos sonhos que construí ao longo da vida nasceram naquele ambiente escolar. Sonhava aprender mais. Sonhava ajudar as pessoas. Sonhava ser útil à minha comunidade. Curiosamente, não alimentava o desejo de conhecer o mundo ou viajar para lugares distantes. Meu sonho era deixar alguma contribuição para as pessoas que viviam ao meu redor, ajudando a transformar a realidade por meio do conhecimento, da cultura e da solidariedade.

 

 Naquele tempo, eu ainda não imaginava que me tornaria um artista. Entretanto, os primeiros sinais dessa vocação já estavam presentes em meu amor pelas palavras, em minha facilidade para criar versos e em meu fascínio pelas histórias que escutava e contava.

 

 Guardo com enorme gratidão a lembrança de minhas primeiras professoras, as irmãs Camurças, Mirian e Milriam. Foram elas que me acolheram nos primeiros anos da vida escolar. Com elas, tudo começou a florescer. No jardim de infância, aprendi cantando. No primeiro ano, descobri o encanto das letras e das palavras. Cada atividade despertava novos interesses e fortalecia minha vontade de aprender.

 

 As irmãs Camurças não apenas ensinaram conteúdos; ajudaram a construir os alicerces da minha formação humana e intelectual. Seus ensinamentos permaneceram vivos em minha memória e contribuíram para moldar os valores que carreguei ao longo da vida.

 

 Hoje, olhando para trás, compreendo a dimensão da importância que a Escola Coronel Estevão Alves da Rocha teve em minha trajetória. Foi ali que os sonhos começaram a ganhar forma. Foi ali que a curiosidade encontrou caminhos para crescer. Foi ali que a cultura começou a dialogar com minha vocação.

 

 A educação transformou minha vida. E talvez por reconhecer essa transformação, dediquei grande parte de minha caminhada a levar educação, leitura, literatura de cordel e cultura popular para outras pessoas. Aquela criança curiosa que entrou pelos portões da escola encontrou muito mais do que professores e livros. Encontrou oportunidades, inspiração e um propósito que carregaria por toda a existência.

 

 Foi naquela escola que comecei a aprender a ler o mundo. E, mais tarde, através dos versos e dos cordéis, ajudaria outras pessoas a fazerem o mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PARTE II DESCOBERTAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 5

FORTALEZA E OS DESAFIOS DA MIGRAÇÃO

 

No ano de oitenta e quatro

Fui morar em Fortaleza

Não sei se deixei saudade

Mas confesso com certeza

Que eu levei em meu peito

Tristeza, muita tristeza.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)

 

 

 

   Entre os acontecimentos mais marcantes da minha vida, poucos permanecem tão vivos em minha memória quanto o dia em que deixei minha terra natal. Era o dia 5 de janeiro de 1984. Eu havia acabado de completar doze anos de idade quando minha mãe, Dona Quinca, tomou uma das decisões mais difíceis para nossa família: deixar Baturité e seguir para Fortaleza em busca de melhores condições de vida.

 

 Naqueles anos, uma longa estiagem castigava o Ceará. Entre 1979 e 1985, a seca trouxe dificuldades para milhares de famílias do interior. A falta de oportunidades e as incertezas provocadas pela escassez obrigavam muitos sertanejos a buscar novos caminhos. Com nossa família não foi diferente.

 

 Naquele amanhecer de janeiro, enquanto nossos poucos pertences eram acomodados sobre a carroceria de um caminhão de mudanças, eu tentava compreender tudo o que estava acontecendo. Para os adultos, aquela viagem representava esperança. Para mim, representava despedida.

 

 Sentado sobre a carroceria, cercado por móveis, malas e lembranças, observava minha cidade ficando para trás. As ruas conhecidas, os vizinhos, os amigos, as serras que emolduravam minha infância, tudo parecia se afastar lentamente dos meus olhos.

 

 Lembro-me de sentir um nó na garganta e uma vontade enorme de chorar. Eu sabia que não estava apenas mudando de endereço. Estava deixando para trás a felicidade simples dos meus dias de menino.

 

 Ali ficaram os amigos das brincadeiras, os campos improvisados de futebol, as histórias contadas no terreiro, os caminhos percorridos descalço e os lugares que guardavam os melhores capítulos da minha infância. Enquanto o caminhão seguia estrada afora, fiz uma promessa silenciosa a mim mesmo:

— Um dia eu voltarei. E quando voltar, não sairei mais daqui.

 

 Era uma promessa de criança, feita entre lágrimas e saudades. Mas seria uma promessa que eu carregaria durante muitos anos dentro do coração.

 

 Deixar Baturité não foi uma decisão simples. Eu levava comigo as lembranças da infância e o profundo apego às paisagens da serra. Contudo, como aconteceu com tantas famílias nordestinas, a busca por novas oportunidades nos conduziu para a capital cearense.

 

 Fortaleza surgiu diante dos meus olhos como um mundo completamente diferente daquele que eu conhecia. As ruas eram movimentadas, os bairros pareciam imensos, o trânsito era intenso e o ritmo da vida seguia numa velocidade que me assustava.

 

 Nossa família foi morar no bairro Vila Manuel Sátiro. Também fui matriculado na Escola Henriqueta Galeno, onde continuei meus estudos e iniciei uma nova fase de aprendizado. Nos primeiros meses, tudo parecia estranho. Sentia falta da tranquilidade do Putiú, da proximidade entre os moradores e da convivência simples e acolhedora que fazia parte do cotidiano em Baturité. Na capital, as pessoas pareciam sempre apressadas e cada dia trazia novos desafios.

 

 A adaptação não foi fácil. Houve momentos difíceis. Nossa família precisou enfrentar limitações financeiras, fazer sacrifícios e superar obstáculos que exigiram coragem e perseverança. Muitas vezes, a saudade apertava e a vontade de voltar parecia maior do que qualquer sonho. Mas foi justamente nesses desafios que comecei a amadurecer.

 

 A vida em Fortaleza ampliou minha visão de mundo. Conheci pessoas de diferentes origens, profissões, crenças e formas de viver. Aprendi que cada ser humano carrega uma história única e que todo encontro pode se transformar em aprendizado.

 

 Foi também na Vila Manuel Sátiro que descobri uma nova paixão. Em Baturité eu gostava de futebol, mas foi naquele bairro que verdadeiramente me apaixonei pelo esporte. A comunidade respirava futebol. Em cada rua, terreno baldio ou campinho improvisado havia uma bola rolando e crianças correndo atrás dos seus sonhos.

 

 A paixão pelo futebol rapidamente passou a fazer parte do meu cotidiano. O esporte me ensinou valores importantes como disciplina, espírito de equipe, respeito às regras, amizade e perseverança. Além disso, ajudou-me a fazer novas amizades e a integrar-me à nova realidade que estava vivendo.

A cidade também abriu portas para outras experiências enriquecedoras. Passei a frequentar bibliotecas, eventos culturais, atividades esportivas e espaços educativos que contribuíram profundamente para minha formação intelectual e humana.

 

 Pouco a pouco, fui descobrindo que a mudança não representava apenas uma ruptura com o passado. Ela também significava a construção de novas possibilidades para o futuro. Mesmo assim, Fortaleza jamais substituiu Baturité em meu coração. Pelo contrário. Quanto mais conhecia o mundo, mais valorizava minhas origens. Quanto mais distante estava da serra, mais forte se tornava meu sentimento de pertencimento. A saudade não diminuía; transformava-se em combustível para continuar caminhando.

 

 Foi na capital que compreendi uma verdade que me acompanharia para sempre: eu precisava aprender, crescer e adquirir conhecimentos para um dia, retornar à minha terra e retribuir tudo aquilo que ela havia me dado.

 

 Sem perceber, eu estava sendo preparado para uma missão maior. Cada dificuldade enfrentada, cada amizade construída, cada livro lido, cada partida de futebol disputada e cada experiência vivida ampliavam minha visão de mundo e fortaleciam meu compromisso com a cultura, a educação e a comunidade.

 

 Hoje percebo que aquela viagem de janeiro de 1984 não significou um afastamento das minhas raízes. Foi, na verdade, o início de uma longa jornada de descobertas, aprendizados e experiências que me preparariam para as missões culturais, educacionais e sociais que Deus reservava para minha vida.

 

 A criança que partiu chorando sobre a carroceria de um caminhão nunca esqueceu a promessa que fez ao deixar Baturité. E o tempo provaria que algumas promessas feitas com o coração jamais são esquecidas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 6

O FUTEBOL E A JUVENTUDE

 

A Vila era animada

Um lugar bom pra morar

Só que eu tinha em mente

Pra minha terra voltar

Então pra me distrair

Futebol eu fui jogar.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)

 

 

 

   A mudança para Fortaleza trouxe muitas saudades. Eu sentia falta de Baturité, dos amigos, da serra, das brincadeiras e da vida simples que havia deixado para trás. Embora estivesse conhecendo um mundo novo, ainda carregava dentro de mim uma tristeza silenciosa. Eu costumava dizer que estava apenas "meio feliz".

 

 Foi então que minha mãe, Dona Quinca, percebeu algo importante. Ela notou que, entre todas as novidades da capital, havia uma que despertava em mim uma alegria verdadeira: o futebol. Sempre atenta aos sentimentos dos filhos, ela tomou mais uma decisão que mudaria minha vida. Matriculou-me na escolinha de futebol da FADEC.

 

 A FADEC — Fundação de Assistência Desportiva do Estado do Ceará — era um importante órgão público estadual ligado ao Governo do Ceará. Sua missão era fomentar o esporte, administrar equipamentos esportivos e desenvolver projetos voltados para a juventude cearense. Naquele momento, eu não imaginava que estava entrando em uma das experiências mais marcantes da minha formação.

 

 Desde menino, o futebol fazia parte da minha vida. Em Baturité, as partidas aconteciam em campos improvisados, terrenos baldios e espaços onde a alegria era muito maior do que qualquer preocupação com uniformes ou estrutura. Jogávamos simplesmente por amor ao esporte.

 

 A bola reunia amigos, fortalecia amizades e ensinava lições importantes sobre convivência, respeito e trabalho em equipe. Mas foi na FADEC que comecei a compreender a verdadeira dimensão educativa do futebol. Ali tive o privilégio de conviver com duas das maiores referências do esporte cearense.

 

 O preparador físico era Zé Maria Paiva, atleta recém-aposentado e profundo conhecedor do futebol e da preparação física. Além da competência profissional, Zé Maria carregava o respeito e a admiração de todo torcedor cearense. Era um verdadeiro ídolo.

 Para um garoto de apenas doze anos, conviver diariamente com alguém daquela importância era algo extraordinário. Eu observava cada orientação, cada conselho e cada ensinamento. Sua experiência e dedicação tornavam os treinamentos verdadeiras aulas de vida.

 

 Mas as surpresas não paravam por aí. O treinador da equipe era ninguém menos que Mozart Gomes, o lendário "Mozarzinho", um dos maiores nomes da história do futebol alencarino.

 

 Ainda hoje me emociono ao recordar aqueles momentos. Se eu tivesse retornado para Baturité naquela época e contado aos meus amigos que estava sendo treinado por Mozarzinho, muitos talvez não acreditassem. Pareceria uma fantasia de menino apaixonado por futebol. Mas era verdade, eu estava sendo orientado por duas das maiores referências esportivas do Ceará.

 

 Com o passar do tempo, Zé Maria Paiva e Mozart Gomes tornaram-se muito mais do que profissionais responsáveis por meus treinamentos. Eles assumiram, de certa forma, um papel paternal em minha vida. Foram meus pais fora de casa.

 

 Orientavam, aconselhavam, corrigiam e incentivavam. Ensinavam disciplina, responsabilidade e respeito. Mostravam que o talento só produz resultados quando acompanhado de esforço e dedicação.

 

 Embora a saudade de Baturité ainda estivesse presente, o futebol passou a preencher parte daquele vazio. A cada treino, a cada partida e a cada nova amizade construída, Fortaleza deixava de ser apenas a cidade para onde eu havia sido levado e passava a se transformar em um lugar de oportunidades.

 

 Foi naquele ambiente esportivo que comecei a perceber algo que me acompanharia por toda a vida: o futebol possuía um poder que ultrapassava as quatro linhas do campo.

 

 Vi jovens enfrentando dificuldades familiares, econômicas e sociais encontrarem no esporte um caminho para sonhar. Vi talentos surgirem em campos de terra e crescerem graças à dedicação e à disciplina. Vi meninos transformarem suas vidas através de uma oportunidade oferecida pelo esporte.

 

 Essas experiências marcaram profundamente minha visão de mundo. Passei a compreender que o futebol não servia apenas para competir ou vencer campeonatos. Ele podia educar, formar cidadãos e oferecer esperança.

 

 As sementes dessa compreensão foram plantadas justamente naquele período da adolescência, quando eu treinava sob a orientação de Zé Maria Paiva e Mozart Gomes. Hoje compreendo que o futebol foi uma das mais importantes escolas da minha vida.

 

 Por isso, guardo com profunda gratidão a memória daqueles dias na FADEC. Foi ali que um menino saudoso de Baturité encontrou acolhimento, disciplina, amizade e inspiração. Foi ali que comecei a descobrir que o esporte, quando orientado por bons mestres, pode ser tão transformador quanto qualquer sala de aula.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 7

O ENCONTRO COM O PROFESSOR ITON LOPES

 

Meu professor Iton Lopes

Nascido em minha cidade

Era ator e cordelista

De grande capacidade

Me ensinou sua arte

E sua originalidade.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” – (2022)

 

 

 

   Ao longo da vida, encontramos pessoas que deixam marcas profundas em nossa caminhada. Algumas passam rapidamente. Outras permanecem para sempre em nossa memória, influenciando nossas escolhas e ajudando a construir quem nos tornamos.

 

 Na minha trajetória, duas dessas pessoas foram fundamentais para minha formação cultural e intelectual: o professor Iton Lopes e meu cunhado Eunifran Xavier.

 

 Quando cheguei a Fortaleza, após deixar minha querida Baturité, fui matriculado em diferentes escolas da rede pública. Entre elas, a Escola Estadual Maria Thomásia, localizada no bairro da Maraponga. Foi ali que o destino colocou em meu caminho um dos maiores educadores que conheci. O professor Iton Lopes. Mais do que um professor, ele foi um mestre no sentido mais amplo da palavra.

 

 Até aquele momento, eu já gostava de ler. Gostava das histórias contadas por minha mãe, dos folhetos de cordel que circulavam entre familiares e amigos e das manifestações culturais do nosso povo. Mas foi Iton Lopes quem me apresentou, de forma consciente e sistemática, ao universo da literatura popular.

 

 Lembro-me com emoção do dia em que ele me presenteou com uma coletânea de poemas do poeta proletário Costa Senna. Aquele presente não era apenas um livro. Era uma porta que se abria para um novo mundo.

 

 Pela primeira vez, comecei a compreender a força social da poesia popular. Descobri que os versos podiam denunciar injustiças, registrar acontecimentos históricos, defender causas coletivas e preservar a memória de um povo.

 

 A partir daquele momento, o professor passou a me tratar como um verdadeiro discípulo em sala de aula. Percebia meu interesse pelos livros e pela cultura e constantemente me incentivava a ler, pesquisar e desenvolver senso crítico.

 

 Iton Lopes não ensinava apenas conteúdos escolares. Ele ensinava cidadania, pensamento crítico e inseria em mim um grande amor pelo conhecimento.

 

 Suas aulas despertavam reflexões profundas. Ele mostrava que a educação não deveria limitar-se à transmissão de informações. Precisava contribuir para a formação humana e para a construção de uma sociedade mais consciente.

 

 Sob sua influência, comecei a olhar a literatura de cordel com outros olhos. Passei a perceber que aqueles folhetos tão presentes em minha infância guardavam riquezas históricas, sociais e culturais extraordinárias.

 

 Foi com ele que compreendi que a poesia podia educar. Que a palavra podia transformar. Que a cultura popular merecia respeito, estudo e valorização.

 

Enquanto o professor Iton Lopes me apresentava novos caminhos dentro da escola, outra importante referência cultural fortalecia minha formação fora dela. Meu cunhado Eunifran Xavier.

 

 Casado com minha irmã Luzinete, Eunifran era um homem culto, inteligente e profundo conhecedor das tradições sertanejas. Sua casa era uma verdadeira fonte de conhecimento.

 

 Foi através dele que tive acesso a livros que ampliaram ainda mais meus horizontes. Em suas estantes encontrei personagens que passariam a fazer parte do meu imaginário cultural: Lampião, Padre Cícero, Patativa do Assaré e tantas outras figuras marcantes da história e da cultura nordestina.

 

 Cada livro que ele colocava em minhas mãos representava uma nova viagem, cada leitura alimentava ainda mais minha curiosidade. Com o professor Iton Lopes e com Eunifran Xavier, eu sentia que possuía tudo o que um jovem sonhador poderia desejar: mestres, livros, exemplos e inspiração. Faltava apenas colocar o pé na estrada.

 

 Infelizmente, o professor Iton Lopes partiu muito cedo. Seu desencarne, ocorrido em 1992, interrompeu uma trajetória que certamente ainda teria muito a oferecer à educação e à cultura cearense.

 

 Anos depois, procurei informações sobre sua obra e sua produção intelectual. Realizei pesquisas, busquei registros e referências que pudessem ajudar a preservar sua memória. Encontrei apenas algumas menções relacionadas à sua participação na vida política de Fortaleza, quando foi candidato a vereador no final da década de 1980.

 

 É compreensível que muito de sua produção tenha se perdido com o tempo. Naquela época não existiam as facilidades de registro e divulgação proporcionadas pela internet. Muitos educadores brilhantes deixaram contribuições valiosas que acabaram permanecendo apenas na memória de seus alunos.

 

 Mas, embora os livros, artigos ou documentos possam ter desaparecido, seu verdadeiro legado continua vivo. Eu sou uma dessas provas. Grande parte da minha atuação cultural nasceu das sementes plantadas por seus ensinamentos.

 

 Projetos como o Cordelizando na Escola carregam fortemente sua influência. Cada oficina que realizo hoje, cada palestra que ministro e cada estudante que incentivo a descobrir a literatura de cordel traz consigo um pouco daquilo que aprendi com ele.

 

 Sempre que entro em uma sala de aula para falar sobre cultura popular, recordo seus exemplos. Sempre que entrego um cordel a uma criança, lembro do livro que recebi de suas mãos. Sempre que incentivo alguém a valorizar as raízes do nosso povo, estou dando continuidade a uma missão que ele ajudou a despertar dentro de mim.

 

 Hoje compreendo que os verdadeiros mestres nunca morrem. Eles permanecem vivos nas ideias que transmitiram, nos valores que ensinaram e nas vidas que ajudaram a transformar.

 

 O professor Iton Lopes e Eunifran Xavier foram dois desses mestres, foram homens que me ensinaram a enxergar além do horizonte. Foram os guias que apontaram os caminhos da cultura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 8

MEU PRIMEIRO CORDEL

 

 

Quem conhece a história

Dessa vida tão sofrida

Pode então me responder

Essa pergunta esquecida:

Quem acendeu Lampião

Nas noites do meu sertão

Procurando uma saída?

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Quem acendeu Lampião” (1986)

 

 

 

   Toda caminhada possui um começo. A minha trajetória como cordelista nasceu da união de duas grandes influências que marcaram minha juventude: os ensinamentos do professor Iton Lopes e os livros que chegavam às minhas mãos através de meu cunhado Eunifran Xavier.

 

 Foi na Escola Maria Thomásia, no bairro da Maraponga, que o professor Iton Lopes me apresentou, de forma mais profunda, à literatura de cordel. Até então, eu conhecia os folhetos através de minha mãe, Dona Quinca, que os lia e cantava com uma beleza que encantava toda a família. Mas conhecer o cordel como leitor era uma coisa. Conhecer sua estrutura e seus segredos era outra completamente diferente.

 

 O professor Iton Lopes me ensinou a observar a construção dos versos, a organização das estrofes, a musicalidade das rimas e a importância da métrica. Com sua orientação, comecei a compreender que o cordel possuía regras próprias e que sua aparente simplicidade escondia uma sofisticada arquitetura poética.

 

 Mais do que ensinar, ele incentivava. Percebendo meu interesse crescente pela poesia popular, passou a desafiar-me a criar meus próprios versos. Pela primeira vez, alguém me fazia acreditar que eu também poderia escrever cordéis.

 

 Enquanto isso, fora da escola, outra fonte de inspiração ampliava meus horizontes. Meu cunhado Eunifran Xavier colocava em minhas mãos livros que alimentavam minha curiosidade sobre a história e a cultura nordestina. Entre essas leituras, uma delas mudaria definitivamente minha vida.

 

 Foram os livros do pesquisador e escritor Frederico Bezerra Maciel, especialmente a monumental obra "Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado". Ao mergulhar naquelas páginas, encontrei um personagem fascinante. Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

A cada capítulo eu descobria novos aspectos da vida do Rei do Cangaço. Sua trajetória, suas contradições, suas lutas, suas estratégias e sua presença marcante na história nordestina despertavam minha imaginação. Eu finalmente havia encontrado meu personagem.

 

 Enquanto outros jovens se encantavam com heróis dos filmes e dos quadrinhos, eu me fascinava por aquela figura histórica que percorrera os sertões nordestinos deixando um legado cercado de controvérsias, mistérios e narrativas populares.

 

 A inspiração cresceu rapidamente. As leituras se multiplicavam. As ideias surgiam e os versos começaram a nascer.

 

 No início, tudo parecia difícil. Aprender a construir rimas, respeitar a métrica e organizar as estrofes exigia dedicação e estudo. Muitas vezes precisei reescrever os mesmos versos várias vezes até alcançar o resultado desejado.

 Mas a paixão pela poesia falava mais alto. Cada estrofe concluída representava uma vitória e cada página preenchida fortalecia minha confiança. Até que chegou o grande momento.

 

 No ano de 1986, publiquei meu primeiro cordel. Seu título era provocador, curioso e carregado de simbolismo: "Quem Acendeu Lampião?" Naquele instante, eu não estava apenas lançando um folheto. Estava inaugurando uma nova fase da minha vida.

 

 Lembro da emoção que senti ao ver meu trabalho concluído. Era uma sensação difícil de descrever. Pela primeira vez, eu deixava de ser apenas leitor para me tornar autor. Era como se uma porta estivesse se abrindo diante de mim. Eu havia descoberto uma ferramenta capaz de unir educação, memória, cultura e arte.

 

 Mais do que escrever versos, compreendi que poderia registrar histórias, preservar tradições e contribuir para que personagens importantes da nossa cultura não fossem esquecidos. Sem perceber, estava encontrando minha missão.

 

 O cordel passou a ocupar um espaço permanente em minha vida. Tornou-se parte da minha identidade. Através dele, comecei a registrar acontecimentos históricos, personagens populares, tradições sertanejas, experiências pessoais e reflexões sobre a sociedade.

 

 Aquele primeiro folheto foi o ponto de partida de uma caminhada que se estenderia por décadas, e vieram novos cordéis, mas nenhuma dessas conquistas superou a emoção daquele primeiro passo.

 

 Hoje, quando olho para trás, compreendo que o verdadeiro nascimento do cordelista Mestre Pádua de Queiróz aconteceu naquele encontro entre um professor que acreditou em seu aluno, um cunhado que compartilhou seus livros e um adolescente que se encantou pela história de Lampião.

O professor Iton Lopes ensinou-me a construir versos, Eunifran Xavier apresentou-me os caminhos da leitura, Lampião ofereceu-me um personagem e o cordel revelou-me uma missão.

 

 Desde então, cada verso que escrevi carrega um pouco daqueles dias de descoberta. Porque foi em 1986, com a publicação de "Quem Acendeu Lampião?", que nasceu oficialmente o cordelista que dedicaria sua vida a contar histórias, preservar memórias e educar através da cultura popular nordestina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PARTE III  AMAZÔNIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 9

O FUZILEIRO NAVAL

 

  Me tornei um Fuzileiro

Troquei a vida Civil

Pela vida na caserna

Por um potente fuzil

Jurei defender com a vida

A bandeira do Brasil.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)

 

 

 

   Ao completar dezenove anos de idade, eu ainda carregava dentro de mim uma saudade imensa de Baturité. Por mais que Fortaleza tivesse me oferecido oportunidades, amigos, estudos, esporte e crescimento pessoal, meu coração continuava preso às serras verdes da minha terra natal.

 

 Havia também uma promessa que eu jamais esquecera. Aquela promessa feita em silêncio, sobre a carroceria de um caminhão, no distante dia 5 de janeiro de 1984, quando vi minha cidade desaparecer no horizonte. Eu voltaria. Mais cedo ou mais tarde, eu voltaria. Mas antes disso, a vida ainda me reservaria novos caminhos.

 

 Meu pai, Antônio Borges, policial militar disciplinado e comprometido com sua profissão, sonhava em ver seus filhos seguindo a carreira militar. Dois de meus irmãos já haviam ingressado nessa trajetória e, naturalmente, ele também desejava que eu escolhesse um caminho semelhante.

 

 Confesso que não me sentia atraído pelo Exército Brasileiro, nem pela Aeronáutica e tampouco pela Polícia Militar, mas havia uma força militar que despertava minha admiração. Os Fuzileiros Navais. Quando chegou o momento de decidir meu futuro, fui direto:

 

— Se for para ser militar, quero ser Fuzileiro Naval.

 

 Não queria apenas vestir uma farda. Queria fazer parte de uma tropa reconhecida pela coragem, pela disciplina e pela capacidade de enfrentar os mais difíceis desafios. Queria pertencer ao grupo dos combatentes anfíbios. Queria integrar a força cujo lema atravessa gerações: Per Are, Per Mare, Per Terra.

 

 A decisão estava tomada e eu sabia que o caminho não seria fácil. O concurso era difícil, a seleção era rigorosa e mais difícil ainda seria enfrentar o curso de formação. Mesmo assim, aceitei o desafio.

Estudei, Preparei-me e fui aprovado.

 

 Receber a notícia da aprovação foi uma das maiores emoções da minha juventude. Mas logo descobri que a verdadeira batalha ainda estava por começar. O curso de formação aconteceria na Amazônia Brasileira, na cidade de Manaus.

 

 Mais uma vez eu deixaria para trás minha família, meus amigos e tudo aquilo que me era familiar. Mas a distância e a saudade, já não me assustava. Eu já havia aprendido a conviver com tudo isso depois de deixar Baturité e reconstruir minha vida em Fortaleza, partir para a Amazônia parecia apenas mais uma etapa da caminhada.

 

 Além disso, havia outro sentimento que me acompanhava: o respeito pelo meu pai. Sabia o quanto aquela conquista o deixava orgulhoso. E, de certa forma, sentia que também estava honrando os valores de disciplina, coragem e responsabilidade que ele havia me ensinado desde criança.

 

 No dia 16 de abril de 1991, embarquei em um avião da Transbrasil com destino a Manaus. Lembro-me daquele momento como se fosse hoje. Enquanto a aeronave ganhava altitude e Fortaleza ficava para trás, eu compreendia que estava iniciando a maior missão da minha vida.

 

 Não era uma viagem de turismo e não era uma aventura imaginada nos livros. Era a vida real. Ali não havia espaço para fantasias. Tudo o que eu encontraria pela frente seria verdadeiro.

 

 Pela primeira vez, eu sentia que estava entrando definitivamente na vida adulta. Cheguei à Amazônia disposto a vencer. E logo descobri que o curso de formação de Soldados Fuzileiros Navais era uma verdadeira prova de resistência física, mental e emocional.

 

 Cada dia apresentava um novo desafio: as exigências eram intensas, os treinamentos eram rigorosos e o desgaste físico era enorme. Muitas vezes, o corpo dizia para parar. Mas a mente precisava continuar.

 

 Ali aprendi que os limites que imaginamos possuir quase sempre são maiores do que pensamos. Aprendi a superar o cansaço, suportar a pressão e aprendi que a determinação é uma das maiores armas de um ser humano.

 

 Foram meses de luta. Meses em que cada amanhecer representava uma nova batalha. Mas eu não estava disposto a desistir. Carregava comigo a educação recebida de meus pais, os ensinamentos dos meus mestres e a força de um nordestino acostumado a enfrentar dificuldades.

 

 Após meses de esforço, sacrifício e dedicação, a vitória chegou. No dia 12 de agosto de 1991, ingressei oficialmente no Corpo de Fuzileiros Navais, e no dia 19 de novembro daquele mesmo ano, concluí o Curso de Formação de Soldados Fuzileiros Navais. Era uma conquista que carregava um significado muito especial.

 

 Naquele instante, eu não era apenas um jovem cearense que havia concluído um curso militar, eu era um combatente anfíbio, um Fuzileiro Naval da Marinha do Brasil e mais do que isso. Era um guerreiro formado na Amazônia.

 

 Com orgulho, costumava afirmar:

 

— Sou o primeiro baturiteense Guerreiro de Selva formado na Amazônia.

 

 E havia razões para esse orgulho. A formação militar transformou profundamente minha vida. Fortaleceu valores que eu já trazia da educação familiar, como honestidade, respeito, responsabilidade e compromisso. Mas também ampliou minha visão sobre o Brasil.

 

 Passei a conviver com companheiros vindos de diferentes estados, culturas e realidades sociais. Conheci sotaques, costumes, histórias e experiências que enriqueceram minha compreensão sobre o povo brasileiro.

 

 Quanto mais conhecia o país, mais orgulho sentia das minhas próprias origens. A Amazônia me impressionava, mas não conseguia ocupar o lugar que Baturité possuía em meu coração, pelo contrário, a distância fortalecia ainda mais meu sentimento de pertencimento.

 

 Foi nesse período que comecei a compreender algo importante.

 

 A cultura nordestina possuía um valor imenso. Nossas tradições, nossa literatura popular, nossas histórias e nossa identidade mereciam ser preservadas e valorizadas. Sem perceber, começava a nascer dentro de mim o futuro defensor da cultura popular.

 

 Naquele momento, porém, eu era apenas um jovem soldado cumprindo sua missão e honrando sua farda. Mas continuava carregando comigo uma promessa, a promessa feita ao deixar Baturité.

 

 E embora o destino ainda me levasse por outros caminhos, eu sabia que um dia retornaria. Porque algumas promessas são feitas com palavras e outras são feitas com o coração. E as promessas feitas com o coração resistem ao tempo, à distância e a qualquer desafio.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 10

A VIDA MILITAR

 

Mostrando na Amazônia

A cultura nordestina

Meu comandante dizia:

Isso vai ser sua ruina

Militarismo e poesia

É coisa que não combina.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)

 

 

 

   Servi ao Corpo de Fuzileiros Navais do Brasil durante cinco anos, três meses e vinte e nove dias. Foram anos intensos, marcados pela disciplina militar, pela defesa da soberania nacional e por experiências que ampliaram minha visão sobre o Brasil e sobre a própria vida.

 

 Nesse período tive o privilégio de conhecer a magnífica Amazônia, que costumo chamar de Jardim do Universo. Mas eu não estava ali como turista. Não estava em busca de aventuras. No dia 19 de novembro de 1991, diante da Bandeira Nacional, fiz um juramento solene. Jurei defender o Brasil, mesmo com o sacrifício da própria vida. Era um compromisso assumido perante a Pátria e perante a lei.

 

 Nunca me arrependi daquele juramento. Embora eu continuasse carregando no coração a promessa feita aos doze anos de idade, de um dia retornar a Baturité, compreendia que naquele momento minha missão era outra. Minha missão era servir ao Brasil. E servi com orgulho.

 

 Na defesa de nossas fronteiras, conheci lugares que jamais imaginei visitar quando era menino no bairro Putiú. Conheci a fascinante cidade de Iquitos, no Peru, onde tive contato com um povo acolhedor e profundamente ligado às águas amazônicas. Em Letícia, na Colômbia, pude observar de perto as manifestações culturais daquele povo irmão, descobrindo semelhanças e diferenças que enriqueciam ainda mais meu entendimento sobre a diversidade latino-americana.

 

 Naveguei por rios lendários. Percorri as águas do Ucayali, do Marañón, do Solimões, do Rio Negro, do Rio Madeira, do gigantesco Rio Amazonas. Cada viagem era uma aula de geografia, história e cultura. Cada missão revelava uma nova face da Amazônia. Cada encontro deixava uma lembrança.

 

 Mas mesmo cumprindo missões militares, eu nunca deixaria para trás minhas raízes culturais. Nos momentos de folga, levava um pouco do Ceará para onde estivesse. Levava meus versos. Levava minha poesia. Levava minha literatura de cordel. Levava Baturité.

 

 Com o tempo, algo curioso aconteceu. Muitos companheiros passaram a me chamar simplesmente de "Baturité". O nome da minha cidade transformou-se em meu apelido, minha marca e eu carregava esse nome com enorme orgulho. Porque cada vez que alguém me chamava de Baturité, era como se minha terra natal estivesse presente ao meu lado. Mesmo a milhares de quilômetros de distância.

 

 Além das atividades militares, também desempenhava funções ligadas à fotografia. Muitas vezes fui designado para registrar eventos oficiais do então Grupamento de Fuzileiros Navais de Manaus — o GptFnMa. Foi durante uma dessas missões que vivi um dos episódios mais curiosos e inesquecíveis da minha carreira militar.

 

 Certo dia, recebi a missão de fotografar a festa de aniversário da esposa do Comandante do Comando Naval da Amazônia Ocidental. Era uma atividade simples. Minha função era apenas registrar o evento.

 

 Ao chegar à residência do ilustre oficial, fui recebido cordialmente pela aniversariante, que solicitou várias fotografias. Tudo corria normalmente. Até que uma das convidadas me reconheceu. Ela havia assistido anteriormente a uma de minhas apresentações culturais e comentou com a anfitriã: — Ele não é apenas militar. Ele é poeta.

 

 A esposa do Almirante demonstrou curiosidade. Então me fez um pedido inesperado: — Antes das fotografias, gostaria que o senhor recitasse alguma poesia em minha homenagem!

 

Naquele momento, lembrei-me de um trabalho que havia concluído recentemente. Um poema intitulado "O Casebre". Comecei a declamar. E algo extraordinário aconteceu. Os convidados silenciaram. As conversas cessaram. Os olhares voltaram-se para a poesia. Quando terminei, a emoção tomou conta do ambiente.

 

 As pessoas começaram a sugerir novos temas. Um falava sobre saudade. Outro sobre família. Outro sobre a vida. E eu, utilizando a velha performance de poeta matuto aprendida desde a infância, desenvolvia versos e reflexões para cada assunto apresentado.

 

 O tempo passou sem que ninguém percebesse. Inclusive eu. A poesia havia conquistado a festa. E as fotografias ficaram esquecidas. Quando retornei ao quartel, fui chamado pelo meu comandante. Ele solicitou o filme para revelação das imagens.

 

 Com sinceridade, respondi: — Comandante, não fotografei a festa. Naturalmente, ele não ficou satisfeito. Afinal, eu havia recebido uma missão específica e não a cumprira. Como já era tarde, determinou que eu permanecesse retido no quartel até que a situação fosse analisada no dia seguinte.

 

 Passei a noite imaginando qual seria minha punição. Talvez alguns dias de prisão disciplinar. Talvez alguma outra sanção. Na manhã seguinte, fui novamente chamado à presença do comandante. Preparei-me para ouvir a punição. Mas fui surpreendido. Em vez de receber alguns dias de cadeia, recebi dez dias de folga.

 

 A esposa do Almirante havia telefonado para agradecer minha participação na festa e elogiar minha atuação como poeta. Segundo ela, aquele havia sido um dos aniversários mais memoráveis de sua vida. Sem perceber, eu havia conquistado uma madrinha poderosa dentro da estrutura militar.

 

 Esse episódio mostrou algo que eu carregaria para sempre. Mesmo dentro dos ambientes mais rigorosos, a cultura possui o poder de aproximar pessoas, emocionar corações e criar pontes onde aparentemente existem apenas protocolos e formalidades.

 

 A vida militar foi uma verdadeira escola de formação humana. Aprendi disciplina. Aprendi liderança. Aprendi espírito de equipe. Aprendi a confiar nos companheiros e a ser digno da confiança deles.

 

 Conheci comunidades ribeirinhas. Conversei com indígenas. Ouvi histórias que jamais encontrei nos livros. Observei costumes, crenças e tradições que enriqueceram profundamente minha formação cultural. Sem perceber, realizava um aprendizado permanente sobre o Brasil profundo.

 

 A curiosidade que me acompanhava desde a infância permanecia viva. Cada experiência transformava-se em conhecimento. Cada encontro transformava-se em memória. E muitas dessas memórias, anos mais tarde, serviriam de inspiração para cordéis, poemas, pesquisas e projetos culturais.

 

 Ao concluir minha passagem pelo Corpo de Fuzileiros Navais, eu já não era o mesmo jovem que havia embarcado para Manaus naquele distante 16 de abril de 1991.

 

 Trazia comigo novos conhecimentos e novas experiências. Na Amazônia fui moldado, e entre a farda de combatente e a alma de poeta, aprendi que é possível servir à Pátria sem abandonar as próprias raízes.

 

Porque, onde quer que eu estivesse, continuava sendo aquilo que sempre fui: um filho de Baturité.

 

 Ao completar cinco anos, três meses e vinte e nove dias de serviços prestados à Marinha do Brasil, chegou o momento de tomar uma decisão. Muitos acreditavam que eu seguiria carreira militar. Eu tinha formação, experiência e condições de continuar servindo.

 

 Gostava da vida militar, orgulhava-me da farda que vestia, orgulhava-me do juramento que havia feito diante da Bandeira Nacional e jamais me arrependi dele. Afinal, naquele juramento eu havia prometido defender meu país, mesmo com o sacrifício da própria vida, foi um compromisso honrado com dignidade e respeito.

 

 Mas existia outro compromisso que habitava meu coração muito antes da vida militar. Um compromisso que não havia sido feito diante de autoridades, nem diante de testemunhas, nem diante da lei. Era uma promessa feita diante de mim mesmo, uma promessa feita por um menino de doze anos de idade.

 

 Aquele menino que, sentado sobre a carroceria de um caminhão de mudanças, viu sua cidade desaparecer no horizonte e jurou que um dia voltaria para casa. Durante todos aqueles anos, essa promessa permaneceu viva dentro de mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PARTE IV  TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 11

O RETORNO AO CEARÁ

 

Ao chegar em Fortaleza

Vi tudo modificado

O Floresta lá da Vila

Estava licenciado

E seu majestoso estádio

Que tristeza, abandonado.

 

Mestre Pádua de Queiróz

 

 

 

   No último ano de minha carreira militar, precisamente em fevereiro de 1996, o destino reservou para mim um dos encontros mais importantes de toda a minha vida.

 

 Foi em Manaus que conheci Marli, uma cearense que havia acabado de chegar à capital amazonense para viver com sua mãe, que já estava radicada naquela cidade. Quando a vi pela primeira vez, senti algo impossível de explicar. Meu coração falou antes da razão. Uma voz silenciosa, mas firme, parecia dizer:

 

— É ela.

 

 Aproximei-me, iniciamos uma amizade que logo se transformou em amor, e pouco tempo depois nos casamos. Tudo aconteceu de forma simples e natural, como se já estivesse escrito pelos desígnios de Deus.

 

 Marli não chegou sozinha. Ela trazia consigo seus dois filhos: Jéssyca, com apenas três anos de idade, e Geymson, então com oito anos. Recebi aqueles dois pequenos como um presente divino. De repente, Deus me concedia não apenas uma esposa, mas uma família inteira para amar, proteger e ajudar a construir.

 

 Apesar de estarmos vivendo na Amazônia, tanto eu quanto Marli compartilhávamos o mesmo sonho. Nossos corações apontavam para a mesma direção. Queríamos voltar para o Ceará. Queríamos recomeçar perto de nossas raízes.

 

 No final de novembro de 1996, embarcamos no navio de passageiros João Pessoa. Durante cinco dias navegamos pelas águas majestosas do Rio Amazonas, iniciando a longa viagem de retorno ao Nordeste.

 

 A cada quilômetro percorrido, aumentava em mim a certeza de que um novo capítulo estava prestes a começar. Ao chegarmos a Fortaleza, fomos morar inicialmente na casa de minha mãe.

 

 Eu estava determinado a reconstruir minha vida e cumprir uma promessa que carregava comigo havia muito tempo. Pretendia servir à minha terra da mesma forma que havia servido ao Brasil durante os anos de Marinha.

 

 Mas logo percebi que a realidade do bairro Vila Manoel Sátiro era diferente daquela que eu guardava na memória. O bairro que outrora era conhecido como um verdadeiro celeiro de craques já não possuía a mesma força esportiva.

 

 O tradicional Floresta Esporte Clube, orgulho da comunidade, encontrava-se com as portas fechadas. Seu estádio estava abandonado. Os campos silenciosos pareciam testemunhar o desaparecimento dos sonhos de muitos jovens.

 

 Sem espaços para a prática esportiva, grande parte da juventude encontrava-se vulnerável aos perigos das ruas, às más influências e à falta de perspectivas. Aquela situação me inquietou profundamente. Eu não conseguia permanecer indiferente. Senti que precisava fazer alguma coisa.

 

 Procurei então o proprietário do tradicional Floresta Esporte Clube, o Senhor Roberto Santiago e apresentei uma proposta. Pedi que me emprestasse o campo e a estrutura esportiva para desenvolver um trabalho social voltado para crianças e adolescentes da comunidade.

 

 Ele aceitou a ideia, mas estabeleceu uma condição. Não queria que eu utilizasse o nome Floresta, fundado por seus pais. Em vez disso, sugeriu que a equipe se chamasse Juventus. Aceitei a proposta.

 

 Assim, em janeiro de 1997, juntamente com meu primo Manoel Alencar, ex-goleiro do Floresta, e contando com o apoio fundamental de minha esposa Marli, iniciamos um projeto esportivo destinado a jovens de até dezessete anos de idade.

 

 O resultado foi imediato. A primeira geração de atletas revelou talentos extraordinários. Muitos daqueles meninos que chegavam ao campo carregando apenas sonhos e esperança acabariam construindo carreiras de destaque no futebol profissional.

 

 Entre eles estava Dudu Cearense, que mais tarde brilharia em importantes clubes do Brasil, da Europa e também na Seleção Brasileira. Outro destaque foi Marcelo Sabiá, que construiu uma sólida trajetória em grandes equipes do futebol nordestino.

 

 Eram apenas os primeiros exemplos de uma longa lista de jovens que encontraram no esporte uma oportunidade de transformação. O sucesso do projeto chamou a atenção do proprietário do clube.

 

 Em 1999, convencido da seriedade e da importância do trabalho realizado, ele decidiu abraçar definitivamente a iniciativa e entregou em nossas mãos o comando do Floresta Esporte Clube. Começava então um intenso período de reconstrução.

 

 Foram anos de muito esforço, dedicação e perseverança. Mas os resultados vieram. Passo a passo, o Floresta voltou a crescer. A instituição recuperou sua identidade, fortaleceu sua base e voltou a ocupar espaço no cenário esportivo cearense.

 

 Anos depois, o clube alcançaria projeção nacional, enfrentando de igual para igual equipes tradicionais do futebol brasileiro. Ver essa trajetória sempre me encheu de orgulho.

 

 Em 2005, entretanto, senti um novo chamado. A cultura popular, a literatura de cordel e as tradições nordestinas passaram a ocupar cada vez mais espaço em minha vida. Percebi que minha missão seguia por outros caminhos.

 

 Era impossível conciliar plenamente as atividades esportivas com a crescente dedicação à arte e à cultura. Depois de refletir profundamente, decidi encerrar minha participação direta no futebol. Saí com a consciência tranquila e a sensação do dever cumprido.

 

 Ao longo daqueles anos, mais de oitocentos jovens passaram pelos treinamentos ministrados por mim e por Manoel Alencar. Mais do que ensinar futebol, procuramos transmitir valores, disciplina, respeito e esperança.

 

 Muitos seguiram carreira no esporte. Outros escolheram caminhos diferentes. Mas todos tiveram a oportunidade de acreditar em si mesmos. Ao olhar para trás, compreendo que aquela iniciativa foi uma continuação natural dos ensinamentos que recebi ao longo da vida.

 

 Primeiro servi ao Brasil como militar. Depois servi à juventude por meio do esporte. E, mais tarde, passaria a servir ao meu povo através da cultura, da literatura de cordel e da preservação da memória nordestina.

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 12

DOS CAMPOS AOS PALCOS

 

Voltei pro mundo da arte

E acredite você

Resolvi compor paródias

Gravei um alegre CD

Sucesso em dois mil e nove

Foi “Com medo de descer.”

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)

 

 

 

   Ao me afastar das atividades esportivas, imaginei que finalmente chegara o momento de cumprir aquela promessa feita a mim mesmo aos doze anos de idade: voltar para minha querida cidade de Baturité. Entretanto, a realidade financeira não me permitia realizar esse sonho da forma como eu desejava. Eu precisava trabalhar para sustentar minha família.

 

 Primeiramente exerci a função de zelador em um supermercado. Era um trabalho digno, mas exigente, que consumia grande parte do meu tempo e das minhas energias. Muitas vezes, mal sobravam algumas horas para me dedicar às atividades culturais.

 

 Posteriormente, surgiu uma oportunidade que acabaria mudando os rumos da minha trajetória artística. Passei a trabalhar como porteiro noturno em um condomínio residencial.

 

 Foi um emprego simples, mas de enorme importância para minha formação cultural. Durante as madrugadas, enquanto a cidade dormia, eu encontrava um ambiente tranquilo e silencioso. Entre uma ronda e outra, aproveitava o tempo para ler, escrever cordéis, desenhar capas, compor músicas e planejar projetos culturais.

 

 Aqueles turnos noturnos transformaram-se em verdadeiras oficinas de criação. Ali nasceram inúmeros versos. O pouco dinheiro que sobrava depois das despesas da casa mal era suficiente para comprar papel, tinta, canetas e outros materiais necessários para minhas produções culturais.

 

 Mas eu não conseguia parar. A cultura já fazia parte da minha essência. Mesmo cansado pela rotina de trabalho, continuava levando adiante, mesmo voluntariamente, o projeto Cordelizando na Escola, inspirado pelo exemplo de meu inesquecível professor Iton Lopes, que tanto contribuiu para minha formação.

Nesse período, minha mãe retornou para Baturité. Eu permaneci em Fortaleza ao lado de minha esposa e dos filhos, conciliando o trabalho que garantia o sustento da família, enquanto as as atividades culturais realizava por puro amor.

 

 Foi então que uma nova porta começou a se abrir. Em 2009, inspirado nas irreverentes paródias do Palhaço Caçarola, resolvi me aventurar em uma área até então pouco explorada por mim: a música humorística.

 

 Com o apoio do talentoso músico Wendel Rodrigues, entrei pela primeira vez em um estúdio de gravação. A experiência foi emocionante. Gravamos um CD de paródias inspirado na maior rivalidade do futebol cearense: Ceará x Fortaleza.

 

 Nascia ali um projeto que superaria todas as minhas expectativas. Ao mesmo tempo, fundei a banda "Pádua de Queiróz e os Netinhos do Vovô". O sucesso foi praticamente imediato.

 

 Logo no primeiro ano, a música "Com Medo de Descer", composta e interpretada por mim, conquistou a simpatia dos torcedores e espalhou-se pelos quatro cantos da capital cearense.

 

 A canção tornou-se um verdadeiro fenômeno musical. Em pouco tempo, a banda passou a receber convites para apresentações em emissoras de rádio, programas de televisão e eventos esportivos.

 

 No ano seguinte, gravamos o segundo volume do CD, desta vez contando com o apoio do presidente do Ceará Sporting Club. As músicas alcançaram uma repercussão que eu jamais poderia imaginar.

 

 Era comum ouvir minha voz ecoando pelas ruas do centro de Fortaleza nos tradicionais carrinhos de som que vendiam CDs populares. A cada esquina, a cada feira, a cada ponto de grande circulação, lá estavam as canções carregadas de humor, criatividade e paixão pelo futebol.

 

 Financeiramente, os resultados foram modestos. Naquela época, a pirataria dominava o mercado informal de música, e quase nada retornava para os artistas. Mas, para mim, existia uma recompensa ainda maior. Meu trabalho alcançava espaços que antes pareciam reservados apenas aos grandes nomes da música regional.

 

 Aquilo representava mais uma confirmação de que os sonhos podem florescer mesmo em terrenos difíceis. Sem perceber, eu estava deixando definitivamente os campos de futebol para ocupar novos espaços.

 

 Os palcos, os estúdios, as escolas e os festivais culturais passavam a fazer parte do meu cotidiano. Uma nova etapa da minha missão estava apenas começando.

 

CAPÍTULO 13

O LICEU DE BATURITÉ

 

Confesso naquele dia

Feliz eu cordelizei

Baturité, minha terra

Do jeitinho que sonhei

Este fato foi marcante

E para mim importante

Eu jamais esquecerei.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Versos Soltos” (2009)

 

 

 

   No ano de 2009, recebi um convite que tocou profundamente meu coração. A professora Ágda Oliveira, que lecionava no Liceu Domingos Sávio, em Baturité, entrou em contato comigo para saber se eu estaria disponível para ministrar uma palestra sobre literatura de cordel naquela instituição de ensino.

 

 Não pensei duas vezes. Aceitei imediatamente. A oportunidade de retornar à minha cidade natal para compartilhar minha arte com jovens estudantes era algo que não tinha preço.

 

 Era muito mais do que uma simples palestra. Era uma espécie de reencontro com minhas próprias origens. Lembro-me da emoção que senti ao chegar ao colégio. Caminhar novamente pelas ruas de Baturité despertava lembranças da infância, dos amigos, da escola, dos sonhos que haviam nascido naquele chão.

 

 Ao entrar na sala e iniciar minha conversa com os alunos, percebi que a literatura de cordel despertava curiosidade e encantamento. Muitos daqueles jovens estavam tendo o primeiro contato mais profundo com uma das mais importantes manifestações da cultura popular nordestina.

 

 Falei sobre os poetas populares. Expliquei a estrutura dos versos. Contei histórias de minha trajetória. Mostrei cordéis, canções e experiências acumuladas ao longo dos anos.

 

 A receptividade dos alunos e dos professores foi extraordinária. Naquela tarde, compreendi algo que mudaria minha maneira de enxergar a cultura. Percebi que a necessidade de agentes culturais não existia apenas em Baturité.

 

 Era uma realidade presente em toda a região do Maciço de Baturité e em inúmeras cidades do interior nordestino. Havia uma enorme carência de iniciativas voltadas para a valorização da identidade cultural, da literatura popular e das tradições de nosso povo.

 

 Ao mesmo tempo, minha vida em Fortaleza atravessava um período difícil. Eu trabalhava muito. Os ganhos nem modestos eram. Os esforços dedicados à cultura raramente produziam retorno financeiro.

 

 Muitas vezes me perguntava se não seria melhor retornar definitivamente para minha terra. Em Baturité, minha mãe vivia com meu irmão Lisboa. Meu pai continuava morando em seu sítio, na serra. Eu sabia que não estaria sozinho.

 

 A ideia de voltar para perto da família tornava-se cada vez mais atraente. Movido por esse desejo, procurei oportunidades de trabalho na cidade. Também busquei apoio junto à Secretaria de Cultura do município para desenvolver projetos culturais. Mas as portas não se abriram naquele momento.

 

 Apesar da boa vontade de algumas pessoas, as condições necessárias para uma mudança definitiva ainda não existiam. Foi então que cheguei a uma conclusão difícil, porém necessária. Baturité teria que esperar mais um pouco.

 

 Meu retorno definitivo ainda não era possível. Entretanto, aquela experiência no Liceu Domingos Sávio deixou uma marca permanente em minha trajetória. Ali realizei, com sucesso, meu primeiro grande trabalho cultural em minha cidade natal.

 

 Foi a primeira vez que apresentei minha arte de forma organizada para estudantes baturiteenses. Foi a primeira vez que percebi, de maneira concreta, que meu trabalho poderia contribuir para fortalecer a identidade cultural de minha própria terra.

 

 Ao final daquela tarde, voltei para Fortaleza levando mais do que recordações. Levei a certeza de que um dia retornaria, e que minha missão cultural ainda estava apenas começando.

 

 E, acima de tudo, levei a esperança de que os versos do cordel ainda haveriam de florescer entre as serras verdes de Baturité, inspirando novas gerações a conhecer, valorizar e preservar a riqueza da cultura nordestina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 14

O NASCIMENTO DO AGENTE CULTURAL

 

Ao chegar na UNILAB

Naquele mês de agosto

Com um folheto na mão

E alegria no rosto

Pra defender minha arte

Estava muito disposto.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Versos soltos”  (2021)

 

 

 

   A partir do ano de 2010, passei a dedicar-me com maior intensidade à cultura tradicional popular, especialmente à Literatura de Cordel. Foram anos de estudo, pesquisa e aproximação com essa tradição tão rica e profundamente enraizada na identidade nordestina. Eu mergulhava cada vez mais no universo dos folhetos, dos poetas populares, das narrativas rimadas e da história do cordel. Entretanto, logo percebi que existia uma barreira que eu precisaria transpor.

 

 O cenário da época era marcado por uma espécie de monopólio cultural bastante visível. Havia a ideia de que somente era considerado cordel legítimo aquilo que fosse publicado por uma determinada e famosa editora. Tudo o que surgia fora desse círculo parecia ser tratado como algo de menor importância, especialmente os trabalhos produzidos de forma independente ou impressos em pequenas gráficas.

 

 Eu possuía poucos recursos financeiros, mas nunca me faltaram determinação e coragem. Precisava encontrar uma forma de superar aquele obstáculo. Foi então que cheguei a uma conclusão que mudaria minha trajetória. Mais importante do que o poeta cordelista era o próprio cordel. Mais importante do que qualquer selo editorial era a força da poesia popular.

 

 Foi com esse pensamento que, em 2012, abracei definitivamente a Literatura de Cordel. No dia 1º de agosto daquele ano, aconteceu a I Feira de Literatura de Cordel do Maciço de Baturité, realizada na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), na cidade de Redenção.

 

 Ao tomar conhecimento do evento, escrevi e datilografei um folheto de cordel intitulado “UNILAB, Um Elo Cultural”, Com apenas um único exemplar debaixo do braço, segui para Redenção sem imaginar que aquele dia marcaria para sempre minha história.

 

 Ao chegar ao local, encontrei renomados cordelistas vindos de diversas regiões. Muitos deles estavam ligados à editora que organizava o evento. Observei atentamente toda a movimentação e, para minha surpresa, não encontrei nenhum poeta representando as treze cidades que compõem o Maciço de Baturité, região onde nasci e construí minhas raízes.

 

 Naquele ambiente, eu era praticamente um desconhecido. Poucas pessoas dirigiram a palavra a mim. Entretanto, um senhor vestindo trajes africanos aproximou-se da mesa onde eu havia colocado meu folheto.

 

 Curioso, pegou o exemplar e começou a folheá-lo. Demonstrou interesse imediato e perguntou quanto custava. Expliquei que aquele era o único exemplar que eu possuía e que não estava à venda. Disse-lhe, porém, que ao final das atividades culturais eu teria uma resposta: se fosse convidado a apresentar meu trabalho, tudo bem; se não fosse, teria a honra de presenteá-lo com aquele cordel. O homem sorriu e agradeceu.

 

 A programação prosseguiu. A tarde deu lugar à noite. Eu assistia, encantado, às apresentações artísticas e culturais que se sucediam no palco. Cada poeta, cada músico e cada manifestação popular reforçavam ainda mais meu amor pela cultura nordestina.

 

 Foi então que aconteceu algo completamente inesperado. Ao final do evento, aquele mesmo senhor subiu ao palco para fazer o encerramento oficial. Diante do público presente, começou a falar sobre a importância da cultura, da educação e da integração dos povos. Em seguida, mencionou meu nome.

 

 Falou sobre o cordel que eu havia escrito contando a história da universidade. E, para minha completa surpresa, convidou-me para encerrar a programação realizando a leitura pública do meu trabalho. Somente naquele momento descobri quem era aquele homem. Tratava-se do professor Paulo Speller, então reitor da UNILAB.

 

 Com o coração acelerado e tomado pela emoção, subi ao palco. Ali, diante de estudantes, professores, artistas e visitantes, dei voz aos versos que havia escrito. Li cada estrofe com a convicção de quem acreditava profundamente na força da poesia popular. Ao concluir a apresentação, fui recebido com aplausos calorosos. A emoção daquele momento permanece viva em minha memória.

 

No dia seguinte, diversos sites e veículos de comunicação destacavam a repercussão da apresentação. As manchetes registravam: “Poeta baturiteense emociona público na I Feira de Literatura de Cordel do Maciço de Baturité.”

 

 Naquele instante, compreendi que havia conseguido ultrapassar a barreira que durante tanto tempo tentara limitar o acesso de muitos artistas populares aos espaços de reconhecimento. Não foi o prestígio de uma editora que abriu aquele caminho. Foi a perseverança e a força do próprio cordel.

 

 Percebi, então, que existem aqueles que vivem para a arte e aqueles que vivem da arte. E compreendi que minha missão estava ligada ao primeiro caminho.

 

 Aquele episódio transformou minha visão sobre o papel da cultura na sociedade. Percebi que a cultura também possuía um extraordinário poder de transformação. Assim como o esporte, ela podia educar e fortalecer identidades.

 

 Foi então que minhas duas missões começaram a caminhar lado a lado. O educador social encontrava o agente cultural. Passei a organizar atividades voltadas para a valorização da memória local, defendendo o patrimônio imaterial de minha terra.

 

 A cada nova iniciativa, fortalecia-se em mim a convicção de que preservar a cultura popular era uma responsabilidade coletiva. Muitas tradições estavam desaparecendo, muitas histórias corriam o risco de serem esquecidas. Era necessário registrar, divulgar e principalmente, era necessário ensinar.

 

 Foi nesse contexto que o cordel passou a ocupar um papel cada vez mais importante em minha vida. Ele reunia tudo aquilo em que eu acreditava. O agente cultural nascia naturalmente. Não por uma escolha planejada, mas como consequência de toda uma trajetória construída desde a infância.

 

 O menino que ouviu histórias no Putiú transformava-se agora em alguém disposto a contar histórias para o mundo. Uma nova etapa estava prestes a começar. Do defensor incansável da cultura nordestina e do homem que compreendera que o verdadeiro valor do cordel não está em quem o publica, mas na capacidade que ele possui de tocar o coração das pessoas e preservar a alma de um povo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PARTE V

O CORDELISTA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 15

O RETORNO A BATURITÉ

 

Foi um tempo de aflição

Tão triste e desanimado

Voltei pra minha cidade

Meu coração enlutado

Que me dizia: agora

Construa aqui seu legado.

 

Mestre Pádua de Queiroz – “Estrofes soltas” (2012)

 

 

 

   Quando deixei Baturité naquele distante janeiro de 1984, parti carregando tristeza, incertezas e sonhos. Saí sobre a carroceria de um caminhão, observando minha terra desaparecer aos poucos no horizonte. Naquele momento, fiz uma promessa silenciosa a mim mesmo: um dia voltaria.

 

 Passaram-se vinte e oito anos. Nesse intervalo, vivi experiências que jamais imaginei viver. Conheci diferentes cidades, servi à Marinha do Brasil, viajei por diversos lugares e acumulei histórias que moldaram meu caráter e ampliaram minha visão de mundo.

 

 Mas o coração nunca abandonou a terra onde nasci. Em 2012, a vida reservou-me momentos de profunda dor. Primeiro, perdi meu irmão Antônio de Lisboa, que morava com nossa mãe, Dona Quinca. Sua partida deixou um vazio difícil de descrever. Poucos meses depois, outro golpe abalou nossa família: o falecimento de meu pai, Antônio Borges.

 

 Foram perdas que me fizeram refletir sobre a brevidade da existência e sobre aquilo que realmente possui valor em nossa caminhada. Diante daqueles acontecimentos, compreendi que havia chegado a hora de voltar para casa.

 

 Não apenas para visitar, mas para viver definitivamente em Baturité. Queria estar perto de minha mãe. Sabia que o retorno não seria fácil. Eu não possuía emprego fixo, não tinha estabilidade financeira e não dispunha de recursos que garantissem conforto à minha família.

 

 Muitos poderiam considerar aquela decisão arriscada, talvez até imprudente. Mas eu já havia aprendido uma grande lição ao longo da vida: Quem passou tanto tempo convivendo com tão pouco aprende a valorizar qualquer conquista. Eu estava acostumado às dificuldades, se conseguisse apenas um pouco, para mim já seria muito. E foi assim que tomei a decisão de regressar.

 

 Curiosamente, da mesma forma que havia partido, eu retornava para cumprir a promessa feita naquele longínquo dia de janeiro de 1984. Ao chegar novamente a Baturité, senti algo impossível de explicar com palavras. Era como reencontrar uma parte de mim que jamais havia partido.

 

 Voltar para Baturité não significava apenas regressar a uma cidade. Significava regressar às minhas origens. Porém compreendia que minha missão seria contribuir para preservar a memória do povo serrano através da arte, da educação e da literatura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 16

OS SARAUS DA PRAÇA SANTA LUZIA

 

Dar para viver de arte

Sendo um artista de ponta?

Respondi: com certeza.

Eu não sou barata tonta.

Só se eu fosse secretário

Com minha verba na conta!

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Minha História”  (2022)

 

 

 

   Entre os anos de 2013 e 2015, Baturité atravessava um dos períodos mais conturbados de sua história política recente. A instabilidade administrativa era evidente. Em pouco tempo, quatro prefeitos passaram pelo comando da maior cidade do Maciço de Baturité.

 

 As constantes mudanças refletiam diretamente na vida da população e, especialmente, no setor cultural. Naquele contexto, conseguir apoio para projetos culturais parecia um sonho impossível.

 

 A cultura encontrava-se abandonada. Faltavam investimentos, faltavam políticas públicas e, muitas vezes, faltava compromisso por parte daqueles que deveriam valorizá-la.

 

 Apesar das dificuldades, encontrei acolhimento em um importante veículo de comunicação da cidade: a Rádio FM Girassol de Baturité. Ali vivi uma experiência marcante ao lado dos comunicadores Josenias de Abreu e Gilmar Costa, o popular Titela.

 

 Durante vários anos, apresentei o programa A Voz da Verdade, transmitido aos sábados à tarde. Era um espaço plural, onde discutíamos política, cultura, religião e assuntos relacionados à vida rural.

 

 O programa possuía grande audiência e permitia que a população expressasse suas opiniões e inquietações. Foi justamente em uma dessas transmissões que vivi um episódio que acabaria trazendo consequências para minha caminhada cultural.

 

Certo dia, um ouvinte telefonou para o programa e fez uma pergunta direta:— Dá para viver de cultura em Baturité? Sem pensar em possíveis repercussões políticas, respondi com a sinceridade que sempre marcou minha trajetória:

— Dá sim. Se for secretário de Cultura, porque todo mês o dinheiro está na conta.

 

 A frase provocou risos entre alguns ouvintes, mas também gerou descontentamento em determinados setores da administração pública. A partir daquele momento, as portas começaram a se fechar para mim.

 

 Meu projeto Cordelizando na Escola, que vinha sendo realizado de forma voluntária e sem qualquer custo para o município, passou a enfrentar obstáculos inesperados.

 

 Pouco tempo depois fui impedido de continuar entrando nas escolas da rede municipal. A justificativa apresentada era que meu trabalho não fazia parte da grade curricular. Na prática, porém, eu sabia que a verdadeira razão era outra. A cultura crítica raramente agrada aos que desejam apenas aplausos.

 

 A situação tornou-se ainda mais difícil. Sem apoio institucional e sem espaço nos equipamentos públicos, precisei buscar alternativas para continuar produzindo e sobrevivendo.

 

 Os poucos recursos financeiros que chegavam vinham, quase sempre, de pessoas da capital ou de outros estados que me procuravam para escrever folhetos de cordel contando a história de familiares, amigos ou personalidades que desejavam homenagear.

 

 Foi dessa atividade que nasceu um slogan que me acompanharia por muitos anos: “Biografia Cordelizada: me conte que eu conto.” Transformar vidas em poesia tornou-se uma forma de preservar memórias e, ao mesmo tempo, garantir alguma renda para sustentar minha família.

 

 Mas a cultura popular tem uma característica extraordinária. Quando uma porta se fecha, ela encontra uma janela. E foi nesse período que surgiu uma das experiências mais significativas de minha trajetória.

 

 Certo dia, fui procurado pelo saudoso amigo Maninho Taveira. Homem apaixonado pela cultura e pelas manifestações populares, ele me apresentou uma proposta que mudaria nossa atuação cultural na cidade.

 

 Criar um evento aberto ao povo. Sem dependência do poder público, sem burocracia e sem exclusões. Assim nasceu o projeto Sarau na Praça. Não havia patrocínio oficial, não havia verbas públicas, não havia estrutura sofisticada. O que existia era vontade, coragem e amor pela cultura.

 

 Para realizar cada edição do evento, percorríamos o comércio local pedindo apoio aos empresários e comerciantes da cidade. De porta em porta. De amigo em amigo. De contribuição em contribuição.

 

 Assim conseguíamos reunir os recursos mínimos necessários para realizar, uma vez por mês, aquele encontro cultural. O palco escolhido foi a Praça Santa Luzia. Um espaço simples, mas carregado de significado para a população de Baturité.

 

 Sempre acreditei que a cultura deve estar perto das pessoas. Ela não pode ficar restrita aos grandes teatros. Não pode permanecer apenas nos ambientes acadêmicos. A cultura precisa ocupar as ruas para dialogar com a comunidade.

 

 Os primeiros saraus foram modestos. Alguns poetas, músicos e poucos espectadores. Mas algo especial acontecia ali. As pessoas sentiam necessidade de compartilhar arte, de ouvir e contar histórias e o mais importante sentiam necessidade de pertencer.

 

 Pouco a pouco os encontros cresceram. Novos artistas passaram a participar, Cordelistas apresentavam seus versos, cantadores mostravam seu talento, músicos levavam suas canções, enquanto pesquisadores compartilhavam conhecimentos. A praça transformou-se em um verdadeiro palco popular.

 

 O mais bonito era observar a diversidade do público: crianças, jovens, adultos, idosos. Todos encontravam espaço naquele ambiente democrático e acolhedor. Os saraus ajudaram a revelar talentos, valorizaram a produção cultural da região.

 

 Em muitas ocasiões observei pessoas emocionadas ao ouvir histórias que faziam parte de suas próprias vidas. Histórias que estavam sendo devolvidas ao povo através da poesia, da música e da oralidade. A arte cumpria sua função social.

 

 Foi na Praça Santa Luzia que compreendi, de forma definitiva, uma das maiores lições de minha caminhada. A cultura não depende de prédios, não depende de cargos, não depende de governos. Ela depende das pessoas que acreditam que a arte pode transformar realidades.

 

Basta que existam pessoas dispostas a mantê-la viva.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 17

CORDELIZANDO NA ESCOLA

 

Aos poucos o meu trabalho

Foi sendo reconhecido

Diversos prêmios ganhei

Mas por ter desenvolvido

O cordelizando na escola

E meu saber dividido.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)

 

 

 

   Entre os diversos projetos que desenvolvi ao longo de minha caminhada, poucos me proporcionaram tanta alegria, aprendizado e realização quanto o Cordelizando na Escola.

 

 A ideia nasceu a partir de minha convivência com o professor Iton Lopes, grande incentivador das ações voltadas para a valorização da cultura e da educação. Em nossas conversas, compartilhávamos uma preocupação comum: como aproximar os estudantes da leitura e do conhecimento utilizando elementos que fizessem parte de sua própria realidade cultural?

 

 A resposta estava diante de nós. O cordel e sua linguagem simples, acessível, criativa e popular. Capaz de despertar a curiosidade e estimular o aprendizado de forma prazerosa.

 

 O projeto surgiu de maneira modesta, mas carregado de propósito. Eu acreditava que a Literatura de Cordel poderia ser muito mais do que um gênero literário. Ela poderia ser uma poderosa ferramenta pedagógica.

 

 Através dela seria possível ensinar história, geografia, meio ambiente, cidadania, valores humanos e identidade cultural. Entretanto, transformar aquela ideia em realidade não foi tarefa fácil.

 

 Como quase tudo em minha trajetória, o Cordelizando na Escola precisou vencer muitos obstáculos. Faltavam recursos, apoio institucional, faltavam também políticas públicas voltadas para a valorização da cultura popular dentro das escolas.

 

 Mesmo assim, seguimos em frente, movidos pela convicção de que estávamos realizando um trabalho necessário. Comecei visitando escolas da região, levava meus folhetos que sempre distribuía gratuitamente para os alunos e bibliotecas escolares.

 Os educadores percebiam no cordel uma ferramenta capaz de aproximar o conhecimento da realidade dos estudantes. Com o passar do tempo, o projeto foi crescendo. As simples apresentações transformaram-se em oficinas culturais.

 

 Os alunos passaram a aprender sobre métrica, rima, estrofação e construção poética. Muitos escreveram seus primeiros versos, enquanto outros produziram seus próprios folhetos com temas ligados à comunidade, à preservação ambiental, à cidadania e à história local passaram a fazer parte das atividades desenvolvidas.

 

 Cada oficina representava uma oportunidade de plantar sementes de valorização cultural. Os resultados superaram todas as expectativas, pois muitos estudantes passaram a demonstrar maior interesse pelos livros. Outros descobriram talentos artísticos que estavam adormecidos. Ver aqueles jovens se reconhecendo em sua própria cultura era uma das maiores recompensas que eu poderia receber.

 

 Nem tudo, porém, aconteceu sem dificuldades. Durante determinados períodos, especialmente em momentos de instabilidade política no município, o projeto enfrentou resistência. Houve ocasiões em que as portas das escolas se fecharam para meu trabalho. Mesmo sendo uma atividade voluntária, realizada sem qualquer custo para o poder público, encontrei barreiras que dificultaram a continuidade das ações.

 

 Mas aprendi que quem trabalha com cultura popular precisa desenvolver uma qualidade fundamental: a persistência. E persistir sempre foi uma característica presente em minha vida.

 

 Em 2017, com a mudança da gestão municipal em Baturité, vislumbrei novos horizontes. As portas das instituições de ensino voltaram a se abrir. O Cordelizando na Escola retomou seu espaço.

 

 Mais uma vez pude levar a poesia popular para dentro das salas de aula. Infelizmente, continuei percebendo que a cultura local nem sempre recebe a atenção e o cuidado que merece por parte daqueles que, direta ou indiretamente, possuem essa responsabilidade.

 

 Mesmo assim, o projeto continuou avançando, porque sua força não estava nos gabinetes, estava nos estudantes, nos professores, nas escolas que acreditavam em seu valor, e principalmente no poder transformador da educação.

 

 Ao longo dos anos, centenas de crianças e jovens tiveram contato com a Literatura de Cordel através desse trabalho. Muitos conheceram pela primeira vez uma das mais importantes manifestações culturais do Nordeste. Hoje, quando olho para trás, considero o Cordelizando na Escola uma das realizações mais importantes de toda a minha trajetória. Porque através dele consegui unir as duas grandes paixões que sempre orientaram minha caminhada.

 

 A educação e a cultura. Duas forças capazes de transformar vidas. Duas missões que Deus colocou em meu caminho e que sigo desempenhando com amor, dedicação e esperança.

 

 E enquanto houver uma escola de portas abertas e um estudante disposto a ouvir uma história rimada, o Cordelizando na Escola continuará cumprindo sua missão de semear conhecimento, identidade e cultura pelas terras do Maciço de Baturité.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 18

CORDELIZANDO NO SÍTIO

 

Quando veio a pandemia

Então tudo se fechou

O isolamento social

O mundo todo adotou

Cantando Raul dizia

Hoje chegou o dia

Em que a terra parou.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “versos soltos” -  (2020)

 

 

 

   Aproveitando o mote do Cordelizando na Escola, permito-me dar um salto no tempo para falar de uma experiência que nasceu em circunstâncias completamente inesperadas. O ano era 2021. O mundo ainda enfrentava os efeitos da pandemia da Covid-19. As escolas haviam suspendido suas atividades presenciais. Os eventos culturais também estavam suspensos.

 

 As praças estavam vazias. Os abraços tornaram-se raros. O isolamento social modificou a vida de milhões de pessoas. Para quem trabalhava com educação e cultura, o desafio era enorme. Como continuar levando conhecimento ao público?

 

 Foi nesse momento que precisei me reinventar mais uma vez. Até então, minha atuação estava muito ligada aos encontros presenciais. Mas a pandemia exigia novos caminhos. Foi então que passei a utilizar com mais frequência as redes sociais. Transformei meu sítio em uma verdadeira sala de aula a céu aberto.

 

 Entre árvores, pássaros, plantas e paisagens serranas, comecei a gravar vídeos sobre Literatura de Cordel. Falava sobre a história dos folhetos. Explicava a métrica. Ensinava a construção das rimas. Apresentava grandes mestres da poesia popular.

 

 A cada gravação, procurava mostrar que o cordel continua vivo, atual e capaz de dialogar com todas as gerações. Mesmo separados fisicamente, conseguíamos nos aproximar através da tecnologia.

 

 Os vídeos passaram a alcançar pessoas de diferentes cidades e estados. Alunos que antes participavam das atividades presenciais agora acompanhavam as aulas pela internet. Professores utilizavam os conteúdos em suas atividades pedagógicas. Novos admiradores da Literatura de Cordel passaram a conhecer meu trabalho.

 

 A experiência foi tão positiva que acabou dando origem a uma nova vertente do projeto. Nascia ali o Cordelizando no Sítio. Com o retorno gradual das atividades presenciais, passei a receber estudantes, educadores, pesquisadores e amantes da cultura popular em minha própria residência.

 

 O sítio transformou-se em espaço de aprendizagem, convivência e troca de experiências. O ambiente simples e acolhedor aproximava as pessoas das raízes culturais da minha cidade serrana. Cada visita tornava-se uma experiência única.

 

 Os participantes podiam conhecer de perto meu acervo de folhetos, ouvir histórias, fazer perguntas e compartilhar suas próprias experiências. O mais emocionante era perceber o entusiasmo dos estudantes.

 

Sempre que uma nova turma chegava ao sítio, a animação tomava conta do ambiente. E quase sempre alguém repetia uma frase que acabaria se tornando uma espécie de marca registrada daqueles encontros:

 

— Hoje tem cordel no sítio!

 

 Ao ouvir essas palavras, meu coração se enchia de alegria. Porque elas representavam muito mais do que uma simples visita. Representavam o interesse dos jovens pela cultura e a continuidade de um trabalho iniciado muitos anos antes, com a certeza de que as sementes plantadas através do Cordelizando na Escola estavam produzindo frutos.

 

 O Cordelizando no Sítio mostrou-me que a educação não está limitada às salas de aula. Ela pode acontecer sob a sombra de uma árvore. Sei que a pandemia trouxe desafios imensos para a humanidade. Mas também nos ensinou novas formas de aproximação, e foi justamente naquele período de distanciamento que descobri uma nova maneira de levar a Literatura de Cordel ao encontro das pessoas.

 

 Uma extensão natural de minha missão como educador, cordelista e agente cultural. Uma prova de que a cultura popular sempre encontra caminhos para florescer, mesmo nos tempos mais difíceis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PARTE VI

A OBRA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 19

MEUS CORDEIS

 

Para mim é muito fácil

Abordar qualquer assunto

Em verso metrificado

Eu faço um belo conjunto

De estrofes que parece

Que o tema virou prece

E que Deus escreveu junto.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Versos soltos” (2000)

 

 

 

 Quando alguém visita meu acervo ou conhece parte de minha produção literária, costuma fazer uma pergunta que escuto com frequência:

 

— Quantos cordéis o senhor já escreveu?

 

 A verdade é que perdi as contas há muito tempo. Foram tantos anos dedicados à Literatura de Cordel que seria difícil precisar a quantidade exata de folhetos publicados.

 

 O que sei é que muitos já vieram ao mundo através de minhas mãos e também sei que muitos outros ainda esperam sua vez de nascer. Porque a inspiração não se aposenta, e o cordel continua sendo parte fundamental da minha existência.

 

 Mas confesso que nunca medi a importância de um cordelista pela quantidade de obras que produziu. Na minha maneira de compreender essa arte, cordelista não é aquele que escreveu mais. Cordelista é aquele que ama e vive a Literatura de Cordel.

 

 Ao longo de minha caminhada, o cordel tornou-se a principal ferramenta de trabalho que utilizei para dialogar com a sociedade. Se alguém me perguntasse qual foi o instrumento mais importante em minha missão cultural, eu responderia sem hesitar:

 

A Literatura de Cordel.

 

 Foi através dela que encontrei uma maneira simples, acessível e profundamente popular de comunicar ideias, transmitir conhecimentos e preservar memórias. Cada cordel que escrevi nasceu de uma motivação especial. Alguns surgiram da necessidade de registrar fatos históricos que não poderiam ser esquecidos. Outros nasceram da vontade de homenagear pessoas que contribuíram para a construção da identidade de nossa região. Muitos foram escritos com objetivos educativos. Outros vieram da observação do cotidiano. E alguns simplesmente nasceram da inspiração poética que acompanha minha caminhada desde a juventude.

 

 Meu acervo possui uma temática bastante diversificada. Escrevi sobre a história de Baturité e sua Região. Sobre educação, meio ambiente, cidadania, fé e religiosidade, acontecimentos históricos e também desenvolvi um trabalho que se tornou uma marca registrada de minha produção literária: as biografias cordelizadas.

 

 Transformar a trajetória de uma pessoa em versos tornou-se uma forma especial de eternizar memórias. Foi dessa experiência que nasceu meu conhecido slogan: “Biografia Cordelizada: me conte que eu conto.”

 

 Ao longo dos anos, inúmeras famílias confiaram a mim suas histórias. Recebi relatos de vidas simples e extraordinárias, e procurei transformar cada uma delas em poesia popular. Sempre busquei utilizar uma linguagem acessível.

 

 Nas escolas, muitos dos meus folhetos passaram a ser utilizados como material pedagógico. Professores encontraram nos cordéis uma ferramenta eficiente para trabalhar interpretação textual, história, geografia, cultura regional e produção de textos.

 

 Quando observo meu acervo, não enxergo apenas uma coleção de folhetos. Vejo capítulos da minha própria vida. Cada cordel guarda um momento especial para mim. São páginas que registram minhas preocupações, minhas esperanças e meu compromisso permanente com a cultura popular.

 

 Mais do que livros impressos ou folhetos distribuídos em feiras e escolas, meus cordéis tornaram-se testemunhos de uma missão construída ao longo da vida.

 

 Uma missão que continua. Porque enquanto houver uma história para contar, uma memória para preservar ou uma lição para ensinar, sempre haverá espaço para um novo cordel nascer.

 

 E enquanto Deus me conceder inspiração e força, continuarei escrevendo versos para celebrar a cultura, a história e o povo nordestino.

construída ao longo da vida.

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 20

QUEM ACENDEU LAMPIÃO?

 

Quem acendeu Lampião?

Foi meu primeiro cordel

Retratei o cangaceiro

Da maneira mais fiel

Foi o meu primeiro passo

E eu sigo neste compasso

Cumprindo bem meu papel.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Versos soltos” – 2011

 

 

 

   Ao longo dos anos escrevi dezenas de cordéis sobre os mais variados temas. Muitos deles receberam boa acolhida do público. Outros foram utilizados em escolas, projetos culturais e atividades educativas. Todos possuem importância em minha caminhada.

 

 Mas existe uma obra que ocupa um lugar especial em minha trajetória literária. Trata-se do cordel "Quem Acendeu Lampião?" Mais do que um simples folheto, essa obra representa a materialização de meu pensamento crítico e de minha maneira de enxergar a história nordestina.

 

 A ideia nasceu de uma pergunta aparentemente simples: Quem teria acendido Lampião? Quem despertou naquele jovem sertanejo o desejo de seguir o caminho do cangaço? A pergunta carregava uma reflexão profunda.

 

 Ao longo da história, muitas vezes se procura compreender apenas os efeitos, sem investigar as causas. Lampião tornou-se uma das figuras mais conhecidas do Nordeste brasileiro.

 

 Herói para alguns. Bandido para outros. Personagem complexo que continua despertando debates até os dias atuais. Mas eu desejava olhar além do personagem. Queria refletir sobre as circunstâncias sociais, econômicas e humanas que ajudaram a construir aquela trajetória.

 

 Foi a partir dessa provocação que desenvolvi o cordel. Utilizando pesquisa histórica, observação crítica e imaginação poética, construí uma narrativa que convidava o leitor a pensar sobre um dos capítulos mais fascinantes da história sertaneja.

 

 Desde os primeiros versos percebi que aquele trabalho possuía algo diferente. O tema despertava curiosidade imediata. As pessoas queriam saber qual seria minha interpretação para aquela pergunta.

Quem teria acendido Lampião? Seria a injustiça? A violência? A vingança? As desigualdades do sertão? Ou a soma de todos esses fatores? A obra não pretendia oferecer respostas definitivas. Seu propósito era provocar reflexão. Estimular o debate.

 

 Ao ser publicado, o cordel recebeu excelente acolhida do público. Leitores de diferentes cidades demonstraram interesse pela obra. Professores passaram a utilizá-la em atividades pedagógicas. Pesquisadores e estudiosos da temática do cangaço também reconheceram o valor da abordagem proposta.

 

 Pouco a pouco, o trabalho começou a circular em espaços culturais que eu jamais havia imaginado alcançar. O cordel ampliou minha visibilidade como autor. Levou meu nome a novos públicos. Abriu portas para palestras, apresentações e encontros literários.

 

 Mas o reconhecimento não foi o aspecto mais importante daquela experiência. O que mais me marcou foi perceber que os leitores saíam da leitura fazendo perguntas. Questionando, refletindo e buscando compreender melhor a história de seu próprio povo.

 

 Esse sempre foi um dos principais objetivos de minha produção literária. Utilizar a poesia não apenas para entreter, mas também para educar. Não apenas para informar, mas também para provocar pensamento crítico.

 

 Afinal, a Literatura de Cordel possui essa extraordinária capacidade de transformar temas complexos em leitura acessível e envolvente. E foi através deste cordel que percebi claramente o poder da palavra escrita.

 

 Até hoje, quando alguém menciona essa obra, recordo com carinho o caminho percorrido desde sua criação. Ela permanece como um dos trabalhos mais lembrados por leitores, estudantes e admiradores de minha produção literária. E continua sendo, para mim, a prova de que um cordel pode fazer muito mais do que contar uma história.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 21

MINHA MÚSICA E COMUNICAÇÃO POPULAR

 

A paródia é uma releitura

De um texto ou uma canção

Nunca considere plágio

E nem mesmo tradução.

Não é obra original

É expressão cultural

De nossa rica Nação.

 

Mestre Pádua de Queiróz – A moto velha (2014)

 

 

 

   Ao recapitular minha trajetória, percebo que não poderia deixar de dedicar um capítulo especial à música. Ela sempre esteve presente em minha vida. Às vezes de forma discreta. Outras vezes ocupando papel de destaque. Mas sempre caminhando ao lado da poesia.

 

 Minha relação com a música começou ainda nos tempos de escola. Foi ali que descobri o poder das paródias musicais. Gostava de adaptar letras conhecidas para transmitir mensagens educativas, criar humor ou abordar situações do cotidiano estudantil.

 

  Sem perceber, dava os primeiros passos em uma atividade que me acompanharia por toda a vida. Com o passar dos anos, enfrentei momentos difíceis que exigiram de mim capacidade de reinvenção.

 

 Foi então que compreendi que meu dom para a poesia poderia ultrapassar os limites do cordel. Passei a utilizar a música como ferramenta de comunicação popular. Afinal, uma canção possui a capacidade de alcançar pessoas que muitas vezes não têm o hábito da leitura.

 

 No início, utilizei o futebol como tema principal de muitas composições e paródias. O esporte era uma paixão que me acompanhava desde a infância e servia como inspiração para inúmeras criações.

 

 Mas foi após meu retorno definitivo a Baturité, em 2012, que a música assumiu uma nova função em minha vida. Observando de perto o mando e desmando da política local, encontrei na paródia musical uma forma de exercer cidadania.

 

 Através do humor, da crítica e da criatividade, passei a denunciar problemas, reivindicar direitos e defender aqueles que muitas vezes não possuíam voz nem vez. Quando os salários dos servidores públicos municipais atrasavam, transformei a conhecida canção de José Augusto, “Eu Quero Apenas Carinho”, em uma paródia intitulada “Eu Quero o Meu Dinheirinho”.

 

 A música rapidamente ganhou repercussão e passou a tocar nas emissoras de rádio da cidade. Em outra ocasião, utilizei a canção “Desiludido”, do cantor Paulo Sérgio, para protestar contra os problemas no abastecimento de água. A paródia recebeu o título de “Dona CAGECE” e refletia o sentimento de muitos moradores que enfrentavam dificuldades no acesso ao serviço.

 

 Confesso que perdi a conta de quantas paródias produzi ao longo desses anos. Foram centenas. Músicas do cancioneiro popular brasileiro ganharam novas letras, adaptadas à realidade do povo de Baturité e do Maciço.

 

 Mas meu trabalho musical não se limitou à crítica social. Também utilizei a música como instrumento de conscientização. Compus letras alertando a população sobre o combate ao mosquito Aedes aegypti. Produzi canções incentivando a preservação das florestas. Defendi a proteção dos recursos naturais. Incentivei o descarte correto do lixo. Abordei temas ligados à saúde, à educação e à cidadania. Sempre procurei colocar a arte a serviço da comunidade.

 

 Durante essa caminhada tive a felicidade de encontrar pessoas que acreditaram em meu trabalho. Entre elas, um irmão que a cultura me presenteou: Ribamar Néco. Cantor, radialista e proprietário de um estúdio de gravação em Baturité, Ribamar tornou-se um parceiro importante em minha trajetória musical.

 

 Com ele aprendi muito. Aprendi sobre interpretação,  gravação, produção musical, e sobre o compromisso que um artista deve ter com a qualidade de seu trabalho.

 

 Nossa amizade transformou-se em parceria artística. Juntos desenvolvemos diversos projetos e compartilhamos experiências que contribuíram para meu crescimento como compositor.

 

Além das paródias, também passei a investir cada vez mais em composições autorais. Ao longo dos anos escrevi dezenas de músicas inspiradas em experiências pessoais, sentimentos, temas culturais e questões sociais.

 

 Entre essas composições, uma das mais emocionantes foi “Pra Não Te Esquecer”.

A canção nasceu em parceria com Ribamar Néco, como uma homenagem póstuma ao cantor Genival Santos, artista que deixou sua marca na música popular brasileira.  A interpretação magistral de Ribamar Néco deu vida à composição e tornou aquele trabalho ainda mais especial.

 

 Canção autoral como “Mestres da Cultura” representa meu compromisso com a preservação da memória e dos saberes tradicionais. Nessa obra procurei homenagear homens e mulheres que dedicaram e dedicam suas vidas à manutenção da cultura popular cearense. Cada verso funciona como um agradecimento àqueles que mantêm vivas nossas tradições.

 

 Também destaco a composição “Eternamente”, outra canção autoral que aborda sentimentos universais ligados ao amor, à saudade e à dimensão afetiva da existência humana.

 

 Meu objetivo sempre foi contribuir para que a cultura popular ocupasse o espaço que merece. Hoje continuo escrevendo, compondo, aprendendo e cada vez mais procuro aprofundar minha dedicação às composições autorais. Porque a música, assim como o cordel, tornou-se uma extensão de minha própria voz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 22

FESTIVAIS, BIENAIS E ENCONTROS

 

Chegar numa bienal

Foi difícil conseguir

Eu cheguei “qui nem matuto

No parque do Anhembi

Cordelizei em São Paulo

E fiz bonito ali.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Versos Soltos” (2024)

 

 

   Participar de uma bienal do livro é um sonho para a maioria dos escritores. Para mim não era diferente. Durante muitos anos alimentei esse desejo em silêncio, trabalhando, escrevendo e acreditando que um dia teria a oportunidade de levar meus cordéis para um dos maiores eventos literários do país.

 

 Em 2017, durante uma atividade cultural realizada na ASSALCE — Associação dos Servidores da Assembleia Legislativa do Ceará — tive a oportunidade de falar sobre minha trajetória e sobre meus projetos culturais.

 

 Em determinado momento, mencionei um sonho que ainda não havia conseguido realizar. O sonho de participar de uma Bienal do Livro. Falei sem imaginar que aquelas palavras produziriam algum resultado concreto. Mas a vida costuma surpreender aqueles que perseveram.

 

 No ano seguinte, recebi uma ligação da própria ASSALCE. A notícia me encheu de alegria. Fui informado de que meu nome havia sido indicado para participar da Bienal Internacional do Livro do Ceará. A emoção foi enorme. Finalmente surgia a oportunidade tão esperada.

 

 No entanto, para confirmar minha participação, eu deveria entrar em contato com os organizadores responsáveis pelo espaço dedicado à cultura popular e à Literatura de Cordel.

 

 Foi aí que começou uma nova decepção. Perdi a conta das ligações que fiz. Ninguém atendia. Enviei mensagens, não obtive retorno, procurei pessoalmente uma das pessoas responsáveis pela organização do espaço, pois conhecia aquele organizador, mas, mesmo assim, não fui recebido.

 

 O tempo passou, Bienal aconteceu e eu fiquei de fora. Posteriormente descobri que os responsáveis por aquele setor eram ligados à mesma editora de Literatura de Cordel que, durante anos, exerceu forte influência sobre determinados espaços culturais. Como eu não fazia parte daquele grupo, minha participação acabou não se concretizando. Confesso que foi doloroso. Não pelo evento em si. Mas porque percebi que ainda existiam barreiras sendo erguidas contra artistas independentes.

 

 Entretanto, a vida já havia me ensinado uma lição importante. Tudo tem seu tempo e aquilo que nos pertence encontra o caminho para chegar até nós. Continuei trabalhando. Continuei realizando oficinas, palestras, saraus e projetos culturais. Sem guardar mágoas e sem abandonar meus sonhos.

 

 Foi então que, em 2024, aconteceu algo completamente inesperado. Na gestão do prefeito Herberlh Mota, recebi uma ligação que jamais esquecerei. Do outro lado da linha estava o próprio prefeito de Baturité, que com simplicidade e respeito, fez um convite que me deixou profundamente emocionado.

 

 Representar nossa cidade na XXVII Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada no Parque Anhembi. Aceitei imediatamente. No dia seguinte, recebi as passagens aéreas. Tudo aconteceu de forma rápida. Mas, acima de tudo, aconteceu de forma sincera.

 

 Viajei para São Paulo levando na bagagem muito mais do que livros e cordéis. Levava minha história, levava minha cultura, levava o nome de Baturité, levava o orgulho de representar o Ceará e o povo do Maciço de Baturité.

 

 Ao chegar ao evento, senti uma mistura de emoção, gratidão e responsabilidade. Sabia que aquela oportunidade não era apenas minha. Ela representava todos aqueles que acreditaram em meu trabalho ao longo dos anos.

 

 Fiz o que sempre procurei fazer. Apresentei minha arte, compartilhei meus cordéis, defendi a cultura popular mostrando a riqueza das tradições nordestinas. O resultado superou todas as expectativas.

 

 Meu trabalho chamou a atenção do Sistema Brasileiro de Televisão – SBT. A emissora realizou uma cobertura especial de minha participação no evento. Ver meu trabalho sendo divulgado em uma rede nacional de televisão foi uma experiência inesquecível.

 

 Naquele momento compreendi que o reconhecimento chega quando encontra terreno fértil. E que nenhuma porta fechada é capaz de impedir definitivamente a caminhada de quem persevera. Mas as boas notícias não pararam por aí.

 

 No ano seguinte, recebi novos convites e novas oportunidades. Fui contratado pelo Museu Ferroviário João Felipe, em Fortaleza. Participei de atividades promovidas pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. Atuei em ações desenvolvidas pela Secretaria de Educação de Baturité. E, em parceria com a Editora IMEPH, participei durante três dias da XV Bienal Internacional do Livro do Ceará.

 

 Dessa vez, não como alguém tentando entrar, mas como alguém convidado para contribuir. Como alguém reconhecido pelo trabalho que desenvolveu ao longo de muitos anos. Aquilo representou muito mais do que uma participação em um grande evento. Representou a consolidação de uma trajetória construída com esforço, perseverança e amor à cultura popular.

 

 Ao longo dos anos também participei de inúmeros festivais, feiras culturais, encontros literários, seminários, congressos e eventos voltados para a valorização dos saberes tradicionais.

 

 Estive na Casa de Saberes Cego Aderaldo, em Quixadá.nParticipei dos encontros Conselheiro Vivo, em Quixeramobim. Realizei oficinas e palestras em escolas de Fortaleza, Caucaia, Mulungu, Viçosa do Ceará, Monsenhor Tabosa, Aratuba e diversos outros municípios. Integrei edições do SESC Herança Nativa. Participei dos Encontros dos Mestres do Mundo. Compartilhando experiências com artistas, pesquisadores, educadores e mestres da cultura popular.

 

 Mas nenhuma dessas conquistas apagou a lembrança daquele escritor que, um dia, sonhou participar de uma bienal e viu as portas se fecharem diante de si. Hoje compreendo que os caminhos da vida nem sempre seguem a direção que desejamos.

 

 Mas quando o trabalho é verdadeiro, quando a dedicação é sincera e quando a missão é maior do que os interesses pessoais, o tempo se encarrega de colocar cada coisa em seu devido lugar. E foi exatamente isso que aconteceu comigo.

 

 As portas que um dia se fecharam ficaram para trás. Outras se abriram. E através delas pude levar a Literatura de Cordel, a cultura popular e o nome de Baturité para novos horizontes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PARTE VII

RECONHECIMENTO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 23

A ACADEMIA CEARENSE DE LITERATURA

 

Onde eu vou levo a cultura

Do cordel, minha poesia

Paródias músicas autorais

Histórias, muita alegria

Sou membro da ACLC

A nossa academia.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)

 

 

 

   Outro acontecimento marcante de minha trajetória literária também ocorreu durante o período da pandemia da Covid-19. Em um momento em que o mundo enfrentava o isolamento social e as atividades culturais precisavam se reinventar, surgiu uma iniciativa que fortaleceria ainda mais a literatura de cordel no Ceará.

 

 O idealizador desse projeto foi o poeta e cordelista groairense Charles Melo, que reuniu doze poetas cordelistas de diversas regiões do estado com o propósito de fundar uma instituição dedicada à valorização e ao fortalecimento da poesia popular nordestina. Assim, no dia 23 de agosto de 2021, nasceu a Academia Cearense de Literatura de Cordel (ACLC).

 

 Tenho a honra de fazer parte desse grupo pioneiro, reconhecido como o conjunto dos membros fundadores da academia. Para mim, aquele momento representou a concretização de um sonho que jamais imaginei alcançar quando escrevia meus primeiros versos ainda na juventude.

 

 As reuniões iniciais aconteceram de forma virtual, uma necessidade imposta pelas circunstâncias da época. Mesmo separados fisicamente, estávamos unidos pelo mesmo ideal: preservar, divulgar e fortalecer a literatura de cordel cearense.

 

 Durante esses primeiros encontros, foram realizados os sorteios das cadeiras acadêmicas e a distribuição dos cargos administrativos da nova instituição. Charles Melo foi eleito presidente da ACLC, tendo o poeta cordelista Pedro Sampaio como vice-presidente.

 

 Recebi dos confrades a honrosa missão de exercer o cargo de primeiro-secretário da Academia Cearense de Literatura de Cordel. Assumi a função com entusiasmo e senso de responsabilidade. Cabia-me colaborar diretamente na organização administrativa da instituição, registrar as decisões, acompanhar os trabalhos internos e contribuir para a consolidação daquela importante iniciativa cultural.

O trabalho foi intenso, mas profundamente gratificante. Com o passar do tempo, a academia ampliou seus quadros e recebeu mais trinta e oito cordelistas, completando as cinquenta cadeiras destinadas aos mais destacados representantes da literatura de cordel do Ceará.

 

 Cada novo membro incorporado fortalecia ainda mais o projeto coletivo que estávamos construindo. Ao olhar para trás, recordo-me dos tempos em que escrevia meus primeiros folhetos sem imaginar a dimensão que a literatura de cordel alcançaria em minha vida.

 

 Naquela época, meu objetivo era simples: contar histórias, preservar memórias e compartilhar conhecimentos por meio da poesia popular. O caminho, porém, foi longo.

 

 Foram anos dedicados à pesquisa cultural, à produção literária, às apresentações em escolas, às oficinas educativas, às palestras e às inúmeras ações voltadas para a valorização da identidade nordestina. Cada cordel publicado representava um novo passo.

 

 Gradualmente, meus trabalhos passaram a alcançar novos leitores. Professores, estudantes, pesquisadores e admiradores da literatura popular começaram a acompanhar minha produção, abrindo portas para novos espaços de atuação.

 

 Entre esses espaços estavam justamente os ambientes acadêmicos dedicados ao estudo, à pesquisa e à preservação da literatura. Receber o reconhecimento de instituições literárias foi uma experiência profundamente emocionante.

 

 Não enxergava aquilo como uma conquista exclusivamente pessoal. Via naquele reconhecimento uma homenagem a todos os poetas populares que dedicaram suas vidas à preservação das tradições nordestinas.

 

 Sentia-me representando uma herança cultural construída por gerações de homens e mulheres que transformaram a palavra em instrumento de educação, memória e resistência.

 

 Compreendi então que a academia e o cordel não pertenciam a universos distintos. Eram caminhos diferentes que conduziam ao mesmo objetivo: preservar, produzir e transmitir conhecimento.

 

 Minha participação na Academia Cearense de Literatura de Cordel fortaleceu ainda mais meu compromisso com a educação, a pesquisa, a cultura popular e a valorização das raízes nordestinas. E compreendi que aquela conquista não representava um ponto de chegada. Era apenas o início de uma nova missão.

 

 

CAPÍTULO 24

MESTRE DOS SABERES E FAZERES DAS CULTURAS POPULARES DE BATURITÉ

 

E em dois mil e dezoito

A câmara municipal

Me deu o título de mestre

De nossa cultura local

Pra mim um reconhecimento

Que eu achei sensacional.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)

 

 

 

   O ano de 2018 marcou um dos momentos mais significativos de minha trajetória cultural. Naquele período, a Câmara Municipal de Baturité, por iniciativa da vereadora Clarissa Calado, apresentou um projeto de lei que tinha como objetivo reconhecer oficialmente os agentes culturais que prestaram relevantes serviços à cultura do município.

 

 A proposta criava o título de Mestre dos Saberes e Fazeres das Culturas Populares de Baturité, uma honraria destinada àqueles que dedicaram suas vidas à preservação, difusão e valorização das tradições culturais de nossa terra.

 

 Após a tramitação legislativa, a lei foi aprovada pelos vereadores e sancionada, passando a integrar o conjunto das políticas públicas de valorização da cultura popular do município.

 

 Foi então que recebi uma notícia que me emocionou profundamente. Meu nome havia sido escolhido para receber o título. Mais do que isso. Eu me tornaria o primeiro Mestre dos Saberes e Fazeres das Culturas Populares de Baturité. O primeiro da história do município.

 

 Ser reconhecido em minha própria cidade foi uma emoção difícil de descrever. Não poderia existir prêmio maior para mim. Receber o reconhecimento do povo que acompanhou minha caminhada, que conheceu minhas origens, minhas lutas e meus sonhos, representou uma das maiores honras de minha vida.

 

 Ainda hoje, quando recordo aquele momento, sinto a mesma emoção que tomou conta de meu coração. Porque nenhuma homenagem possui significado maior do que ser valorizado por sua própria terra.

 

 Foi como receber um abraço coletivo de Baturité, terra que me viu nascer, crescer e construir minha história. Confesso que naquele momento uma sucessão de lembranças tomou conta de meus pensamentos.

 

 Recordei os tempos difíceis da infância. As primeiras experiências com a leitura. Os versos escritos em folhas simples de papel. As apresentações realizadas em escolas, praças e eventos culturais.

 

 Cada passo daquela caminhada parecia desfilar diante de meus olhos. Ao longo da vida, jamais trabalhei em busca de homenagens ou títulos. Ao receber essa homenagem, meu pensamento voltou imediatamente para as pessoas que fizeram parte dessa caminhada.

 

 Lembrei-me de minha querida mãe, Dona Quinca, minha primeira referência de amor, trabalho e sabedoria. Lembrei dos professores que me incentivaram a estudar e acreditar em meus sonhos. Lembrei dos amigos que estiveram presentes nos momentos de alegria e também nas dificuldades. Lembrei das crianças e dos jovens que participaram de meus projetos educativos e culturais. Lembrei dos poetas populares, dos mestres da tradição oral e dos cordelistas que me inspiraram ao longo da vida.

 

 Compreendi mais uma vez que nenhuma conquista é construída sozinho. Toda trajetória é resultado de encontros. De aprendizados. Receber o título de Mestre dos Saberes e Fazeres das Culturas Populares de Baturité fortaleceu ainda mais minha responsabilidade como educador, escritor e agente cultural.

 

 Percebi que aquele reconhecimento trazia consigo uma missão ainda maior. A missão de continuar compartilhando conhecimentos, e acima de tudo, um compromisso permanente com Baturité, terra que me viu nascer, crescer e construir minha história.

 

 Ser o primeiro Mestre dos Saberes e Fazeres das Culturas Populares de Baturité é uma honra que guardarei para sempre em meu coração. Não como um título individual. Mas como um símbolo de tudo aquilo que a cultura popular pode transformar na vida das pessoas quando é cultivada com amor, respeito e dedicação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 25

TESOURO VIVO DA CULTURA CEARENSE

 

Em dois mil e vinte e dois

O melhor aconteceu

A SECULT CEARÁ

Meu trabalho reconheceu

Lá na cidade do Crato

Realizei o sonho meu.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Minha História” (2022)

 

    Até aquele momento, eu nunca havia participado de nenhum edital cultural. Também não tinha experiência com concursos públicos voltados para a cultura. Na verdade, sequer conhecia a existência da Lei dos Tesouros Vivos da Cultura do Ceará, uma iniciativa pioneira criada pelo Governo do Estado para reconhecer e proteger mestres e mestras detentores de saberes tradicionais.

 

 Minha vida sempre esteve voltada para a prática cultural. Eu escrevia cordéis, mas nunca havia pensado em disputar editais ou concorrer a títulos oficiais. Tudo começou a mudar em 2022.

 

 Certo dia, recebi uma ligação de um velho amigo dos tempos de futebol na Vila Manuel Sátiro, em Fortaleza. Era Paulo Queiroz. Durante nossa conversa, ele perguntou se eu já havia pensado em participar do edital dos Tesouros Vivos da Cultura Cearense. Respondi que não.

 

 Foi então que ele passou a me incentivar. Falou da importância de minha trajetória. Lembrou meus trabalhos na literatura de cordel. Destacou minhas ações culturais e educativas. Insistiu para que eu apresentasse minha candidatura.

 

 Confesso que, num primeiro momento, achei que aquilo era apenas um sonho distante. O Ceará é um dos maiores celeiros culturais do Brasil. Terra de artistas consagrados. De mestres da tradição. Concorrer com pessoas daquela grandeza parecia algo impossível. Mas, Paulo insistiu tanto, que decidi tentar.

 

 Procurei algumas pessoas em minha cidade para me orientar sobre como elaborar o projeto exigido pelo edital. As respostas não foram animadoras. Alguns disseram não poder ajudar. Outros se dispuseram a prestar assessoria, mas cobravam valores que estavam muito além de minhas condições financeiras.

 

  Voltei para casa pensativo. Foi então que tomei uma decisão. Se outras pessoas conseguiam elaborar aqueles projetos, eu também poderia aprender. Abri o edital. Comecei a estudar cada página. Cada exigência. Cada documento solicitado. Passei dias mergulhado naquele universo completamente novo para mim.

 

  Lembro-me de uma noite em especial. Eu estava diante do computador, cercado por documentos, anotações e dúvidas. Sentia-me perdido em meio a tantas informações. Foi justamente naquela noite que recebi a visita de dois grandes amigos vindos do Rio Grande do Norte.

 

 Gabriel Demetrius, natural de São Paulo do Potengi e servidor do IFCE Campus Baturité, Levi Medeiros, também potengiense e funcionário da Ematerce. Ao perceberem minha dificuldade, decidiram ajudar. E não foi uma ajuda qualquer.

 

 Gabriel mergulhou profundamente no projeto. Estudou o edital, organizou informações, pesquisou documentos. Levi também abraçou a causa com dedicação e entusiasmo. Pouco tempo depois, juntou-se ao grupo mais um colaborador fundamental: o professor Temilson Costa, natural da cidade de Caicó, no Rio Grande do Norte.

 

 Formamos uma verdadeira equipe na construção de um projeto capaz de representar toda uma vida dedicada à literatura de cordel e à cultura popular. O esforço foi enorme. Mas a dedicação daqueles amigos foi ainda maior.

 

 Quando o resultado foi divulgado, veio a surpresa. Meu nome estava entre os aprovados, mais do que isso, obtive a terceira maior nota entre todos os concorrentes do Estado do Ceará.

 

 No dia 19 de dezembro de 2022, vivi um dos momentos mais emocionantes de minha existência. No Centro Cultural do Cariri, na cidade do Crato, recebi das mãos do então secretário da Cultura do Ceará, Fabiano Piúba, o título de Mestre da Cultura Tradicional Popular do Estado do Ceará.

 

 Eu passava a integrar oficialmente o seleto grupo dos Tesouros Vivos da Cultura Cearense. Naquele instante, senti que toda uma vida dedicada ao cordel, à educação e à cultura popular estava sendo reconhecida.

 

 Compreendi que aquela conquista não era apenas minha. Sem Paulo Queiroz, talvez eu jamais tivesse conhecido o edital, sem Gabriel Demetrius, Levi Medeiros e Temilson Costa, talvez o projeto nunca tivesse alcançado a qualidade necessária.

 

 Sem o apoio permanente de minha esposa Marli, que sempre esteve ao meu lado nos momentos mais difíceis, a caminhada teria sido muito mais árdua. E ao lado deles existiram muitas outras pessoas que, desde o início de minha trajetória, estenderam a mão sem esperar nada em troca.

 

 No ano seguinte, outro momento de orgulho, recebi da Universidade Estadual do Ceará (UECE) o diploma de Notório Saber em Cultura Tradicional Popular. Era mais um reconhecimento que me emocionava profundamente.

 

 Doutor Poeta. Um título que carregava consigo não apenas o reconhecimento acadêmico, mas sobretudo o respeito aos saberes construídos na experiência, na vivência e na tradição popular.

 

 Entre todos os reconhecimentos recebidos ao longo da caminhada, poucos possuem significado tão profundo quanto o título de Tesouro Vivo da Cultura Cearense.

 

 Ser Tesouro Vivo significa compreender que os conhecimentos acumulados ao longo da vida precisam ser compartilhados e transmitidos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PARTE VIII

A ESFEROGRAVURA E LEGADO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 26

COMO DESCOBRI A ESFEROGRAVURA

 

Para ilustrar meus cordéis

Criei a esferogravura

Na arte de desenhar

Não tinha muita cultura

E com caneta na mão

E farta imaginação

Rabiscava uma figura.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Versos soltos” (2006)

 

 

 

   A história da Esferogravura começou de maneira simples, como costumam começar muitas das grandes descobertas. Naquele período, eu estava concluindo mais uma obra em literatura de cordel. O texto já estava pronto. Os versos haviam sido revisados. A publicação seguia seu curso natural. Faltava apenas a capa.

 

 Como todo cordelista sabe, a capa possui uma importância especial. Ela é o primeiro contato do leitor com a obra. É o convite visual que desperta a curiosidade e prepara o espírito para a leitura.

 

 Sabendo disso, procurei um amigo desenhista para produzir a ilustração. Expliquei o tema do cordel. Apresentei minhas ideias. Contei como imaginava a imagem. Ele ouviu atentamente e respondeu que poderia realizar o trabalho sem dificuldades. Animado, perguntei quanto custaria a ilustração. A resposta veio imediatamente:

 

— Como você é meu amigo, vou cobrar apenas mil e trezentos reais.

 

 Por alguns instantes fiquei sem reação. Aquele valor estava muito além de minhas condições financeiras naquele momento, agradeci sua atenção. Reconheci a qualidade de seu trabalho. Mas, educadamente, precisei desistir da encomenda.

 

 Voltei para casa pensativo. Enquanto caminhava, uma inquietação crescia dentro de mim. Não era revolta e não era desânimo. Era algo diferente. Uma mistura de desafio, curiosidade e determinação.

 

 Ao chegar em casa, sentei-me diante de uma mesa simples, cercado por livros, folhetos de cordel, papéis e anotações. Foi então que travei um diálogo comigo mesmo. Uma conversa silenciosa que mudaria os rumos de minha vida artística.

— Se ele sabe fazer, eu também posso aprender.

 

Aquela frase ecoou dentro de mim. Peguei apenas uma folha de papel comum e uma caneta esferográfica, e comecei a desenhar. Primeiro vieram os rabiscos, depois os contornos, ...  novas tentativas. Passei horas experimentando.

 

 Quando parei, já tinha diante de mim o primeiro desenho de uma caminhada que jamais teria fim. Pouco a pouco, comecei a perceber que aqueles desenhos possuíam características próprias. E não eram desenhos convencionais, era uma nova linguagem artística que acabara de surgir em minha frente. Foi então que batizei a nova técnica. Nascia a Esferogravura.

 

 O nome unia duas ideias fundamentais. "Esfero", em referência à caneta esferográfica, e "gravura", em alusão ao resultado visual alcançado. A Esferogravura tornou-se uma forma particular de gravura desenhada à mão, produzida exclusivamente com caneta esferográfica.

 

 Logo começaram a surgir capas ilustradas com personagens populares, vaqueiros, agricultores, poetas, retirantes, animais, igrejas, estações ferroviárias, serras e paisagens do Maciço de Baturité. A arte que havia nascido da necessidade transformou-se em paixão e a paixão transformou-se em missão.

 

A Esferogravura passaria a ocupar um lugar definitivo em minha trajetória como cordelista, pesquisador e Mestre da Cultura Popular.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 27

DA CANETA ESFEROGRÁFICA A ARTE DE ENTALHAR

 

Com goivas e umburana

Fiz minha primeira xilo

Hoje xilogravurista

Entalho isto ou aquilo

Ilustro o meu cordel

E descanso mais tranquilo.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Versos Soltos” – (2023)

 

 

 

 À medida que aprofundava minha experiência como ilustrador e desenvolvia a Esferogravura, passei a observar com ainda mais atenção a arte da xilogravura nordestina.

 

 A xilogravura sempre esteve presente no universo do cordel. Durante décadas, foi responsável por ilustrar capas que se tornaram verdadeiros símbolos da cultura popular brasileira.

 

 Desde os primeiros folhetos que tive em mãos, admirava aquelas imagens marcadas pela força dos contrastes, pela simplicidade dos traços e pela capacidade de contar histórias sem o auxílio das palavras.

 

 Ao estudar essa tradição, encontrei inspiração em grandes mestres da xilogravura nordestina. Entre eles destacavam-se três referências fundamentais em minha formação artística: Mestre Francisco Correia Lima, conhecido nacionalmente como Francorli,  o  Mestre José Lourenço e o Mestre João Pedro, de Juazeiro do Norte.

 

 As obras desses artistas impressionavam pela força visual e pela capacidade de transformar simples pedaços de madeira em verdadeiras obras de arte. Eu observava atentamente cada detalhe.

 

 Um aprendizado construído através da observação, da pesquisa e da admiração. Quanto mais estudava aqueles mestres, mais compreendia a grandeza da xilogravura como expressão da cultura popular nordestina.

 

 A Esferogravura havia nascido da caneta esferográfica, mas minhas inquietações artísticas continuavam me conduzindo por novos caminhos. Foi então que decidi dar um passo além. Inspirado por Mestre Francorli,  Mestre José Lourenço e Mestre João Pedro, resolvi experimentar também a arte da xilogravura.

Adquiri minhas primeiras ferramentas. Procurei orientação em livros, vídeos e conversas com artistas experientes. E comecei a talhar minhas primeiras tábuas de umburana, madeira tradicionalmente utilizada pelos xilógrafos nordestinos.

 

 Mais uma vez encontrei desafios. A madeira exigia paciência. Exigia precisão. Cada erro ficava registrado na própria matriz. Mas justamente por isso o aprendizado tornou-se ainda mais fascinante.

 

 A cada nova gravura concluída, sentia-me mais próximo da tradição que tanto admirava. Não buscava copiar os mestres, buscava aprender com eles. Compreender seus ensinamentos. Absorver a essência de uma arte que há gerações ajuda a contar a história do povo nordestino.

 

 Assim, a Esferogravura e a xilogravura passaram a caminhar juntas em minha trajetória artística. Uma nascida da necessidade e da invenção, a outra herdada da tradição e do respeito aos antigos mestres. Ambas alimentadas pelo mesmo sentimento: o amor pela literatura de cordel e pela cultura popular nordestina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 28

LEGADO E MISSÃO

 

Um sonho só se sonha só

Isso você percebeu

Sonho não tem bluetooth

Cada qual sonha o seu

Mas para realizar

É preciso misturar

O seu sonho com o meu.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Raul Seixas: início, meio e fim (2026)

 

 

 

    Quando olho para trás e percorro com a memória os caminhos que trilhei ao longo da vida, sinto uma profunda gratidão. Gratidão a Deus, à minha família, aos amigos, aos mestres que me ensinaram, às comunidades que me acolheram, a todas as pessoas que caminharam ao meu lado.

 

 Minha história começou de forma simples, como a de tantos outros meninos nordestinos. Nasci no bairro Putiú, em Baturité, cercado pelas serras verdes do Maciço de Baturité e pelos ensinamentos de uma família humilde e trabalhadora. Naquele tempo eu não imaginava os caminhos que a vida me reservaria.

 

 Não imaginava que seria reconhecido como Mestre da Cultura Popular e Tesouro Vivo da Cultura Cearense, e muito menos imaginava que criaria uma técnica artística chamada Esferogravura. Mas a vida tem seus próprios caminhos.

 

 Aprendi que os obstáculos podem transformar-se em oportunidades quando enfrentados com coragem. Ao longo de minha caminhada, descobri que o verdadeiro sucesso não está na quantidade de títulos recebidos.

 

 O verdadeiro sucesso está na capacidade de contribuir para a vida das pessoas. Está na capacidade de deixar algo positivo para as futuras gerações. Por isso sempre procurei utilizar meus conhecimentos para servir.

 

 Se existe uma palavra capaz de resumir minha trajetória, essa palavra é missão. Sempre o vi como instrumento educativo. Nunca enxerguei a cultura apenas como entretenimento. Sempre a vi como ferramenta de transformação social. Nunca enxerguei a arte apenas como produção estética. Sempre a vi como forma de preservar a memória coletiva.

 

 Foi essa visão que orientou todos os projetos que desenvolvi. Ao longo dos anos tive o privilégio de conhecer pessoas extraordinárias. Cada encontro deixou marcas positivas em minha vida. Aprendi que ninguém constrói uma trajetória sozinho. Toda realização é resultado de uma rede de afetos, ensinamentos e colaborações.

 

 Por isso considero cada reconhecimento recebido uma conquista coletiva. Quando fui reconhecido como Mestre da Cultura Popular, pensei em minha mãe. Quando recebi o título de Tesouro Vivo da Cultura Cearense, pensei em meus amigos que estavam ali perto quando eu precisava. Quando vejo meus cordéis sendo utilizados nas escolas, penso nos professores. Quando observo jovens produzindo seus próprios versos, penso no futuro.

 

 Porque o futuro sempre foi minha principal preocupação. A cultura popular só continuará viva se for transmitida às novas gerações. Os saberes tradicionais só sobreviverão se forem compartilhados. As memórias só permanecerão vivas se forem registradas. E essa responsabilidade pertence a todos nós.

 

 Vivemos em uma época marcada por transformações rápidas. A tecnologia aproxima pessoas, mas também pode provocar esquecimentos. Muitas tradições correm o risco de desaparecer. É justamente nesse contexto que a cultura popular se torna ainda mais importante.

 

 Ao escrever meus cordéis, sempre procurei construir pontes entre passado e futuro. Registrar memórias sem deixar de dialogar com os desafios contemporâneos. Preservar tradições sem ignorar as mudanças do mundo.

 

 O equilíbrio talvez seja um dos maiores desafios enfrentados pelos agentes culturais. Ao me sentir inspirado adquiri a capacidade de inspirar outras pessoas a continuar essa caminhada.

 

Se algum jovem leitor encontrar nestas páginas motivação para estudar, criar, pesquisar ou preservar a cultura popular, sentirei que todo esforço valeu a pena. Porque a verdadeira herança cultural não está nos objetos. Está nos conhecimentos transmitidos. Está nas sementes plantadas. E eu continuo acreditando que as sementes da educação, da cultura e da arte são capazes de transformar o mundo.

 

“ O aprendizado é a essência da arte, e o ensinamento é a tradução do sucesso.”

 

Mestre Pádua de Queiróz

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO ESPECIAL

COSTA SENNA: O ENCONTRO COM O POETA QUE INSPIROU MINHA CAMINHADA

 

No verão ou no inverno

Todo dia tem cordel

Desempenho meu papel

Sem jamais fugir da raia

Enquanto a mente não “faia”

Vou seguindo a divulgar

A cultura popular

A arte que me completa

Só deixo de ser poeta

Quando a morte me levar.

 

Mestre Pádua de Queiróz – “Para Costa Senna” ( 2024)

 

 

 

   Alguns encontros marcam nossa vida para sempre. Outros, mesmo demorando décadas para acontecer, parecem ter sido escritos pelo destino. Minha história com o poeta cordelista Costa Senna começou no ano de 1986, quando eu era aluno da Escola Estadual Maria Thomásia, em Fortaleza. Naquele período tive a felicidade de conhecer o professor Iton Lopes, um educador que exerceu profunda influência em minha formação intelectual e cultural.

 

 Certo dia, o professor presenteou-me com uma coleção de literatura de cordel escrita por Costa Senna, poeta cearense radicado no Estado de São Paulo. Foi um presente simples. Mas transformador.

 

 Ao começar a leitura daqueles folhetos, senti algo diferente. Fiquei encantado. A linguagem era clara. As palavras fluíam naturalmente. Os versos possuíam musicalidade. Os trocadilhos despertavam curiosidade e humor. As mensagens chegavam ao leitor de forma direta e acessível.

 

 Era uma literatura popular que falava para o povo. Naquele momento eu ainda não imaginava que um dia me tornaria cordelista. Mas aquelas leituras deixaram marcas profundas em minha formação.

 

 Cada folheto lido aumentava meu interesse pela poesia popular. O tempo passou, aquele jovem leitor transformou-se em poeta popular. Tornei-me Mestre da Cultura Tradicional Popular do Estado do Ceará e, posteriormente, Tesouro Vivo da Cultura Cearense. Mas um sonho permanecia guardado em meu coração. Conhecer pessoalmente Costa Senna.

 

 Eu desejava apertar a mão do poeta que havia ajudado a despertar minha paixão pelo cordel. Desejava agradecer a ele o quanto sua obra havia contribuído para minha trajetória.

 

 Durante muitos anos esse encontro permaneceu apenas no campo da esperança. Até que surgiu uma oportunidade. No ano de 2024 fui convidado para participar da XXVII Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

 

 A viagem representava um momento importante de minha caminhada literária. Ao consultar a programação do evento, recebi uma notícia que me deixou profundamente emocionado. Costa Senna também participaria da Bienal. Mais do que isso. Ele se apresentaria no mesmo espaço em que eu realizaria minhas atividades.

 

 Meu coração acelerou. Passei a contar os dias,  as horas e depois os minutos. Finalmente teria a oportunidade de conhecer aquele que eu considerava um dos grandes responsáveis por minha aproximação com a literatura de cordel.

 

 Mas a vida, às vezes, gosta de testar nossa paciência. Uma mudança inesperada em minha programação impediu que o encontro acontecesse. Quando percebi, a oportunidade havia passado. Voltei para casa carregando uma mistura de alegria e frustração.

 

 Alegria por ter participado de um evento tão importante, e frustração por não ter conseguido encontrar meu ídolo. Pensei que talvez aquela oportunidade não voltasse a surgir.

 

 Mas Deus costuma escrever histórias melhores do que aquelas que imaginamos. No ano seguinte, fui convidado a participar da XV Bienal Internacional do Livro do Ceará. E eu passaria três dias no Centro de Eventos do Ceará.

 

 Ao consultar novamente a programação, tive uma agradável surpresa. Costa Senna também estaria presente. Desta vez participando das atividades do Espaço Cordel e Repente.

 

 Ao chegar ao evento, procurei imediatamente informações. Perguntei a amigos cordelistas, organizadores e a colegas de caminhada. Eu queria encontrá-lo. Em determinado momento, um dos companheiros apontou para uma pessoa que estava próxima e disse:

 

— Pergunte a esse sujeito aí do lado.

 Olhei. Observei atentamente, e imediatamente pensei: "Aquele homem tem jeito de Costa Senna, tinha o rosto de Costa Senna e tinha a expressão serena dos grandes poetas populares.”

 

 Aproximei-me. Antes mesmo que eu dissesse qualquer palavra, ele abriu os braços e me abraçou. Foi um daqueles momentos que dificilmente podem ser descritos. Durante alguns segundos senti como se o tempo tivesse voltado a 1986.

 

 O menino que recebeu os cordéis das mãos do professor Iton Lopes estava finalmente diante do poeta que tanto admirava. Emocionado, contei minha história, falei sobre o presente recebido na Escola Maria Thomásia, sobre minha caminhada cultural, dos projetos que desenvolvi ao longo dos anos, e falei sobre minha gratidão.

 

 Costa Senna ouviu tudo com atenção e generosidade. Em seguida falou de sua amizade com o professor Iton Lopes. Recordamos com alegria aquele educador extraordinário que havia partido cedo demais, mas que continuava vivo através das sementes culturais que plantou em tantas vidas.

 

 Naquele instante compreendi algo importante. O professor Iton Lopes havia sido uma ponte. Uma ponte entre o poeta Costa Senna e o futuro cordelista Mestre Pádua. Sem aquele presente de 1986, talvez minha história com o cordel tivesse seguido outro caminho.

 

 Naquele mesmo dia vivi outro momento inesquecível. Subi ao palco para apresentar meu trabalho. Mas a plateia era especial. Ali estavam alunos da rede municipal de ensino de minha cidade, Baturité. Jovens que, de alguma forma, representavam a continuidade da missão que venho desenvolvendo há tantos anos.

 

 E entre os presentes estava também Costa Senna. O poeta que me inspirou, o  homem cujos versos ajudaram a despertar minha vocação, o mestre cuja obra atravessou décadas para encontrar eco na trajetória de outro cordelista.

 

 Enquanto apresentava meu trabalho, sentia uma emoção difícil de explicar. Era como se um ciclo estivesse se completando. O leitor havia encontrado o autor. Naquele dia compreendi que a literatura de cordel é muito mais do que versos impressos em papel. Ela é uma corrente de saberes. E eu tive o privilégio de viver um dos capítulos mais bonitos dessa história.

 

Obrigado, professor Iton Lopes.

Obrigado, Costa Senna.

Vocês fazem parte da minha caminhada, e fazem parte, para sempre, da história do Mestre Pádua de Queiróz.

 

 

POSFÁCIO

O CORDEL DOS CORDELISTAS

 

 


Eu cumprimento feliz

O poeta meu irmão

Cordelista do Brasil

Que faz da inspiração

Um grito forte e valente

Defendendo simplesmente

Nossa rica tradição.

 

Do antigo ao moderno

Do folheto ao digital

Segue vivo o nosso canto

Mesmo em tempo desigual

Entre aplauso e sofrimento

Cordel vira instrumento

De um valor cultural.

 

Já foi voz do povo simples

Nas praças do interior

Notícia, fé e denúncia

Aventura e muito humor

Hoje enfrenta o mercado

Que não vende nem fiado

O que nasceu com amor.

 

O poeta antigamente

Era dono do fazer

Escrevia e imprimia

Sem ninguém interceder

Vendendo de mão em mão

Levando informação

Pra quem queria saber.

 

Como fez com maestria

Nosso mestre pioneiro

Leandro Gomes de Barros

Um poeta verdadeiro

Sem depender de engrenagem

Transformou cada folhagem

Num tesouro brasileiro.

 

Mas o tempo foi mudando

E o sistema se fechou

Editoras dominando

O caminho que restou

E o poeta dependente

Paga caro atualmente

Por aquilo que criou.

Hoje seu verso é refém

Realmente do mercado

Quem não entra no esquema

Já é deixado de lado

Mesmo tendo qualidade

Perde espaço na cidade

Por não ser apadrinhado.

 

Pra publicar sua história

O poeta sofre além

Paga capa, paga gráfica

E divulgação também

E no fim dessa jornada

Sua parte é quase nada

Do folheto que contém.

 

Esse jogo desigual

Vai cansando o criador

Que sustenta a cultura

Mas não colhe o seu valor

Enquanto a arte resiste

Tem sistema que insiste

Em explorar o autor.

 

E nas feiras literárias

Que deviam acolher

Só se vê os mesmos nomes

Sempre a aparecer

Quem é fora do circuito

Mesmo sendo bom e muito

Nem consegue se inscrever.

 

É um círculo fechado

De vitrine e seleção

Onde poucos têm espaço

E muitos ficam no chão

Não por falta de talento

Mas por falta de assento

Na tal “instituição.”

 

Mas o cordel verdadeiro

Nunca foi só um caminho

É até mais que estrada

Que não se abriu sozinho

Na cidade e no sertão

Lápis, caneta na mão

Rimando amor com carinho.

 

A capa vi um debate

Ontem mesmo acontecer

O que era alternativo

Virou regra sem dizer

Pois a arte que é livre

Hoje às vezes sobrevive

Com padrão pra obedecer.

 

Mas o moderno chegou

Abrindo nova janela

Com isopor e nanquim

Ou com arte mais singela

E também no digital

Surge um mundo plural

No visor de uma tela.

 

E isso não é ameaça

À tradição que ficou

É continuação da história

Que o tempo transformou

E eu digo que o cordel

Está escrito no papel

E não no que se talhou.

 

Tem também o narcisismo

Que hoje vejo em exposição

Mais preocupado consigo

Do que com a construção

Da poesia que produz

Troca o verso pela luz

Da própria exaltação.

 

O cordel vira vitrine

De um “eu” que quer crescer

Mais do que o próprio texto

Que deve prevalecer

E o que era voz do povo

Vira palco de um só novo

Querendo se promover.

 

Enquanto uns querem palco

E aplauso exagerado

Outros seguem na missão

Segue firme e dedicado

Na arte se reconhece

E o cordel permanece

Simples, forte e engajado.

 

 

 

 

O cordel é resiliente

E é bonito de se ver

Na chama da resistência

Ainda insiste em viver

Na união dos poetas

Que mantêm portas abertas

Para quem quer aprender.

 

Cordelista de verdade

Não anda só na estrada

Divide espaço e saber

Na arte compartilhada

Ensina quem tá chegando

E segue sempre ajudando

Sem querer fama inflada.

 

O verdadeiro poeta

Não precisa se impor

Ele deixa que o seu verso

Seja ponte e condutor

De histórias que caminham

E sozinhas se alinham

Na memória do leitor.

 

Pois nas feiras literárias

Ainda existe união

Um ajuda o outro a vender

Dividindo seu balcão

E quando falta dinheiro

Se junta o grupo inteiro

Pra manter a tradição.

 

Quem entende a essência

Sabe bem o seu lugar

Jamais andará sozinho

E nem precisa se exaltar

Pois o brilho verdadeiro

É fazer o povo inteiro

No seu verso se enxergar.

 

Poeta que compartilha

Multiplica o seu valor

E ao invés de competir

Fortalece o criador

E a arte coletiva

Sempre cresce mais ativa

Quando se faz com amor.

 

 

 

Que as feiras se abram mais

Pra quem quer participar

Que não haja exclusividade

Pra quem possa publicar

Pois o cordel é do povo

E precisa de um novo

Jeito de se espalhar.

 

Que o poeta tenha acesso

Com o cordel que é tradição

Que não precise de selo

Na sua apresentação

Que seu verso tenha vez

Sem depender de talvez

Para autorização.

 

Que a capa seja livre

Pra seguir a criação

Seja em madeira ou pixel

O que vale é a intenção

De expressar sentimento

Com verdade no momento

De beleza na expressão.

 

E que o verso seja rei

Com estrofe bem rimada

Que o poeta entenda isso

E não caia em cilada

Quem deixa o ego de lado

E faz do povo aliado

Segue longe nessa estrada.

 

Que o cordel siga livre

Sem nenhuma imposição

Que o poeta busque a rima

Na mais linda inspiração

Pois o verso é quem governa

Essa arte tão eterna

Nascida do coração.

 

Que a união seja a base

Do respeito que queremos

E na arte popular

Juntos, sei que podemos

Caminhar independente

Com nosso cordel à frente

E assim, nós seguiremos.

 

 

 

 

Cordelista do Brasil

Receba essa saudação

Que seu verso siga firme

Mesmo em contradição

Entre luta e esperança

Que jamais perca a lembrança

De sua real missão.

 

Eu já plantei uma árvore,

Colhi frutos, dividi,

Relatei minha vivência

Em cordéis que escrevi.

Nesta vida de poeta

Com minha rima completa

Cantei, chorei e sorri.

 

Baturité, 26.04.2026

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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