SINOPSE
Esta autobiografia narra a emocionante
trajetória de Mestre Pádua de Queiróz, poeta popular, cordelista, pesquisador,
educador e Mestre da Cultura Tradicional Popular do Estado do Ceará.
Nascido
em Baturité, no Maciço cearense, Mestre Pádua transformou os desafios da vida
em inspiração para construir uma história marcada pela perseverança, pelo amor
ao conhecimento e pelo compromisso com a cultura popular. Das brincadeiras de
infância às experiências no Corpo de Fuzileiros Navais, das primeiras
apresentações em escolas aos grandes eventos literários do país, sua caminhada
revela a força de quem acreditou no poder transformador da educação e da arte.
Ao
longo destas páginas, o leitor conhecerá episódios marcantes de sua vida
pessoal e profissional, sua dedicação à literatura de cordel, a luta pela
valorização da cultura nordestina, o reconhecimento como primeiro Mestre dos
Saberes e Fazeres das Culturas Populares de Baturité, sua participação na
fundação da Academia Cearense de Literatura de Cordel e a conquista do título
de Tesouro Vivo da Cultura Cearense.
A
obra também registra o nascimento da Esferogravura, técnica artística criada
pelo autor, inspirada na tradição da xilogravura nordestina, demonstrando que a
criatividade popular continua viva e em constante renovação.
Mais
do que a história de um homem, este livro é o retrato de uma geração, de uma
comunidade e de uma cultura que resistem ao tempo através da memória, da
palavra e da arte. É um testemunho de gratidão, superação e compromisso com as
raízes nordestinas, oferecendo ao leitor uma verdadeira viagem pelos caminhos
da literatura de cordel e da cultura popular brasileira.
Uma
obra inspiradora que mostra como os sonhos, quando alimentados pela dedicação e
pelo amor ao que se faz, podem transformar uma vida comum em um legado para as
futuras gerações.
Frase de impacto
"Enquanto eu fizer cordel, é sinal que ainda
existo."
PREFÁCIO
Há livros que contam histórias.
Há livros que registram memórias.
E há livros que se transformam em testemunhos
vivos de uma época, de uma cultura e de uma missão de vida.
Esta obra de Mestre Pádua de Queiróz pertence
a essa última categoria.
Ao percorrer as páginas que seguem, o leitor
encontrará muito mais do que a trajetória de um homem. Encontrará a história de
um nordestino que fez da palavra sua ferramenta de trabalho, da cultura popular
sua bandeira e da literatura de cordel sua forma de educar, preservar memórias
e transformar vidas.
Nascido em Baturité, no coração do Maciço
cearense, Mestre Pádua construiu uma caminhada marcada pela perseverança, pela
simplicidade e pelo compromisso com o saber popular. Sua história demonstra que
os grandes mestres não nascem prontos; são forjados pelas experiências da vida,
pelas dificuldades enfrentadas e pela capacidade de transformar desafios em
aprendizado.
Ao longo de décadas, dedicou-se à literatura
de cordel, à pesquisa histórica, às palestras educativas, às oficinas culturais
e à valorização das tradições nordestinas. Seus versos atravessaram escolas,
bibliotecas, feiras literárias e eventos culturais, levando conhecimento,
identidade e pertencimento a milhares de pessoas.
O reconhecimento de sua obra veio
naturalmente. Tornou-se o primeiro Mestre dos Saberes e Fazeres das Culturas
Populares de Baturité, foi membro fundador da Academia Cearense de Literatura
de Cordel, recebeu o título de Tesouro Vivo da Cultura Cearense, concedido pelo
Governo do Estado do Ceará, e teve seu saber reconhecido academicamente pela
Universidade Estadual do Ceará através do Notório Saber em Cultura Tradicional
Popular.
Contudo, o maior mérito deste livro não está
nos títulos ou homenagens aqui relatados.
Está simplesmente, na humanidade de seu autor.
Outro aspecto admirável desta trajetória é sua
permanente inquietação criadora. Mesmo após alcançar reconhecimento como
cordelista e mestre da cultura popular, Mestre Pádua continuou reinventando sua
arte. Dessa busca nasceu a Esferogravura, técnica autoral criada a partir da
caneta esferográfica, demonstrando que a criatividade popular continua
produzindo novas formas de expressão sem romper com suas raízes tradicionais.
Ao narrar suas experiências, o autor também
registra parte importante da história cultural do Ceará. Seus relatos revelam
personagens, instituições, movimentos culturais e acontecimentos que ajudam a
compreender a riqueza do patrimônio imaterial nordestino.
Este livro é, portanto, um documento de
memória.
Que as páginas seguintes inspirem novos
leitores, pesquisadores, educadores, artistas e cordelistas, servindo de incentivo para aqueles que
acreditam na força transformadora da educação e da cultura.
E
que a trajetória de Mestre Pádua de Queiróz continue iluminando caminhos, assim
como seus versos têm feito ao longo de tantos anos.
Ao
abrir este livro, o leitor não encontrará apenas a história de um homem.
Encontrará
a história de um povo, de uma tradição e de uma vida dedicada ao nobre ofício
de semear conhecimento através da arte.
SUMÁRIO
Sinopse
Prefácio
Parte I -
Raízes
Capítulo 1 – O
menino do Putiú
Capítulo 2 –
Minha infância
Capítulo 3 –
Dona Quinca – Minha mestra
Capítulo 4 – A
escola e os primeiros sonhos
Parte II -
Descobertas
Capítulo 5 –
Fortaleza e os desafios da migração
Capítulo 6 – O
futebol e a juventude
Capítulo 7 – o
encontro com o professor Iton Lopes
Capítulo 8 –
Meu primeiro cordel
Parte III –
A Amazônia
Capítulo 9 – O
fuzileiro naval
Capítulo 10 –
A vida militar
Parte IV –
Transformação social
Capítulo 11 –
O retorno ao Ceará
Capítulo 12 – Dos
campos aos palcos
Capítulo 13 – O
Liceu de Baturité
Capítulo 14 –
O nascimento do agente cultural
Parte V – O
cordelista
Capítulo 15 –
O retorno a Baturité
Capítulo 16 –
Os saraus da Praça Santa Luzia
Capítulo 17 –
Cordelizando na escola
Capítulo 18 –
Cordelizando no Sítio
Parte VI –
A obra
Capítulo 19 –
Meus cordéis
Capítulo 20 –
Quem acendeu Lampião?
Capítulo 21 –
Minha música e a comunicação popular
Capítulo 22 –
Festivais, bienais e encontros
Parte VII -
Reconhecimento
Capítulo 23 –
Academia Cearense de Literatura de Cordel
Capítulo 24 –
Mestre dos saberes e fazeres das culturas populares de Baturité
Capítulo 25 –
Tesouro vivo da cultura cearense
Parte VIII
– A esferogravura e o legado
Capítulo 26 –
Como descobri a esferogravura
Capítulo 27 – Da
caneta esferográfica à arte de entalhar
Capítulo 28 – Legado
e missão
Capítulo
especial – Costa Senna: O encontro com o poeta de inspirou minha caminhada
Posfácio
PARTE I RAÍZES
CAPÍTULO 1
O MENINO DO PUTIÚ
"Eu sou Pádua de Queiróz
Canto e escrevo poesia
O cordel é minha arte
Minha razão e alegria
As lembranças do Putiú
Eu trago em meu dia a dia."
(Mestre
Pádua de Queiróz – “No Putiú da minha infância” (2010)
Nasci no coração do Maciço de Baturité, no
bairro Putiú, lugar simples, acolhedor e cercado pelas belezas da natureza.
Cresci vendo as serras verdes desenhadas no horizonte, ouvindo o canto dos
pássaros ao amanhecer e sentindo o cheiro da terra molhada depois das chuvas.
Minha infância foi vivida em uma época em que
as crianças brincavam livremente pelas ruas de chão batido, pelos quintais e
pelos campos abertos. Não existiam celulares, computadores ou redes sociais.
Nossa diversão era construída pela imaginação.
Brinquei de bola de meia, de peão, de bila, de
esconde-esconde e de tantas outras brincadeiras que marcaram minha geração.
Cada rua do Putiú guardava uma aventura diferente. Cada árvore era um castelo.
Cada riacho era um mundo a ser descoberto.
O bairro era uma verdadeira comunidade. As
portas permaneciam abertas. Os vizinhos conheciam uns aos outros pelo nome.
Quando uma família precisava de ajuda, toda a comunidade se mobilizava. Ali
aprendi minhas primeiras lições sobre solidariedade, respeito e convivência.
Recordo com carinho das festas religiosas, das
novenas, das procissões e dos encontros familiares. Eram momentos que
fortaleciam os laços entre as pessoas e ajudavam a construir nossa identidade
cultural. O Putiú não era apenas o lugar onde eu morava. Era uma escola de
vida.
Foi naquele ambiente simples que nasceram meus
sonhos e onde comecei a desenvolver o olhar observador que mais tarde me
ajudaria a escrever cordéis e registrar histórias.
Minha infância foi vivida entre as
brincadeiras de rua, os banhos de rio, os jogos de futebol e a convivência
comunitária típica das pequenas cidades do interior nordestino. A calçada da
igreja transformava-se em campo de futebol. O Sítio do Tio Inácio ou de “Seu
Juarez”, eram cenários de aventuras infantis.
No Putiú da minha infância, bastava uma bola
para reunir dezenas de meninos. A praça, o patamar da igreja, a estação
ferroviária e os sítios que circundavam o bairro tornavam-se verdadeiras áreas
de lazer. As brincadeiras aconteciam de forma espontânea, fortalecendo amizades
e ensinando valores importantes para a nossa convivência social.
Um dos aspectos mais divertidos daquela época,
eram os apelidos de meus pequenos amigos. Essas alcunhas surgiam naturalmente e
faziam parte da nossa cultura, e que cultura.
Wedney era conhecido como Zé Galinha. Raimundo
era chamado de Vovô, Guto tornou-se Bailarina, Robinho era Cascão, João Filho,
o Sibíte, Edvam, o Grecthem.... Cada apelido carregava uma história, uma
característica física ou algum acontecimento engraçado que marcou a vida
daquele personagem.
Diferentemente do que ocorre atualmente, os
apelidos raramente eram motivo de conflitos. Na maioria das vezes,
representavam sinais de amizade e integração social. Eram aceitos com
naturalidade e ajudavam a fortalecer os laços entre os moradores.
Eu mesmo desejava ter um apelido, mas ninguém
conseguia encontrar um que me servisse. Os apelidos funcionavam como elementos
de identidade coletiva. Muitas vezes, as pessoas eram mais conhecidas por eles
do que pelos próprios nomes de batismo.
Entre os episódios mais engraçados que me
recordo foi o dia em que inventamos um cinema improvisado. Foi Joãozinho do Zé
Paulino (este não tinha apelido também) que veio com essa ideia. Utilizamos uma
caixa de papelão, uma vela acesa e alguns bonecos. Joãozinho organizou uma sessão cinematográfica
na sala da minha casa. O ingresso custava apenas um cruzeiro e a expectativa
era enorme.
Cabe ressaltar, que essa experiência demonstrava
a extraordinária criatividade das crianças da época. Sem recursos tecnológicos,
nós inventávamos várias formas de entretenimento utilizando objetos simples do
cotidiano.
O
que deveria ser uma apresentação tranquila transformou-se em uma grande
confusão. A vela incendiou a caixa de papelão, os espectadores começaram a
arremessar objetos para conter o fogo e o cinema acabou completamente
destruído.
Muitas das paisagens, personagens e
experiências daquela época permanecem vivos em minha memória e continuam
inspirando minha produção artística até os dias atuais.
Quando
escrevo sobre minha infância, não estou falando apenas de mim. Estou falando de
uma geração inteira que cresceu aprendendo com a natureza, com os mais velhos e
com a convivência comunitária.
O menino do Putiú continua vivo dentro de mim.
É dele que nascem meus versos. É dele que surge minha inspiração. É dele que
vem minha missão de preservar a memória do nosso povo.
CAPÍTULO 2
MINHA FAMÍLIA
Lembro bem
que lá em casa,
O
carinho de meus pais,
Meus
irmãos compartilhando,
Momentos
que não voltam mais,
Porém na
minha memória
São
lembranças tão reais.
Mestre
Pádua de Queiróz – “Versos soltos” (1989)
Nenhuma história pode ser contada sem falar
da família. Foi dentro de casa que recebi os ensinamentos que moldaram meu
caráter e orientaram minha caminhada.
Quando volto o pensamento para as lembranças
mais preciosas da minha infância, encontro logo as figuras de meus pais, dois
seres humanos simples, trabalhadores e honrados, que dedicaram suas vidas à
criação de seus filhos. Foram eles os grandes responsáveis pela formação do
homem que me tornei e pela construção dos valores que carrego até hoje.
Minha mãe, Francisca Borges de Queiróz, também
conhecida carinhosamente por todos como Dona Quinca, uma mulher de fibra, de
coragem e de coração generoso. Costureira dedicada, passava horas diante de sua
máquina de costura transformando tecidos em roupas, ajudando no sustento da
família e atendendo às necessidades de muitas pessoas da comunidade. Suas mãos
trabalhavam sem descanso, mas jamais deixavam de oferecer carinho, atenção e
cuidado aos filhos.
Além das atividades de costureira, Dona Quinca
era a grande administradora do lar. Cuidava da casa, preparava os alimentos,
orientava os filhos e mantinha a família unida. Sua rotina era intensa, mas ela
enfrentava cada desafio com serenidade e amor. Seu exemplo de dedicação e
sacrifício permanece vivo em minha memória como uma das maiores lições que
recebi na vida.
Fui o caçula dos doze filhos que mamãe gerou.
Cheguei quando a família já possuía uma longa história de lutas, conquistas e
aprendizados. Cresci cercado por irmãos mais velhos que, de alguma forma,
ajudaram a me criar. Recebi deles atenção, proteção e muito afeto. Nunca me
senti sozinho, pois sempre havia alguém por perto para me orientar, brincar
comigo ou me ensinar alguma coisa.
O carinho dos meus irmãos foi um presente
valioso que Deus colocou em meu caminho. Cada um contribuiu para minha
formação, deixando ensinamentos que guardo até hoje. Em nossa casa, apesar das
dificuldades naturais de uma família numerosa, havia união, respeito e
solidariedade. Aprendemos desde cedo a dividir o pão, os brinquedos, as tarefas
e os sonhos.
Meu pai, Antônio Borges, era policial militar.
Homem disciplinado, correto e comprometido com seus deveres, dedicava sua vida
à proteção da sociedade. Enquanto cuidava de sua família, também assumia a
responsabilidade de zelar pela segurança de muitas pessoas. Sua profissão
exigia coragem, equilíbrio e senso de justiça, qualidades que ele demonstrava
diariamente.
Mesmo diante das exigências do trabalho, papai
nunca deixou de cumprir seu papel de pai. Sua presença transmitia segurança e
confiança. Era um homem que ensinava mais pelo exemplo do que pelas palavras.
Com ele aprendi o valor da honestidade, da responsabilidade e do respeito ao
próximo. Sua postura firme mostrava que o trabalho digno é um dos maiores
patrimônios que uma pessoa pode construir. Enquanto mamãe cuidava do lar com
ternura e dedicação, papai trabalhava para garantir proteção e sustento. Juntos,
enfrentaram desafios, superaram dificuldades e construíram uma história marcada
pelo amor aos filhos.
Hoje, ao recordar aqueles tempos, percebo o
quanto fui privilegiado. Cresci em um ambiente simples, mas repleto de afeto.
Recebi amor em abundância de meus pais e de meus irmãos. Os ensinamentos que
herdei dessa convivência familiar tornaram-se parte de minha identidade e
influenciaram todas as escolhas que fiz ao longo da vida.
Se existe algo de bom em minha trajetória,
muito devo à educação que recebi dentro de casa. As palavras de minha mãe, o
exemplo de meu pai e o carinho de meus irmãos foram sementes plantadas em solo mim.
Com o passar dos anos, essas sementes germinaram e ajudaram a formar o homem, o
cordelista que sou hoje.
Por isso, dedico este capítulo à memória e ao
legado de meus pais, Dona Quinca e Antônio Borges, e também aos meus irmãos,
que fizeram da minha infância uma época de amor, proteção e felicidade. São
eles os verdadeiros pilares da minha existência, as raízes profundas que
sustentam a árvore da minha história.
CAPÍTULO 3
DONA QUINCA,
MINHA MAIOR MESTRA
Minha mãe, minha rainha
É luz que sempre me guia
Quando afaga meus cabelos
Eu sinto paz e harmonia
Sou seu eterno menino
E ela minha eterna alegria
Mestre Pádua de Queiróz – “Meu amor maior” (1988)
Entre todas as lembranças que guardo
da infância, poucas são tão vivas e emocionantes quanto aquelas que me levam ao
colo, à voz e ao carinho de minha mãe, Dona Quinca. Ainda hoje, passados tantos
anos, ela continua sendo uma das maiores inspirações da minha vida, da minha
sensibilidade artística e do meu amor pela literatura de cordel.
Dona Quinca é uma mulher extraordinária.
Leitora assídua de literatura de cordel, admiradora apaixonada de Luiz Gonzaga
e devota de Santo Antônio de Pádua, carrega consigo uma sabedoria que não vem
apenas dos livros, mas principalmente da experiência, da fé e do amor que
dedica à família.
Seu carinho é imensurável. Não apenas por mim,
mas por todos os meus irmãos. Como mãe de uma grande família, sempre encontra
tempo para cuidar, orientar, aconselhar e amar cada filho de maneira especial.
Seu coração parece não conhecer limites quando o assunto é proteger e acolher
aqueles que Deus lhe confiara.
Como caçula, fui privilegiado por receber uma
atenção muito especial. Tenho guardada na memória uma cena que se repetia quase
todas as noites de minha infância. Eu só conseguia dormir depois de ouvir sua
voz. Ela cantava para mim com uma doçura que até hoje ecoa em minhas
lembranças.
O mais curioso é que, muitas vezes, eu estava
morrendo de sono, mas resistia ao máximo para não adormecer. Não queria perder
nem um instante daquela melodia suave de sua voz. Na verdade, eu não lutava
contra o sono; lutava para continuar ouvindo minha mãe cantar.
Dona Quinca possui ainda uma relação muito
íntima com a literatura de cordel. Sabe de cor inúmeros folhetos dos grandes
mestres da poesia popular nordestina. Recita e canta versos de Leandro Gomes de
Barros, João Martins de Athayde, Firmino Teixeira do Amaral e tantos outros
gigantes que ajudaram a construir a história do cordel brasileiro.
O mais encantador era que ela não simplesmente
lia aqueles folhetos para mim. Ela os transformava em música. Cada verso
ganhava ritmo, emoção e vida. Sua voz dava alma às palavras. Os personagens
pareciam saltar das páginas e ocupar os espaços da casa, tornando-se
companheiros da nossa imaginação.
Foi através dela que tive os primeiros
contatos com o universo mágico das narrativas populares. As histórias de
Trancoso, as fábulas e os contos tradicionais faziam parte do cotidiano de
nossa família. Era costume Dona Quinca reunir meus amiguinhos no terreiro de
casa para contar histórias.
Aquele terreiro transformava-se num verdadeiro
palco da imaginação. Ali surgiam reis e rainhas, príncipes e princesas, heróis
valentes e vilões terríveis. Apareciam monstros fantásticos, animais falantes,
tesouros escondidos e personagens que pareciam vir de mundos encantados.
Nós, crianças, ouvíamos tudo com os olhos
brilhando e os corações acelerados. Cada narrativa nos transportava para
lugares distantes e aventuras extraordinárias. Nossa imaginação voava
livremente pelos caminhos criados pela voz encantadora de Dona Quinca.
Mas o mais importante de tudo era que suas
histórias nunca serviam apenas para divertir. Cada conto trazia um ensinamento.
Cada personagem deixava uma lição. Aprendíamos sobre honestidade, respeito,
coragem, amizade, fé, humildade e perseverança.
Sem que eu percebesse, minha mãe estava
plantando em mim as sementes que mais tarde floresceriam em forma de versos,
cordéis, livros e ações culturais. Foi ela quem despertou meu gosto pela
palavra falada, pela narrativa popular e pela riqueza da tradição oral
nordestina.
Hoje compreendo que grande parte do
cordelista, escritor e contador de histórias que me tornei nasceu ali, naquelas
noites em que resistia ao sono para ouvir sua voz e naquelas tardes em que
observava encantado suas narrativas no terreiro de casa.
Dona Quinca não apenas criou filhos. Ela
formou sonhadores. Não apenas contou histórias. Ela construiu memórias. Não
apenas cantou cordéis. Ela ajudou a preservar uma tradição cultural que
continua viva através daqueles que tiveram o privilégio de ouvi-la.
Se existe em mim amor pela literatura de
cordel, pela cultura popular e pela arte de contar histórias, muito desse amor
nasceu da voz de minha mãe. A voz que embalou meu sono, que povoou minha
imaginação e que continua cantando dentro de mim, mesmo depois de tantos anos.
E hoje, já um homem de meia-idade, com os
cabelos embranquecidos pelo tempo e pelas experiências da vida, continuo sendo
tratado por ela como aquela criança de outrora. Em seu olhar ainda existe o
mesmo cuidado, a mesma preocupação e o mesmo amor que me acompanhavam quando eu
adormecia ouvindo suas cantigas e seus cordéis.
Talvez seja esse o maior poder de uma mãe: o
tempo passa, os filhos crescem, constituem suas próprias histórias, mas, para o
coração materno, permanecem eternamente crianças.
E enquanto eu viver, Dona Quinca continuará
sendo a grande narradora da minha infância, a guardiã das minhas mais belas
lembranças e uma das páginas mais emocionantes de minha autobiografia.
Hoje compreendo que parte significativa de meu
trabalho como cordelista nasceu da convivência com minha mãe. Ela foi minha
primeira biblioteca viva. Cada vez que escrevo um cordel sobre memória,
tradição ou identidade, encontro um pouco de Dona Quinca presente em minhas
palavras.
CAPÍTULO 4
A ESCOLA
E OS PRIMEIROS SONHOS
Na escola Estevão Alves
Para aprender a ler
Coube a Mirian Camurça
Me ensinar o ABC
A primeira professora
Eu jamais vou esquecer.
Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)
Minha
entrada na Escola Coronel Estevão Alves da Rocha marcou o início de uma nova
etapa em minha vida. Foi ali que comecei a descobrir um universo muito maior do
que aquele que conhecia no bairro Putiú. A escola abriu diante de mim caminhos
que eu jamais havia imaginado e plantou sementes que mais tarde floresceriam em
minha trajetória como poeta cordelista e Mestre da Cultura.
Recordo com carinho da diretora Dona Nina
Moreira, uma mulher dedicada que conduzia a escola com responsabilidade e
compromisso. Lembro também de Dona Albenir, orientadora educacional que nos
acompanhava com muita atenção, carinho e paciência. Sua forma de orientar os
alunos transmitia segurança e acolhimento, fazendo com que nos sentíssemos
valorizados e respeitados.
Aos seis anos de idade, iniciei minha
caminhada escolar cheio de curiosidade e vontade de aprender. Desde cedo,
demonstrava interesse pelas atividades culturais promovidas pela escola. As
festas juninas eram momentos muito especiais. Durante quatro anos consecutivos,
tive a honra de representar o noivo da quadrilha junina escolar, participando
das apresentações que reuniam alunos, professores e famílias em momentos de
alegria e celebração das tradições nordestinas.
Meu envolvimento com a cultura já dava sinais
de que seguiria comigo por toda a vida. Gostava de adaptar músicas para
homenagear datas comemorativas como o Dia das Mães, o Dia dos Professores, a
Semana da Pátria e outras ocasiões importantes. Mesmo sem perceber, eu já
exercitava a criatividade, o gosto pelas palavras e a capacidade de transformar
sentimentos em versos e canções.
Sempre fui uma criança curiosa. Gostava de
observar, perguntar e compreender as coisas ao meu redor. Cada descoberta
despertava novas perguntas e alimentava ainda mais minha vontade de aprender. A
leitura começou a ocupar um espaço cada vez maior em minha vida. Os livros me
apresentavam lugares distantes, personagens fascinantes e conhecimentos que
ampliavam minha visão de mundo.
Os professores tiveram um papel fundamental
nesse processo. Cada aula representava uma oportunidade de crescimento. Com
dedicação e paciência, eles nos ensinavam não apenas conteúdos escolares, mas
também valores que ajudariam a formar nosso caráter. As amizades construídas
naquele período tornaram a experiência escolar ainda mais significativa,
criando laços que permaneceriam vivos em minhas lembranças.
Mesmo quando os recursos eram limitados, eu
procurava aproveitar todas as oportunidades para aprender. A escola não era
apenas um lugar de ensino; era também um espaço de convivência, de descobertas
e de desenvolvimento humano. Foi ali que comecei a desenvolver habilidades de
comunicação, liderança e participação coletiva que mais tarde seriam essenciais
em minha atuação cultural e comunitária.
Muitos dos sonhos que construí ao longo da
vida nasceram naquele ambiente escolar. Sonhava aprender mais. Sonhava ajudar
as pessoas. Sonhava ser útil à minha comunidade. Curiosamente, não alimentava o
desejo de conhecer o mundo ou viajar para lugares distantes. Meu sonho era
deixar alguma contribuição para as pessoas que viviam ao meu redor, ajudando a
transformar a realidade por meio do conhecimento, da cultura e da
solidariedade.
Naquele tempo, eu ainda não imaginava que me
tornaria um artista. Entretanto, os primeiros sinais dessa vocação já estavam
presentes em meu amor pelas palavras, em minha facilidade para criar versos e
em meu fascínio pelas histórias que escutava e contava.
Guardo com enorme gratidão a lembrança de
minhas primeiras professoras, as irmãs Camurças, Mirian e Milriam. Foram elas
que me acolheram nos primeiros anos da vida escolar. Com elas, tudo começou a
florescer. No jardim de infância, aprendi cantando. No primeiro ano, descobri o
encanto das letras e das palavras. Cada atividade despertava novos interesses e
fortalecia minha vontade de aprender.
As irmãs Camurças não apenas ensinaram
conteúdos; ajudaram a construir os alicerces da minha formação humana e
intelectual. Seus ensinamentos permaneceram vivos em minha memória e
contribuíram para moldar os valores que carreguei ao longo da vida.
Hoje, olhando para trás, compreendo a dimensão
da importância que a Escola Coronel Estevão Alves da Rocha teve em minha
trajetória. Foi ali que os sonhos começaram a ganhar forma. Foi ali que a
curiosidade encontrou caminhos para crescer. Foi ali que a cultura começou a
dialogar com minha vocação.
A educação transformou minha vida. E talvez
por reconhecer essa transformação, dediquei grande parte de minha caminhada a
levar educação, leitura, literatura de cordel e cultura popular para outras
pessoas. Aquela criança curiosa que entrou pelos portões da escola encontrou
muito mais do que professores e livros. Encontrou oportunidades, inspiração e
um propósito que carregaria por toda a existência.
Foi naquela escola que comecei a aprender a
ler o mundo. E, mais tarde, através dos versos e dos cordéis, ajudaria outras
pessoas a fazerem o mesmo.
PARTE II DESCOBERTAS
CAPÍTULO 5
FORTALEZA E OS
DESAFIOS DA MIGRAÇÃO
No ano de oitenta e quatro
Fui morar em Fortaleza
Não sei se deixei saudade
Mas confesso com certeza
Que eu levei em meu peito
Tristeza, muita tristeza.
Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)
Entre os acontecimentos mais marcantes da
minha vida, poucos permanecem tão vivos em minha memória quanto o dia em que
deixei minha terra natal. Era o dia 5 de janeiro de 1984. Eu havia acabado de
completar doze anos de idade quando minha mãe, Dona Quinca, tomou uma das
decisões mais difíceis para nossa família: deixar Baturité e seguir para
Fortaleza em busca de melhores condições de vida.
Naqueles anos, uma longa estiagem castigava o
Ceará. Entre 1979 e 1985, a seca trouxe dificuldades para milhares de famílias
do interior. A falta de oportunidades e as incertezas provocadas pela escassez
obrigavam muitos sertanejos a buscar novos caminhos. Com nossa família não foi
diferente.
Naquele amanhecer de janeiro, enquanto nossos
poucos pertences eram acomodados sobre a carroceria de um caminhão de mudanças,
eu tentava compreender tudo o que estava acontecendo. Para os adultos, aquela
viagem representava esperança. Para mim, representava despedida.
Sentado sobre a carroceria, cercado por
móveis, malas e lembranças, observava minha cidade ficando para trás. As ruas
conhecidas, os vizinhos, os amigos, as serras que emolduravam minha infância,
tudo parecia se afastar lentamente dos meus olhos.
Lembro-me de sentir um nó na garganta e uma
vontade enorme de chorar. Eu sabia que não estava apenas mudando de endereço.
Estava deixando para trás a felicidade simples dos meus dias de menino.
Ali ficaram os amigos das brincadeiras, os
campos improvisados de futebol, as histórias contadas no terreiro, os caminhos
percorridos descalço e os lugares que guardavam os melhores capítulos da minha
infância. Enquanto o caminhão seguia estrada afora, fiz uma promessa silenciosa
a mim mesmo:
—
Um dia eu voltarei. E quando voltar, não sairei mais daqui.
Era uma promessa de criança, feita entre
lágrimas e saudades. Mas seria uma promessa que eu carregaria durante muitos
anos dentro do coração.
Deixar Baturité não foi uma decisão simples.
Eu levava comigo as lembranças da infância e o profundo apego às paisagens da
serra. Contudo, como aconteceu com tantas famílias nordestinas, a busca por
novas oportunidades nos conduziu para a capital cearense.
Fortaleza surgiu diante dos meus olhos como um
mundo completamente diferente daquele que eu conhecia. As ruas eram
movimentadas, os bairros pareciam imensos, o trânsito era intenso e o ritmo da
vida seguia numa velocidade que me assustava.
Nossa família foi morar no bairro Vila Manuel
Sátiro. Também fui matriculado na Escola Henriqueta Galeno, onde continuei meus
estudos e iniciei uma nova fase de aprendizado. Nos primeiros meses, tudo
parecia estranho. Sentia falta da tranquilidade do Putiú, da proximidade entre
os moradores e da convivência simples e acolhedora que fazia parte do cotidiano
em Baturité. Na capital, as pessoas pareciam sempre apressadas e cada dia
trazia novos desafios.
A adaptação não foi fácil. Houve momentos
difíceis. Nossa família precisou enfrentar limitações financeiras, fazer
sacrifícios e superar obstáculos que exigiram coragem e perseverança. Muitas
vezes, a saudade apertava e a vontade de voltar parecia maior do que qualquer
sonho. Mas foi justamente nesses desafios que comecei a amadurecer.
A vida em Fortaleza ampliou minha visão de
mundo. Conheci pessoas de diferentes origens, profissões, crenças e formas de
viver. Aprendi que cada ser humano carrega uma história única e que todo
encontro pode se transformar em aprendizado.
Foi também na Vila Manuel Sátiro que descobri
uma nova paixão. Em Baturité eu gostava de futebol, mas foi naquele bairro que
verdadeiramente me apaixonei pelo esporte. A comunidade respirava futebol. Em
cada rua, terreno baldio ou campinho improvisado havia uma bola rolando e
crianças correndo atrás dos seus sonhos.
A paixão pelo futebol rapidamente passou a
fazer parte do meu cotidiano. O esporte me ensinou valores importantes como
disciplina, espírito de equipe, respeito às regras, amizade e perseverança.
Além disso, ajudou-me a fazer novas amizades e a integrar-me à nova realidade
que estava vivendo.
A
cidade também abriu portas para outras experiências enriquecedoras. Passei a
frequentar bibliotecas, eventos culturais, atividades esportivas e espaços
educativos que contribuíram profundamente para minha formação intelectual e
humana.
Pouco a pouco, fui descobrindo que a mudança
não representava apenas uma ruptura com o passado. Ela também significava a
construção de novas possibilidades para o futuro. Mesmo assim, Fortaleza jamais
substituiu Baturité em meu coração. Pelo contrário. Quanto mais conhecia o
mundo, mais valorizava minhas origens. Quanto mais distante estava da serra,
mais forte se tornava meu sentimento de pertencimento. A saudade não diminuía;
transformava-se em combustível para continuar caminhando.
Foi na capital que compreendi uma verdade que
me acompanharia para sempre: eu precisava aprender, crescer e adquirir
conhecimentos para um dia, retornar à minha terra e retribuir tudo aquilo que
ela havia me dado.
Sem perceber, eu estava sendo preparado para
uma missão maior. Cada dificuldade enfrentada, cada amizade construída, cada
livro lido, cada partida de futebol disputada e cada experiência vivida
ampliavam minha visão de mundo e fortaleciam meu compromisso com a cultura, a
educação e a comunidade.
Hoje percebo que aquela viagem de janeiro de
1984 não significou um afastamento das minhas raízes. Foi, na verdade, o início
de uma longa jornada de descobertas, aprendizados e experiências que me
preparariam para as missões culturais, educacionais e sociais que Deus
reservava para minha vida.
A criança que partiu chorando sobre a
carroceria de um caminhão nunca esqueceu a promessa que fez ao deixar Baturité.
E o tempo provaria que algumas promessas feitas com o coração jamais são
esquecidas.
CAPÍTULO 6
O FUTEBOL E A
JUVENTUDE
A Vila
era animada
Um lugar
bom pra morar
Só que
eu tinha em mente
Pra
minha terra voltar
Então
pra me distrair
Futebol
eu fui jogar.
Mestre
Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)
A mudança para Fortaleza trouxe muitas
saudades. Eu sentia falta de Baturité, dos amigos, da serra, das brincadeiras e
da vida simples que havia deixado para trás. Embora estivesse conhecendo um
mundo novo, ainda carregava dentro de mim uma tristeza silenciosa. Eu costumava
dizer que estava apenas "meio feliz".
Foi então que minha mãe, Dona Quinca, percebeu
algo importante. Ela notou que, entre todas as novidades da capital, havia uma
que despertava em mim uma alegria verdadeira: o futebol. Sempre atenta aos
sentimentos dos filhos, ela tomou mais uma decisão que mudaria minha vida.
Matriculou-me na escolinha de futebol da FADEC.
A FADEC — Fundação de Assistência Desportiva
do Estado do Ceará — era um importante órgão público estadual ligado ao Governo
do Ceará. Sua missão era fomentar o esporte, administrar equipamentos
esportivos e desenvolver projetos voltados para a juventude cearense. Naquele
momento, eu não imaginava que estava entrando em uma das experiências mais
marcantes da minha formação.
Desde menino, o futebol fazia parte da minha
vida. Em Baturité, as partidas aconteciam em campos improvisados, terrenos
baldios e espaços onde a alegria era muito maior do que qualquer preocupação
com uniformes ou estrutura. Jogávamos simplesmente por amor ao esporte.
A bola reunia amigos, fortalecia amizades e
ensinava lições importantes sobre convivência, respeito e trabalho em equipe.
Mas foi na FADEC que comecei a compreender a verdadeira dimensão educativa do
futebol. Ali tive o privilégio de conviver com duas das maiores referências do
esporte cearense.
O preparador físico era Zé Maria Paiva, atleta
recém-aposentado e profundo conhecedor do futebol e da preparação física. Além
da competência profissional, Zé Maria carregava o respeito e a admiração de
todo torcedor cearense. Era um verdadeiro ídolo.
Para um garoto de apenas doze anos, conviver
diariamente com alguém daquela importância era algo extraordinário. Eu
observava cada orientação, cada conselho e cada ensinamento. Sua experiência e
dedicação tornavam os treinamentos verdadeiras aulas de vida.
Mas as surpresas não paravam por aí. O
treinador da equipe era ninguém menos que Mozart Gomes, o lendário
"Mozarzinho", um dos maiores nomes da história do futebol alencarino.
Ainda hoje me emociono ao recordar aqueles
momentos. Se eu tivesse retornado para Baturité naquela época e contado aos
meus amigos que estava sendo treinado por Mozarzinho, muitos talvez não
acreditassem. Pareceria uma fantasia de menino apaixonado por futebol. Mas era
verdade, eu estava sendo orientado por duas das maiores referências esportivas
do Ceará.
Com o passar do tempo, Zé Maria Paiva e Mozart
Gomes tornaram-se muito mais do que profissionais responsáveis por meus
treinamentos. Eles assumiram, de certa forma, um papel paternal em minha vida. Foram
meus pais fora de casa.
Orientavam, aconselhavam, corrigiam e
incentivavam. Ensinavam disciplina, responsabilidade e respeito. Mostravam que
o talento só produz resultados quando acompanhado de esforço e dedicação.
Embora a saudade de Baturité ainda estivesse
presente, o futebol passou a preencher parte daquele vazio. A cada treino, a
cada partida e a cada nova amizade construída, Fortaleza deixava de ser apenas
a cidade para onde eu havia sido levado e passava a se transformar em um lugar
de oportunidades.
Foi naquele ambiente esportivo que comecei a
perceber algo que me acompanharia por toda a vida: o futebol possuía um poder
que ultrapassava as quatro linhas do campo.
Vi jovens enfrentando dificuldades familiares,
econômicas e sociais encontrarem no esporte um caminho para sonhar. Vi talentos
surgirem em campos de terra e crescerem graças à dedicação e à disciplina. Vi
meninos transformarem suas vidas através de uma oportunidade oferecida pelo
esporte.
Essas experiências marcaram profundamente
minha visão de mundo. Passei a compreender que o futebol não servia apenas para
competir ou vencer campeonatos. Ele podia educar, formar cidadãos e oferecer
esperança.
As sementes dessa compreensão foram plantadas
justamente naquele período da adolescência, quando eu treinava sob a orientação
de Zé Maria Paiva e Mozart Gomes. Hoje compreendo que o futebol foi uma das
mais importantes escolas da minha vida.
Por isso, guardo com profunda gratidão a
memória daqueles dias na FADEC. Foi ali que um menino saudoso de Baturité
encontrou acolhimento, disciplina, amizade e inspiração. Foi ali que comecei a
descobrir que o esporte, quando orientado por bons mestres, pode ser tão
transformador quanto qualquer sala de aula.
CAPÍTULO 7
O ENCONTRO COM O
PROFESSOR ITON LOPES
Meu professor Iton Lopes
Nascido em minha cidade
Era ator e cordelista
De grande capacidade
Me ensinou sua arte
E sua originalidade.
Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” – (2022)
Ao longo da vida, encontramos pessoas que
deixam marcas profundas em nossa caminhada. Algumas passam rapidamente. Outras
permanecem para sempre em nossa memória, influenciando nossas escolhas e
ajudando a construir quem nos tornamos.
Na minha trajetória, duas dessas pessoas foram
fundamentais para minha formação cultural e intelectual: o professor Iton Lopes
e meu cunhado Eunifran Xavier.
Quando cheguei a Fortaleza, após deixar minha
querida Baturité, fui matriculado em diferentes escolas da rede pública. Entre
elas, a Escola Estadual Maria Thomásia, localizada no bairro da Maraponga. Foi
ali que o destino colocou em meu caminho um dos maiores educadores que conheci.
O professor Iton Lopes. Mais do que um professor, ele foi um mestre no sentido
mais amplo da palavra.
Até aquele momento, eu já gostava de ler.
Gostava das histórias contadas por minha mãe, dos folhetos de cordel que
circulavam entre familiares e amigos e das manifestações culturais do nosso
povo. Mas foi Iton Lopes quem me apresentou, de forma consciente e sistemática,
ao universo da literatura popular.
Lembro-me com emoção do dia em que ele me
presenteou com uma coletânea de poemas do poeta proletário Costa Senna. Aquele
presente não era apenas um livro. Era uma porta que se abria para um novo
mundo.
Pela primeira vez, comecei a compreender a
força social da poesia popular. Descobri que os versos podiam denunciar
injustiças, registrar acontecimentos históricos, defender causas coletivas e
preservar a memória de um povo.
A partir daquele momento, o professor passou a
me tratar como um verdadeiro discípulo em sala de aula. Percebia meu interesse
pelos livros e pela cultura e constantemente me incentivava a ler, pesquisar e
desenvolver senso crítico.
Iton Lopes não ensinava apenas conteúdos
escolares. Ele ensinava cidadania, pensamento crítico e inseria em mim um
grande amor pelo conhecimento.
Suas aulas despertavam reflexões profundas.
Ele mostrava que a educação não deveria limitar-se à transmissão de
informações. Precisava contribuir para a formação humana e para a construção de
uma sociedade mais consciente.
Sob sua influência, comecei a olhar a
literatura de cordel com outros olhos. Passei a perceber que aqueles folhetos
tão presentes em minha infância guardavam riquezas históricas, sociais e
culturais extraordinárias.
Foi com ele que compreendi que a poesia podia
educar. Que a palavra podia transformar. Que a cultura popular merecia
respeito, estudo e valorização.
Enquanto
o professor Iton Lopes me apresentava novos caminhos dentro da escola, outra
importante referência cultural fortalecia minha formação fora dela. Meu cunhado
Eunifran Xavier.
Casado com minha irmã Luzinete, Eunifran era
um homem culto, inteligente e profundo conhecedor das tradições sertanejas. Sua
casa era uma verdadeira fonte de conhecimento.
Foi através dele que tive acesso a livros que
ampliaram ainda mais meus horizontes. Em suas estantes encontrei personagens
que passariam a fazer parte do meu imaginário cultural: Lampião, Padre Cícero,
Patativa do Assaré e tantas outras figuras marcantes da história e da cultura
nordestina.
Cada livro que ele colocava em minhas mãos
representava uma nova viagem, cada leitura alimentava ainda mais minha
curiosidade. Com o professor Iton Lopes e com Eunifran Xavier, eu sentia que
possuía tudo o que um jovem sonhador poderia desejar: mestres, livros, exemplos
e inspiração. Faltava apenas colocar o pé na estrada.
Infelizmente, o professor Iton Lopes partiu
muito cedo. Seu desencarne, ocorrido em 1992, interrompeu uma trajetória que
certamente ainda teria muito a oferecer à educação e à cultura cearense.
Anos depois, procurei informações sobre sua
obra e sua produção intelectual. Realizei pesquisas, busquei registros e
referências que pudessem ajudar a preservar sua memória. Encontrei apenas
algumas menções relacionadas à sua participação na vida política de Fortaleza,
quando foi candidato a vereador no final da década de 1980.
É compreensível que muito de sua produção
tenha se perdido com o tempo. Naquela época não existiam as facilidades de
registro e divulgação proporcionadas pela internet. Muitos educadores
brilhantes deixaram contribuições valiosas que acabaram permanecendo apenas na
memória de seus alunos.
Mas, embora os livros, artigos ou documentos
possam ter desaparecido, seu verdadeiro legado continua vivo. Eu sou uma dessas
provas. Grande parte da minha atuação cultural nasceu das sementes plantadas
por seus ensinamentos.
Projetos como o Cordelizando na Escola
carregam fortemente sua influência. Cada oficina que realizo hoje, cada
palestra que ministro e cada estudante que incentivo a descobrir a literatura
de cordel traz consigo um pouco daquilo que aprendi com ele.
Sempre que entro em uma sala de aula para
falar sobre cultura popular, recordo seus exemplos. Sempre que entrego um
cordel a uma criança, lembro do livro que recebi de suas mãos. Sempre que
incentivo alguém a valorizar as raízes do nosso povo, estou dando continuidade
a uma missão que ele ajudou a despertar dentro de mim.
Hoje compreendo que os verdadeiros mestres
nunca morrem. Eles permanecem vivos nas ideias que transmitiram, nos valores
que ensinaram e nas vidas que ajudaram a transformar.
O professor Iton Lopes e Eunifran Xavier foram
dois desses mestres, foram homens que me ensinaram a enxergar além do
horizonte. Foram os guias que apontaram os caminhos da cultura.
CAPÍTULO 8
MEU PRIMEIRO CORDEL
Quem conhece a história
Dessa vida tão sofrida
Pode então me responder
Essa pergunta esquecida:
Quem acendeu Lampião
Nas noites do meu sertão
Procurando uma saída?
Mestre Pádua de Queiróz – “Quem acendeu Lampião” (1986)
Toda caminhada possui um começo. A minha
trajetória como cordelista nasceu da união de duas grandes influências que
marcaram minha juventude: os ensinamentos do professor Iton Lopes e os livros
que chegavam às minhas mãos através de meu cunhado Eunifran Xavier.
Foi na Escola Maria Thomásia, no bairro da
Maraponga, que o professor Iton Lopes me apresentou, de forma mais profunda, à
literatura de cordel. Até então, eu conhecia os folhetos através de minha mãe,
Dona Quinca, que os lia e cantava com uma beleza que encantava toda a família.
Mas conhecer o cordel como leitor era uma coisa. Conhecer sua estrutura e seus
segredos era outra completamente diferente.
O professor Iton Lopes me ensinou a observar a
construção dos versos, a organização das estrofes, a musicalidade das rimas e a
importância da métrica. Com sua orientação, comecei a compreender que o cordel
possuía regras próprias e que sua aparente simplicidade escondia uma
sofisticada arquitetura poética.
Mais do que ensinar, ele incentivava. Percebendo
meu interesse crescente pela poesia popular, passou a desafiar-me a criar meus
próprios versos. Pela primeira vez, alguém me fazia acreditar que eu também
poderia escrever cordéis.
Enquanto isso, fora da escola, outra fonte de
inspiração ampliava meus horizontes. Meu cunhado Eunifran Xavier colocava em
minhas mãos livros que alimentavam minha curiosidade sobre a história e a
cultura nordestina. Entre essas leituras, uma delas mudaria definitivamente
minha vida.
Foram os livros do pesquisador e escritor
Frederico Bezerra Maciel, especialmente a monumental obra "Lampião, Seu
Tempo e Seu Reinado". Ao mergulhar naquelas páginas, encontrei um
personagem fascinante. Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.
A
cada capítulo eu descobria novos aspectos da vida do Rei do Cangaço. Sua
trajetória, suas contradições, suas lutas, suas estratégias e sua presença
marcante na história nordestina despertavam minha imaginação. Eu finalmente
havia encontrado meu personagem.
Enquanto outros jovens se encantavam com
heróis dos filmes e dos quadrinhos, eu me fascinava por aquela figura histórica
que percorrera os sertões nordestinos deixando um legado cercado de
controvérsias, mistérios e narrativas populares.
A inspiração cresceu rapidamente. As leituras
se multiplicavam. As ideias surgiam e os versos começaram a nascer.
No início, tudo parecia difícil. Aprender a
construir rimas, respeitar a métrica e organizar as estrofes exigia dedicação e
estudo. Muitas vezes precisei reescrever os mesmos versos várias vezes até
alcançar o resultado desejado.
Mas a paixão pela poesia falava mais alto. Cada
estrofe concluída representava uma vitória e cada página preenchida fortalecia
minha confiança. Até que chegou o grande momento.
No ano de 1986, publiquei meu primeiro cordel.
Seu título era provocador, curioso e carregado de simbolismo: "Quem
Acendeu Lampião?" Naquele instante, eu não estava apenas lançando um
folheto. Estava inaugurando uma nova fase da minha vida.
Lembro da emoção que senti ao ver meu trabalho
concluído. Era uma sensação difícil de descrever. Pela primeira vez, eu deixava
de ser apenas leitor para me tornar autor. Era como se uma porta estivesse se
abrindo diante de mim. Eu havia descoberto uma ferramenta capaz de unir
educação, memória, cultura e arte.
Mais do que escrever versos, compreendi que
poderia registrar histórias, preservar tradições e contribuir para que
personagens importantes da nossa cultura não fossem esquecidos. Sem perceber,
estava encontrando minha missão.
O cordel passou a ocupar um espaço permanente
em minha vida. Tornou-se parte da minha identidade. Através dele, comecei a
registrar acontecimentos históricos, personagens populares, tradições
sertanejas, experiências pessoais e reflexões sobre a sociedade.
Aquele primeiro folheto foi o ponto de partida
de uma caminhada que se estenderia por décadas, e vieram novos cordéis, mas
nenhuma dessas conquistas superou a emoção daquele primeiro passo.
Hoje, quando olho para trás, compreendo que o
verdadeiro nascimento do cordelista Mestre Pádua de Queiróz aconteceu naquele
encontro entre um professor que acreditou em seu aluno, um cunhado que
compartilhou seus livros e um adolescente que se encantou pela história de
Lampião.
O
professor Iton Lopes ensinou-me a construir versos, Eunifran Xavier
apresentou-me os caminhos da leitura, Lampião ofereceu-me um personagem e o
cordel revelou-me uma missão.
Desde então, cada verso que escrevi carrega um
pouco daqueles dias de descoberta. Porque foi em 1986, com a publicação de
"Quem Acendeu Lampião?", que nasceu oficialmente o cordelista que
dedicaria sua vida a contar histórias, preservar memórias e educar através da
cultura popular nordestina.
PARTE III AMAZÔNIA
CAPÍTULO 9
O FUZILEIRO NAVAL
Me tornei um Fuzileiro
Troquei a vida Civil
Pela vida na caserna
Por um potente fuzil
Jurei defender com a vida
A bandeira do Brasil.
Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)
Ao completar dezenove anos de idade, eu
ainda carregava dentro de mim uma saudade imensa de Baturité. Por mais que
Fortaleza tivesse me oferecido oportunidades, amigos, estudos, esporte e
crescimento pessoal, meu coração continuava preso às serras verdes da minha
terra natal.
Havia também uma promessa que eu jamais
esquecera. Aquela promessa feita em silêncio, sobre a carroceria de um
caminhão, no distante dia 5 de janeiro de 1984, quando vi minha cidade
desaparecer no horizonte. Eu voltaria. Mais cedo ou mais tarde, eu voltaria. Mas
antes disso, a vida ainda me reservaria novos caminhos.
Meu pai, Antônio Borges, policial militar
disciplinado e comprometido com sua profissão, sonhava em ver seus filhos
seguindo a carreira militar. Dois de meus irmãos já haviam ingressado nessa
trajetória e, naturalmente, ele também desejava que eu escolhesse um caminho
semelhante.
Confesso que não me sentia atraído pelo
Exército Brasileiro, nem pela Aeronáutica e tampouco pela Polícia Militar, mas
havia uma força militar que despertava minha admiração. Os Fuzileiros Navais. Quando
chegou o momento de decidir meu futuro, fui direto:
—
Se for para ser militar, quero ser Fuzileiro Naval.
Não queria apenas vestir uma farda. Queria
fazer parte de uma tropa reconhecida pela coragem, pela disciplina e pela
capacidade de enfrentar os mais difíceis desafios. Queria pertencer ao grupo
dos combatentes anfíbios. Queria integrar a força cujo lema atravessa gerações:
Per Are, Per Mare, Per Terra.
A decisão estava tomada e eu sabia que o
caminho não seria fácil. O concurso era difícil, a seleção era rigorosa e mais
difícil ainda seria enfrentar o curso de formação. Mesmo assim, aceitei o
desafio.
Estudei,
Preparei-me e fui aprovado.
Receber a notícia da aprovação foi uma das
maiores emoções da minha juventude. Mas logo descobri que a verdadeira batalha
ainda estava por começar. O curso de formação aconteceria na Amazônia
Brasileira, na cidade de Manaus.
Mais uma vez eu deixaria para trás minha
família, meus amigos e tudo aquilo que me era familiar. Mas a distância e a
saudade, já não me assustava. Eu já havia aprendido a conviver com tudo isso depois
de deixar Baturité e reconstruir minha vida em Fortaleza, partir para a
Amazônia parecia apenas mais uma etapa da caminhada.
Além disso, havia outro sentimento que me
acompanhava: o respeito pelo meu pai. Sabia o quanto aquela conquista o deixava
orgulhoso. E, de certa forma, sentia que também estava honrando os valores de
disciplina, coragem e responsabilidade que ele havia me ensinado desde criança.
No dia 16 de abril de 1991, embarquei em um
avião da Transbrasil com destino a Manaus. Lembro-me daquele momento como se
fosse hoje. Enquanto a aeronave ganhava altitude e Fortaleza ficava para trás,
eu compreendia que estava iniciando a maior missão da minha vida.
Não era uma viagem de turismo e não era uma
aventura imaginada nos livros. Era a vida real. Ali não havia espaço para
fantasias. Tudo o que eu encontraria pela frente seria verdadeiro.
Pela primeira vez, eu sentia que estava
entrando definitivamente na vida adulta. Cheguei à Amazônia disposto a vencer. E
logo descobri que o curso de formação de Soldados Fuzileiros Navais era uma
verdadeira prova de resistência física, mental e emocional.
Cada dia apresentava um novo desafio: as
exigências eram intensas, os treinamentos eram rigorosos e o desgaste físico
era enorme. Muitas vezes, o corpo dizia para parar. Mas a mente precisava
continuar.
Ali aprendi que os limites que imaginamos
possuir quase sempre são maiores do que pensamos. Aprendi a superar o cansaço, suportar
a pressão e aprendi que a determinação é uma das maiores armas de um ser
humano.
Foram meses de luta. Meses em que cada
amanhecer representava uma nova batalha. Mas eu não estava disposto a desistir.
Carregava comigo a educação recebida de meus pais, os ensinamentos dos meus
mestres e a força de um nordestino acostumado a enfrentar dificuldades.
Após meses de esforço, sacrifício e dedicação,
a vitória chegou. No dia 12 de agosto de 1991, ingressei oficialmente no Corpo
de Fuzileiros Navais, e no dia 19 de novembro daquele mesmo ano, concluí o
Curso de Formação de Soldados Fuzileiros Navais. Era uma conquista que
carregava um significado muito especial.
Naquele instante, eu não era apenas um jovem
cearense que havia concluído um curso militar, eu era um combatente anfíbio, um
Fuzileiro Naval da Marinha do Brasil e mais do que isso. Era um guerreiro
formado na Amazônia.
Com orgulho, costumava afirmar:
—
Sou o primeiro baturiteense Guerreiro de Selva formado na Amazônia.
E havia razões para esse orgulho. A formação
militar transformou profundamente minha vida. Fortaleceu valores que eu já
trazia da educação familiar, como honestidade, respeito, responsabilidade e
compromisso. Mas também ampliou minha visão sobre o Brasil.
Passei a conviver com companheiros vindos de
diferentes estados, culturas e realidades sociais. Conheci sotaques, costumes,
histórias e experiências que enriqueceram minha compreensão sobre o povo
brasileiro.
Quanto mais conhecia o país, mais orgulho
sentia das minhas próprias origens. A Amazônia me impressionava, mas não conseguia
ocupar o lugar que Baturité possuía em meu coração, pelo contrário, a distância
fortalecia ainda mais meu sentimento de pertencimento.
Foi nesse período que comecei a compreender
algo importante.
A cultura nordestina possuía um valor imenso. Nossas
tradições, nossa literatura popular, nossas histórias e nossa identidade
mereciam ser preservadas e valorizadas. Sem perceber, começava a nascer dentro
de mim o futuro defensor da cultura popular.
Naquele momento, porém, eu era apenas um jovem
soldado cumprindo sua missão e honrando sua farda. Mas continuava carregando
comigo uma promessa, a promessa feita ao deixar Baturité.
E embora o destino ainda me levasse por outros
caminhos, eu sabia que um dia retornaria. Porque algumas promessas são feitas
com palavras e outras são feitas com o coração. E as promessas feitas com o
coração resistem ao tempo, à distância e a qualquer desafio.
CAPÍTULO 10
A VIDA MILITAR
Mostrando na Amazônia
A cultura nordestina
Meu comandante dizia:
Isso vai ser sua ruina
Militarismo e poesia
É coisa que não combina.
Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)
Servi ao Corpo de Fuzileiros Navais do
Brasil durante cinco anos, três meses e vinte e nove dias. Foram anos intensos,
marcados pela disciplina militar, pela defesa da soberania nacional e por
experiências que ampliaram minha visão sobre o Brasil e sobre a própria vida.
Nesse período tive o privilégio de conhecer a
magnífica Amazônia, que costumo chamar de Jardim do Universo. Mas eu não estava
ali como turista. Não estava em busca de aventuras. No dia 19 de novembro de
1991, diante da Bandeira Nacional, fiz um juramento solene. Jurei defender o
Brasil, mesmo com o sacrifício da própria vida. Era um compromisso assumido
perante a Pátria e perante a lei.
Nunca me arrependi daquele juramento. Embora
eu continuasse carregando no coração a promessa feita aos doze anos de idade,
de um dia retornar a Baturité, compreendia que naquele momento minha missão era
outra. Minha missão era servir ao Brasil. E servi com orgulho.
Na defesa de nossas fronteiras, conheci
lugares que jamais imaginei visitar quando era menino no bairro Putiú. Conheci
a fascinante cidade de Iquitos, no Peru, onde tive contato com um povo
acolhedor e profundamente ligado às águas amazônicas. Em Letícia, na Colômbia,
pude observar de perto as manifestações culturais daquele povo irmão,
descobrindo semelhanças e diferenças que enriqueciam ainda mais meu
entendimento sobre a diversidade latino-americana.
Naveguei por rios lendários. Percorri as águas
do Ucayali, do Marañón, do Solimões, do Rio Negro, do Rio Madeira, do
gigantesco Rio Amazonas. Cada viagem era uma aula de geografia, história e
cultura. Cada missão revelava uma nova face da Amazônia. Cada encontro deixava
uma lembrança.
Mas mesmo cumprindo missões militares, eu
nunca deixaria para trás minhas raízes culturais. Nos momentos de folga, levava
um pouco do Ceará para onde estivesse. Levava meus versos. Levava minha poesia.
Levava minha literatura de cordel. Levava Baturité.
Com o tempo, algo curioso aconteceu. Muitos
companheiros passaram a me chamar simplesmente de "Baturité". O nome
da minha cidade transformou-se em meu apelido, minha marca e eu carregava esse
nome com enorme orgulho. Porque cada vez que alguém me chamava de Baturité, era
como se minha terra natal estivesse presente ao meu lado. Mesmo a milhares de
quilômetros de distância.
Além das atividades militares, também
desempenhava funções ligadas à fotografia. Muitas vezes fui designado para
registrar eventos oficiais do então Grupamento de Fuzileiros Navais de Manaus —
o GptFnMa. Foi durante uma dessas missões que vivi um dos episódios mais
curiosos e inesquecíveis da minha carreira militar.
Certo dia, recebi a missão de fotografar a
festa de aniversário da esposa do Comandante do Comando Naval da Amazônia
Ocidental. Era uma atividade simples. Minha função era apenas registrar o
evento.
Ao chegar à residência do ilustre oficial, fui
recebido cordialmente pela aniversariante, que solicitou várias fotografias.
Tudo corria normalmente. Até que uma das convidadas me reconheceu. Ela havia
assistido anteriormente a uma de minhas apresentações culturais e comentou com
a anfitriã: — Ele não é apenas militar. Ele é poeta.
A esposa do Almirante demonstrou curiosidade.
Então me fez um pedido inesperado: — Antes das fotografias, gostaria que o
senhor recitasse alguma poesia em minha homenagem!
Naquele
momento, lembrei-me de um trabalho que havia concluído recentemente. Um poema
intitulado "O Casebre". Comecei a declamar. E algo extraordinário
aconteceu. Os convidados silenciaram. As conversas cessaram. Os olhares
voltaram-se para a poesia. Quando terminei, a emoção tomou conta do ambiente.
As pessoas começaram a sugerir novos temas. Um
falava sobre saudade. Outro sobre família. Outro sobre a vida. E eu, utilizando
a velha performance de poeta matuto aprendida desde a infância, desenvolvia
versos e reflexões para cada assunto apresentado.
O tempo passou sem que ninguém percebesse.
Inclusive eu. A poesia havia conquistado a festa. E as fotografias ficaram
esquecidas. Quando retornei ao quartel, fui chamado pelo meu comandante. Ele
solicitou o filme para revelação das imagens.
Com sinceridade, respondi: — Comandante, não
fotografei a festa. Naturalmente, ele não ficou satisfeito. Afinal, eu havia
recebido uma missão específica e não a cumprira. Como já era tarde, determinou
que eu permanecesse retido no quartel até que a situação fosse analisada no dia
seguinte.
Passei a noite imaginando qual seria minha
punição. Talvez alguns dias de prisão disciplinar. Talvez alguma outra sanção.
Na manhã seguinte, fui novamente chamado à presença do comandante. Preparei-me
para ouvir a punição. Mas fui surpreendido. Em vez de receber alguns dias de
cadeia, recebi dez dias de folga.
A esposa do Almirante havia telefonado para
agradecer minha participação na festa e elogiar minha atuação como poeta.
Segundo ela, aquele havia sido um dos aniversários mais memoráveis de sua vida.
Sem perceber, eu havia conquistado uma madrinha poderosa dentro da estrutura
militar.
Esse episódio mostrou algo que eu carregaria
para sempre. Mesmo dentro dos ambientes mais rigorosos, a cultura possui o
poder de aproximar pessoas, emocionar corações e criar pontes onde
aparentemente existem apenas protocolos e formalidades.
A vida militar foi uma verdadeira escola de
formação humana. Aprendi disciplina. Aprendi liderança. Aprendi espírito de
equipe. Aprendi a confiar nos companheiros e a ser digno da confiança deles.
Conheci comunidades ribeirinhas. Conversei com
indígenas. Ouvi histórias que jamais encontrei nos livros. Observei costumes,
crenças e tradições que enriqueceram profundamente minha formação cultural. Sem
perceber, realizava um aprendizado permanente sobre o Brasil profundo.
A curiosidade que me acompanhava desde a
infância permanecia viva. Cada experiência transformava-se em conhecimento.
Cada encontro transformava-se em memória. E muitas dessas memórias, anos mais
tarde, serviriam de inspiração para cordéis, poemas, pesquisas e projetos
culturais.
Ao concluir minha passagem pelo Corpo de
Fuzileiros Navais, eu já não era o mesmo jovem que havia embarcado para Manaus
naquele distante 16 de abril de 1991.
Trazia comigo novos conhecimentos e novas
experiências. Na Amazônia fui moldado, e entre a farda de combatente e a alma
de poeta, aprendi que é possível servir à Pátria sem abandonar as próprias
raízes.
Porque,
onde quer que eu estivesse, continuava sendo aquilo que sempre fui: um filho de
Baturité.
Ao completar cinco anos, três meses e vinte e
nove dias de serviços prestados à Marinha do Brasil, chegou o momento de tomar
uma decisão. Muitos acreditavam que eu seguiria carreira militar. Eu tinha
formação, experiência e condições de continuar servindo.
Gostava da vida militar, orgulhava-me da farda
que vestia, orgulhava-me do juramento que havia feito diante da Bandeira
Nacional e jamais me arrependi dele. Afinal, naquele juramento eu havia
prometido defender meu país, mesmo com o sacrifício da própria vida, foi um
compromisso honrado com dignidade e respeito.
Mas existia outro compromisso que habitava meu
coração muito antes da vida militar. Um compromisso que não havia sido feito
diante de autoridades, nem diante de testemunhas, nem diante da lei. Era uma
promessa feita diante de mim mesmo, uma promessa feita por um menino de doze
anos de idade.
Aquele menino que, sentado sobre a carroceria
de um caminhão de mudanças, viu sua cidade desaparecer no horizonte e jurou que
um dia voltaria para casa. Durante todos aqueles anos, essa promessa permaneceu
viva dentro de mim.
PARTE IV TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
CAPÍTULO 11
O RETORNO AO CEARÁ
Ao
chegar em Fortaleza
Vi tudo
modificado
O
Floresta lá da Vila
Estava
licenciado
E seu
majestoso estádio
Que
tristeza, abandonado.
Mestre
Pádua de Queiróz
No último ano de minha carreira militar,
precisamente em fevereiro de 1996, o destino reservou para mim um dos encontros
mais importantes de toda a minha vida.
Foi em Manaus que conheci Marli, uma cearense
que havia acabado de chegar à capital amazonense para viver com sua mãe, que já
estava radicada naquela cidade. Quando a vi pela primeira vez, senti algo
impossível de explicar. Meu coração falou antes da razão. Uma voz silenciosa,
mas firme, parecia dizer:
—
É ela.
Aproximei-me, iniciamos uma amizade que logo
se transformou em amor, e pouco tempo depois nos casamos. Tudo aconteceu de
forma simples e natural, como se já estivesse escrito pelos desígnios de Deus.
Marli não chegou sozinha. Ela trazia consigo
seus dois filhos: Jéssyca, com apenas três anos de idade, e Geymson, então com
oito anos. Recebi aqueles dois pequenos como um presente divino. De repente,
Deus me concedia não apenas uma esposa, mas uma família inteira para amar,
proteger e ajudar a construir.
Apesar de estarmos vivendo na Amazônia, tanto
eu quanto Marli compartilhávamos o mesmo sonho. Nossos corações apontavam para
a mesma direção. Queríamos voltar para o Ceará. Queríamos recomeçar perto de
nossas raízes.
No final de novembro de 1996, embarcamos no
navio de passageiros João Pessoa. Durante cinco dias navegamos pelas águas
majestosas do Rio Amazonas, iniciando a longa viagem de retorno ao Nordeste.
A cada quilômetro percorrido, aumentava em mim
a certeza de que um novo capítulo estava prestes a começar. Ao chegarmos a
Fortaleza, fomos morar inicialmente na casa de minha mãe.
Eu estava determinado a reconstruir minha vida
e cumprir uma promessa que carregava comigo havia muito tempo. Pretendia servir
à minha terra da mesma forma que havia servido ao Brasil durante os anos de
Marinha.
Mas logo percebi que a realidade do bairro
Vila Manoel Sátiro era diferente daquela que eu guardava na memória. O bairro
que outrora era conhecido como um verdadeiro celeiro de craques já não possuía
a mesma força esportiva.
O tradicional Floresta Esporte Clube, orgulho
da comunidade, encontrava-se com as portas fechadas. Seu estádio estava
abandonado. Os campos silenciosos pareciam testemunhar o desaparecimento dos
sonhos de muitos jovens.
Sem espaços para a prática esportiva, grande
parte da juventude encontrava-se vulnerável aos perigos das ruas, às más
influências e à falta de perspectivas. Aquela situação me inquietou
profundamente. Eu não conseguia permanecer indiferente. Senti que precisava
fazer alguma coisa.
Procurei então o proprietário do tradicional
Floresta Esporte Clube, o Senhor Roberto Santiago e apresentei uma proposta. Pedi
que me emprestasse o campo e a estrutura esportiva para desenvolver um trabalho
social voltado para crianças e adolescentes da comunidade.
Ele aceitou a ideia, mas estabeleceu uma
condição. Não queria que eu utilizasse o nome Floresta, fundado por seus pais. Em
vez disso, sugeriu que a equipe se chamasse Juventus. Aceitei a proposta.
Assim, em janeiro de 1997, juntamente com meu
primo Manoel Alencar, ex-goleiro do Floresta, e contando com o apoio
fundamental de minha esposa Marli, iniciamos um projeto esportivo destinado a
jovens de até dezessete anos de idade.
O resultado foi imediato. A primeira geração
de atletas revelou talentos extraordinários. Muitos daqueles meninos que
chegavam ao campo carregando apenas sonhos e esperança acabariam construindo
carreiras de destaque no futebol profissional.
Entre eles estava Dudu Cearense, que mais
tarde brilharia em importantes clubes do Brasil, da Europa e também na Seleção
Brasileira. Outro destaque foi Marcelo Sabiá, que construiu uma sólida
trajetória em grandes equipes do futebol nordestino.
Eram apenas os primeiros exemplos de uma longa
lista de jovens que encontraram no esporte uma oportunidade de transformação. O
sucesso do projeto chamou a atenção do proprietário do clube.
Em 1999, convencido da seriedade e da
importância do trabalho realizado, ele decidiu abraçar definitivamente a
iniciativa e entregou em nossas mãos o comando do Floresta Esporte Clube. Começava
então um intenso período de reconstrução.
Foram anos de muito esforço, dedicação e
perseverança. Mas os resultados vieram. Passo a passo, o Floresta voltou a
crescer. A instituição recuperou sua identidade, fortaleceu sua base e voltou a
ocupar espaço no cenário esportivo cearense.
Anos depois, o clube alcançaria projeção
nacional, enfrentando de igual para igual equipes tradicionais do futebol
brasileiro. Ver essa trajetória sempre me encheu de orgulho.
Em 2005, entretanto, senti um novo chamado. A
cultura popular, a literatura de cordel e as tradições nordestinas passaram a
ocupar cada vez mais espaço em minha vida. Percebi que minha missão seguia por
outros caminhos.
Era impossível conciliar plenamente as
atividades esportivas com a crescente dedicação à arte e à cultura. Depois de
refletir profundamente, decidi encerrar minha participação direta no futebol. Saí
com a consciência tranquila e a sensação do dever cumprido.
Ao longo daqueles anos, mais de oitocentos
jovens passaram pelos treinamentos ministrados por mim e por Manoel Alencar. Mais
do que ensinar futebol, procuramos transmitir valores, disciplina, respeito e
esperança.
Muitos seguiram carreira no esporte. Outros
escolheram caminhos diferentes. Mas todos tiveram a oportunidade de acreditar
em si mesmos. Ao olhar para trás, compreendo que aquela iniciativa foi uma
continuação natural dos ensinamentos que recebi ao longo da vida.
Primeiro servi ao Brasil como militar. Depois
servi à juventude por meio do esporte. E, mais tarde, passaria a servir ao meu
povo através da cultura, da literatura de cordel e da preservação da memória
nordestina.
CAPÍTULO 12
DOS CAMPOS AOS PALCOS
Voltei pro mundo da arte
E acredite você
Resolvi compor paródias
Gravei um alegre CD
Sucesso em dois mil e nove
Foi “Com medo de descer.”
Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)
Ao me afastar das atividades esportivas,
imaginei que finalmente chegara o momento de cumprir aquela promessa feita a
mim mesmo aos doze anos de idade: voltar para minha querida cidade de Baturité.
Entretanto, a realidade financeira não me permitia realizar esse sonho da forma
como eu desejava. Eu precisava trabalhar para sustentar minha família.
Primeiramente exerci a função de zelador em um
supermercado. Era um trabalho digno, mas exigente, que consumia grande parte do
meu tempo e das minhas energias. Muitas vezes, mal sobravam algumas horas para
me dedicar às atividades culturais.
Posteriormente, surgiu uma oportunidade que
acabaria mudando os rumos da minha trajetória artística. Passei a trabalhar
como porteiro noturno em um condomínio residencial.
Foi um emprego simples, mas de enorme
importância para minha formação cultural. Durante as madrugadas, enquanto a
cidade dormia, eu encontrava um ambiente tranquilo e silencioso. Entre uma
ronda e outra, aproveitava o tempo para ler, escrever cordéis, desenhar capas,
compor músicas e planejar projetos culturais.
Aqueles turnos noturnos transformaram-se em
verdadeiras oficinas de criação. Ali nasceram inúmeros versos. O pouco dinheiro
que sobrava depois das despesas da casa mal era suficiente para comprar papel,
tinta, canetas e outros materiais necessários para minhas produções culturais.
Mas eu não conseguia parar. A cultura já fazia
parte da minha essência. Mesmo cansado pela rotina de trabalho, continuava
levando adiante, mesmo voluntariamente, o projeto Cordelizando na Escola,
inspirado pelo exemplo de meu inesquecível professor Iton Lopes, que tanto
contribuiu para minha formação.
Nesse
período, minha mãe retornou para Baturité. Eu permaneci em Fortaleza ao lado de
minha esposa e dos filhos, conciliando o trabalho que garantia o sustento da
família, enquanto as as atividades culturais realizava por puro amor.
Foi então que uma nova porta começou a se
abrir. Em 2009, inspirado nas irreverentes paródias do Palhaço Caçarola,
resolvi me aventurar em uma área até então pouco explorada por mim: a música
humorística.
Com o apoio do talentoso músico Wendel
Rodrigues, entrei pela primeira vez em um estúdio de gravação. A experiência
foi emocionante. Gravamos um CD de paródias inspirado na maior rivalidade do
futebol cearense: Ceará x Fortaleza.
Nascia ali um projeto que superaria todas as
minhas expectativas. Ao mesmo tempo, fundei a banda "Pádua de Queiróz e os
Netinhos do Vovô". O sucesso foi praticamente imediato.
Logo no primeiro ano, a música "Com Medo
de Descer", composta e interpretada por mim, conquistou a simpatia dos
torcedores e espalhou-se pelos quatro cantos da capital cearense.
A canção tornou-se um verdadeiro fenômeno musical.
Em pouco tempo, a banda passou a receber convites para apresentações em
emissoras de rádio, programas de televisão e eventos esportivos.
No ano seguinte, gravamos o segundo volume do
CD, desta vez contando com o apoio do presidente do Ceará Sporting Club. As
músicas alcançaram uma repercussão que eu jamais poderia imaginar.
Era comum ouvir minha voz ecoando pelas ruas
do centro de Fortaleza nos tradicionais carrinhos de som que vendiam CDs
populares. A cada esquina, a cada feira, a cada ponto de grande circulação, lá
estavam as canções carregadas de humor, criatividade e paixão pelo futebol.
Financeiramente, os resultados foram modestos.
Naquela época, a pirataria dominava o mercado informal de música, e quase nada
retornava para os artistas. Mas, para mim, existia uma recompensa ainda maior. Meu
trabalho alcançava espaços que antes pareciam reservados apenas aos grandes
nomes da música regional.
Aquilo representava mais uma confirmação de
que os sonhos podem florescer mesmo em terrenos difíceis. Sem perceber, eu
estava deixando definitivamente os campos de futebol para ocupar novos espaços.
Os palcos, os estúdios, as escolas e os
festivais culturais passavam a fazer parte do meu cotidiano. Uma nova etapa da
minha missão estava apenas começando.
CAPÍTULO 13
O LICEU DE BATURITÉ
Confesso naquele dia
Feliz eu cordelizei
Baturité, minha terra
Do jeitinho que sonhei
Este fato foi marcante
E para mim importante
Eu jamais esquecerei.
Mestre Pádua de Queiróz – “Versos Soltos” (2009)
No ano de 2009, recebi um convite que tocou
profundamente meu coração. A professora Ágda Oliveira, que lecionava no Liceu
Domingos Sávio, em Baturité, entrou em contato comigo para saber se eu estaria
disponível para ministrar uma palestra sobre literatura de cordel naquela
instituição de ensino.
Não pensei duas vezes. Aceitei imediatamente. A
oportunidade de retornar à minha cidade natal para compartilhar minha arte com
jovens estudantes era algo que não tinha preço.
Era muito mais do que uma simples palestra. Era
uma espécie de reencontro com minhas próprias origens. Lembro-me da emoção que
senti ao chegar ao colégio. Caminhar novamente pelas ruas de Baturité
despertava lembranças da infância, dos amigos, da escola, dos sonhos que haviam
nascido naquele chão.
Ao entrar na sala e iniciar minha conversa com
os alunos, percebi que a literatura de cordel despertava curiosidade e
encantamento. Muitos daqueles jovens estavam tendo o primeiro contato mais
profundo com uma das mais importantes manifestações da cultura popular
nordestina.
Falei sobre os poetas populares. Expliquei a
estrutura dos versos. Contei histórias de minha trajetória. Mostrei cordéis,
canções e experiências acumuladas ao longo dos anos.
A receptividade dos alunos e dos professores
foi extraordinária. Naquela tarde, compreendi algo que mudaria minha maneira de
enxergar a cultura. Percebi que a necessidade de agentes culturais não existia
apenas em Baturité.
Era uma realidade presente em toda a região do
Maciço de Baturité e em inúmeras cidades do interior nordestino. Havia uma
enorme carência de iniciativas voltadas para a valorização da identidade
cultural, da literatura popular e das tradições de nosso povo.
Ao mesmo tempo, minha vida em Fortaleza
atravessava um período difícil. Eu trabalhava muito. Os ganhos nem modestos
eram. Os esforços dedicados à cultura raramente produziam retorno financeiro.
Muitas vezes me perguntava se não seria melhor
retornar definitivamente para minha terra. Em Baturité, minha mãe vivia com meu
irmão Lisboa. Meu pai continuava morando em seu sítio, na serra. Eu sabia que
não estaria sozinho.
A ideia de voltar para perto da família
tornava-se cada vez mais atraente. Movido por esse desejo, procurei
oportunidades de trabalho na cidade. Também busquei apoio junto à Secretaria de
Cultura do município para desenvolver projetos culturais. Mas as portas não se
abriram naquele momento.
Apesar da boa vontade de algumas pessoas, as
condições necessárias para uma mudança definitiva ainda não existiam. Foi então
que cheguei a uma conclusão difícil, porém necessária. Baturité teria que
esperar mais um pouco.
Meu retorno definitivo ainda não era possível.
Entretanto, aquela experiência no Liceu Domingos Sávio deixou uma marca
permanente em minha trajetória. Ali realizei, com sucesso, meu primeiro grande
trabalho cultural em minha cidade natal.
Foi a primeira vez que apresentei minha arte
de forma organizada para estudantes baturiteenses. Foi a primeira vez que
percebi, de maneira concreta, que meu trabalho poderia contribuir para
fortalecer a identidade cultural de minha própria terra.
Ao final daquela tarde, voltei para Fortaleza
levando mais do que recordações. Levei a certeza de que um dia retornaria, e
que minha missão cultural ainda estava apenas começando.
E, acima de tudo, levei a esperança de que os
versos do cordel ainda haveriam de florescer entre as serras verdes de
Baturité, inspirando novas gerações a conhecer, valorizar e preservar a riqueza
da cultura nordestina.
CAPÍTULO 14
O NASCIMENTO DO
AGENTE CULTURAL
Ao chegar
na UNILAB
Naquele mês
de agosto
Com um
folheto na mão
E alegria
no rosto
Pra defender
minha arte
Estava muito
disposto.
Mestre
Pádua de Queiróz – “Versos soltos” (2021)
A partir do ano de 2010, passei a dedicar-me
com maior intensidade à cultura tradicional popular, especialmente à Literatura
de Cordel. Foram anos de estudo, pesquisa e aproximação com essa tradição tão
rica e profundamente enraizada na identidade nordestina. Eu mergulhava cada vez
mais no universo dos folhetos, dos poetas populares, das narrativas rimadas e
da história do cordel. Entretanto, logo percebi que existia uma barreira que eu
precisaria transpor.
O cenário da época era marcado por uma espécie
de monopólio cultural bastante visível. Havia a ideia de que somente era
considerado cordel legítimo aquilo que fosse publicado por uma determinada e
famosa editora. Tudo o que surgia fora desse círculo parecia ser tratado como
algo de menor importância, especialmente os trabalhos produzidos de forma
independente ou impressos em pequenas gráficas.
Eu possuía poucos recursos financeiros, mas
nunca me faltaram determinação e coragem. Precisava encontrar uma forma de
superar aquele obstáculo. Foi então que cheguei a uma conclusão que mudaria
minha trajetória. Mais importante do que o poeta cordelista era o próprio
cordel. Mais importante do que qualquer selo editorial era a força da poesia
popular.
Foi com esse pensamento que, em 2012, abracei
definitivamente a Literatura de Cordel. No dia 1º de agosto daquele ano,
aconteceu a I Feira de Literatura de Cordel do Maciço de Baturité, realizada na
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB),
na cidade de Redenção.
Ao tomar conhecimento do evento, escrevi e
datilografei um folheto de cordel intitulado “UNILAB, Um Elo Cultural”, Com
apenas um único exemplar debaixo do braço, segui para Redenção sem imaginar que
aquele dia marcaria para sempre minha história.
Ao chegar ao local, encontrei renomados
cordelistas vindos de diversas regiões. Muitos deles estavam ligados à editora
que organizava o evento. Observei atentamente toda a movimentação e, para minha
surpresa, não encontrei nenhum poeta representando as treze cidades que compõem
o Maciço de Baturité, região onde nasci e construí minhas raízes.
Naquele ambiente, eu era praticamente um
desconhecido. Poucas pessoas dirigiram a palavra a mim. Entretanto, um senhor
vestindo trajes africanos aproximou-se da mesa onde eu havia colocado meu
folheto.
Curioso, pegou o exemplar e começou a
folheá-lo. Demonstrou interesse imediato e perguntou quanto custava. Expliquei
que aquele era o único exemplar que eu possuía e que não estava à venda.
Disse-lhe, porém, que ao final das atividades culturais eu teria uma resposta:
se fosse convidado a apresentar meu trabalho, tudo bem; se não fosse, teria a
honra de presenteá-lo com aquele cordel. O homem sorriu e agradeceu.
A programação prosseguiu. A tarde deu lugar à
noite. Eu assistia, encantado, às apresentações artísticas e culturais que se
sucediam no palco. Cada poeta, cada músico e cada manifestação popular
reforçavam ainda mais meu amor pela cultura nordestina.
Foi então que aconteceu algo completamente
inesperado. Ao final do evento, aquele mesmo senhor subiu ao palco para fazer o
encerramento oficial. Diante do público presente, começou a falar sobre a
importância da cultura, da educação e da integração dos povos. Em seguida,
mencionou meu nome.
Falou sobre o cordel que eu havia escrito
contando a história da universidade. E, para minha completa surpresa,
convidou-me para encerrar a programação realizando a leitura pública do meu
trabalho. Somente naquele momento descobri quem era aquele homem. Tratava-se do
professor Paulo Speller, então reitor da UNILAB.
Com o coração acelerado e tomado pela emoção,
subi ao palco. Ali, diante de estudantes, professores, artistas e visitantes,
dei voz aos versos que havia escrito. Li cada estrofe com a convicção de quem
acreditava profundamente na força da poesia popular. Ao concluir a
apresentação, fui recebido com aplausos calorosos. A emoção daquele momento
permanece viva em minha memória.
No
dia seguinte, diversos sites e veículos de comunicação destacavam a repercussão
da apresentação. As manchetes registravam: “Poeta baturiteense emociona público
na I Feira de Literatura de Cordel do Maciço de Baturité.”
Naquele instante, compreendi que havia
conseguido ultrapassar a barreira que durante tanto tempo tentara limitar o
acesso de muitos artistas populares aos espaços de reconhecimento. Não foi o
prestígio de uma editora que abriu aquele caminho. Foi a perseverança e a força
do próprio cordel.
Percebi, então, que existem aqueles que vivem
para a arte e aqueles que vivem da arte. E compreendi que minha missão estava
ligada ao primeiro caminho.
Aquele episódio transformou minha visão sobre
o papel da cultura na sociedade. Percebi que a cultura também possuía um
extraordinário poder de transformação. Assim como o esporte, ela podia educar e
fortalecer identidades.
Foi então que minhas duas missões começaram a
caminhar lado a lado. O educador social encontrava o agente cultural. Passei a
organizar atividades voltadas para a valorização da memória local, defendendo o
patrimônio imaterial de minha terra.
A cada nova iniciativa, fortalecia-se em mim a
convicção de que preservar a cultura popular era uma responsabilidade coletiva.
Muitas tradições estavam desaparecendo, muitas histórias corriam o risco de
serem esquecidas. Era necessário registrar, divulgar e principalmente, era
necessário ensinar.
Foi nesse contexto que o cordel passou a
ocupar um papel cada vez mais importante em minha vida. Ele reunia tudo aquilo
em que eu acreditava. O agente cultural nascia naturalmente. Não por uma
escolha planejada, mas como consequência de toda uma trajetória construída
desde a infância.
O menino que ouviu histórias no Putiú
transformava-se agora em alguém disposto a contar histórias para o mundo. Uma
nova etapa estava prestes a começar. Do defensor incansável da cultura
nordestina e do homem que compreendera que o verdadeiro valor do cordel não
está em quem o publica, mas na capacidade que ele possui de tocar o coração das
pessoas e preservar a alma de um povo.
PARTE V
O CORDELISTA
CAPÍTULO 15
O RETORNO A BATURITÉ
Foi um tempo
de aflição
Tão triste e desanimado
Voltei pra
minha cidade
Meu coração
enlutado
Que me dizia:
agora
Construa aqui
seu legado.
Mestre Pádua
de Queiroz – “Estrofes soltas” (2012)
Quando deixei Baturité naquele distante
janeiro de 1984, parti carregando tristeza, incertezas e sonhos. Saí sobre a
carroceria de um caminhão, observando minha terra desaparecer aos poucos no
horizonte. Naquele momento, fiz uma promessa silenciosa a mim mesmo: um dia
voltaria.
Passaram-se vinte e oito anos. Nesse
intervalo, vivi experiências que jamais imaginei viver. Conheci diferentes
cidades, servi à Marinha do Brasil, viajei por diversos lugares e acumulei
histórias que moldaram meu caráter e ampliaram minha visão de mundo.
Mas o coração nunca abandonou a terra onde
nasci. Em 2012, a vida reservou-me momentos de profunda dor. Primeiro, perdi
meu irmão Antônio de Lisboa, que morava com nossa mãe, Dona Quinca. Sua partida
deixou um vazio difícil de descrever. Poucos meses depois, outro golpe abalou
nossa família: o falecimento de meu pai, Antônio Borges.
Foram perdas que me fizeram refletir sobre a
brevidade da existência e sobre aquilo que realmente possui valor em nossa
caminhada. Diante daqueles acontecimentos, compreendi que havia chegado a hora
de voltar para casa.
Não apenas para visitar, mas para viver
definitivamente em Baturité. Queria estar perto de minha mãe. Sabia que o
retorno não seria fácil. Eu não possuía emprego fixo, não tinha estabilidade
financeira e não dispunha de recursos que garantissem conforto à minha família.
Muitos poderiam considerar aquela decisão
arriscada, talvez até imprudente. Mas eu já havia aprendido uma grande lição ao
longo da vida: Quem passou tanto tempo convivendo com tão pouco aprende a
valorizar qualquer conquista. Eu estava acostumado às dificuldades, se
conseguisse apenas um pouco, para mim já seria muito. E foi assim que tomei a
decisão de regressar.
Curiosamente, da mesma forma que havia
partido, eu retornava para cumprir a promessa feita naquele longínquo dia de
janeiro de 1984. Ao chegar novamente a Baturité, senti algo impossível de
explicar com palavras. Era como reencontrar uma parte de mim que jamais havia
partido.
Voltar para Baturité não significava apenas
regressar a uma cidade. Significava regressar às minhas origens. Porém compreendia
que minha missão seria contribuir para preservar a memória do povo serrano
através da arte, da educação e da literatura.
CAPÍTULO 16
OS SARAUS DA PRAÇA
SANTA LUZIA
Dar para viver de arte
Sendo um artista de ponta?
Respondi: com certeza.
Eu não sou barata tonta.
Só se eu fosse secretário
Com minha verba na conta!
Mestre Pádua de Queiróz – “Minha História” (2022)
Entre os anos de 2013 e 2015, Baturité
atravessava um dos períodos mais conturbados de sua história política recente. A
instabilidade administrativa era evidente. Em pouco tempo, quatro prefeitos
passaram pelo comando da maior cidade do Maciço de Baturité.
As constantes mudanças refletiam diretamente
na vida da população e, especialmente, no setor cultural. Naquele contexto,
conseguir apoio para projetos culturais parecia um sonho impossível.
A cultura encontrava-se abandonada. Faltavam
investimentos, faltavam políticas públicas e, muitas vezes, faltava compromisso
por parte daqueles que deveriam valorizá-la.
Apesar das dificuldades, encontrei acolhimento
em um importante veículo de comunicação da cidade: a Rádio FM Girassol de
Baturité. Ali vivi uma experiência marcante ao lado dos comunicadores Josenias
de Abreu e Gilmar Costa, o popular Titela.
Durante vários anos, apresentei o programa A
Voz da Verdade, transmitido aos sábados à tarde. Era um espaço plural, onde
discutíamos política, cultura, religião e assuntos relacionados à vida rural.
O programa possuía grande audiência e permitia
que a população expressasse suas opiniões e inquietações. Foi justamente em uma
dessas transmissões que vivi um episódio que acabaria trazendo consequências
para minha caminhada cultural.
Certo
dia, um ouvinte telefonou para o programa e fez uma pergunta direta:— Dá para
viver de cultura em Baturité? Sem pensar em possíveis repercussões políticas,
respondi com a sinceridade que sempre marcou minha trajetória:
—
Dá sim. Se for secretário de Cultura, porque todo mês o dinheiro está na conta.
A frase provocou risos entre alguns ouvintes,
mas também gerou descontentamento em determinados setores da administração
pública. A partir daquele momento, as portas começaram a se fechar para mim.
Meu projeto Cordelizando na Escola, que vinha
sendo realizado de forma voluntária e sem qualquer custo para o município,
passou a enfrentar obstáculos inesperados.
Pouco tempo depois fui impedido de continuar
entrando nas escolas da rede municipal. A justificativa apresentada era que meu
trabalho não fazia parte da grade curricular. Na prática, porém, eu sabia que a
verdadeira razão era outra. A cultura crítica raramente agrada aos que desejam
apenas aplausos.
A situação tornou-se ainda mais difícil. Sem
apoio institucional e sem espaço nos equipamentos públicos, precisei buscar
alternativas para continuar produzindo e sobrevivendo.
Os poucos recursos financeiros que chegavam
vinham, quase sempre, de pessoas da capital ou de outros estados que me
procuravam para escrever folhetos de cordel contando a história de familiares,
amigos ou personalidades que desejavam homenagear.
Foi dessa atividade que nasceu um slogan que
me acompanharia por muitos anos: “Biografia Cordelizada: me conte que eu
conto.” Transformar vidas em poesia tornou-se uma forma de preservar memórias
e, ao mesmo tempo, garantir alguma renda para sustentar minha família.
Mas a cultura popular tem uma característica
extraordinária. Quando uma porta se fecha, ela encontra uma janela. E foi nesse
período que surgiu uma das experiências mais significativas de minha
trajetória.
Certo dia, fui procurado pelo saudoso amigo
Maninho Taveira. Homem apaixonado pela cultura e pelas manifestações populares,
ele me apresentou uma proposta que mudaria nossa atuação cultural na cidade.
Criar um evento aberto ao povo. Sem
dependência do poder público, sem burocracia e sem exclusões. Assim nasceu o
projeto Sarau na Praça. Não havia patrocínio oficial, não havia verbas públicas,
não havia estrutura sofisticada. O que existia era vontade, coragem e amor pela
cultura.
Para realizar cada edição do evento,
percorríamos o comércio local pedindo apoio aos empresários e comerciantes da
cidade. De porta em porta. De amigo em amigo. De contribuição em contribuição.
Assim conseguíamos reunir os recursos mínimos
necessários para realizar, uma vez por mês, aquele encontro cultural. O palco
escolhido foi a Praça Santa Luzia. Um espaço simples, mas carregado de
significado para a população de Baturité.
Sempre acreditei que a cultura deve estar
perto das pessoas. Ela não pode ficar restrita aos grandes teatros. Não pode
permanecer apenas nos ambientes acadêmicos. A cultura precisa ocupar as ruas para
dialogar com a comunidade.
Os primeiros saraus foram modestos. Alguns
poetas, músicos e poucos espectadores. Mas algo especial acontecia ali. As
pessoas sentiam necessidade de compartilhar arte, de ouvir e contar histórias e
o mais importante sentiam necessidade de pertencer.
Pouco a pouco os encontros cresceram. Novos
artistas passaram a participar, Cordelistas apresentavam seus versos, cantadores
mostravam seu talento, músicos levavam suas canções, enquanto pesquisadores
compartilhavam conhecimentos. A praça transformou-se em um verdadeiro palco
popular.
O mais bonito era observar a diversidade do
público: crianças, jovens, adultos, idosos. Todos encontravam espaço naquele
ambiente democrático e acolhedor. Os saraus ajudaram a revelar talentos, valorizaram
a produção cultural da região.
Em muitas ocasiões observei pessoas
emocionadas ao ouvir histórias que faziam parte de suas próprias vidas. Histórias
que estavam sendo devolvidas ao povo através da poesia, da música e da
oralidade. A arte cumpria sua função social.
Foi na Praça Santa Luzia que compreendi, de
forma definitiva, uma das maiores lições de minha caminhada. A cultura não
depende de prédios, não depende de cargos, não depende de governos. Ela depende
das pessoas que acreditam que a arte pode transformar realidades.
Basta
que existam pessoas dispostas a mantê-la viva.
CAPÍTULO 17
CORDELIZANDO NA
ESCOLA
Aos poucos o meu trabalho
Foi sendo reconhecido
Diversos prêmios ganhei
Mas por ter desenvolvido
O cordelizando na escola
E meu saber dividido.
Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)
Entre os diversos projetos que desenvolvi ao
longo de minha caminhada, poucos me proporcionaram tanta alegria, aprendizado e
realização quanto o Cordelizando na Escola.
A ideia nasceu a partir de minha convivência
com o professor Iton Lopes, grande incentivador das ações voltadas para a
valorização da cultura e da educação. Em nossas conversas, compartilhávamos uma
preocupação comum: como aproximar os estudantes da leitura e do conhecimento
utilizando elementos que fizessem parte de sua própria realidade cultural?
A resposta estava diante de nós. O cordel e sua
linguagem simples, acessível, criativa e popular. Capaz de despertar a
curiosidade e estimular o aprendizado de forma prazerosa.
O projeto surgiu de maneira modesta, mas
carregado de propósito. Eu acreditava que a Literatura de Cordel poderia ser
muito mais do que um gênero literário. Ela poderia ser uma poderosa ferramenta
pedagógica.
Através dela seria possível ensinar história,
geografia, meio ambiente, cidadania, valores humanos e identidade cultural. Entretanto,
transformar aquela ideia em realidade não foi tarefa fácil.
Como quase tudo em minha trajetória, o
Cordelizando na Escola precisou vencer muitos obstáculos. Faltavam recursos, apoio
institucional, faltavam também políticas públicas voltadas para a valorização
da cultura popular dentro das escolas.
Mesmo assim, seguimos em frente, movidos pela
convicção de que estávamos realizando um trabalho necessário. Comecei visitando
escolas da região, levava meus folhetos que sempre distribuía gratuitamente
para os alunos e bibliotecas escolares.
Os educadores percebiam no cordel uma
ferramenta capaz de aproximar o conhecimento da realidade dos estudantes. Com o
passar do tempo, o projeto foi crescendo. As simples apresentações
transformaram-se em oficinas culturais.
Os alunos passaram a aprender sobre métrica,
rima, estrofação e construção poética. Muitos escreveram seus primeiros versos,
enquanto outros produziram seus próprios folhetos com temas ligados à
comunidade, à preservação ambiental, à cidadania e à história local passaram a
fazer parte das atividades desenvolvidas.
Cada oficina representava uma oportunidade de
plantar sementes de valorização cultural. Os resultados superaram todas as
expectativas, pois muitos estudantes passaram a demonstrar maior interesse
pelos livros. Outros descobriram talentos artísticos que estavam adormecidos. Ver
aqueles jovens se reconhecendo em sua própria cultura era uma das maiores
recompensas que eu poderia receber.
Nem tudo, porém, aconteceu sem dificuldades. Durante
determinados períodos, especialmente em momentos de instabilidade política no
município, o projeto enfrentou resistência. Houve ocasiões em que as portas das
escolas se fecharam para meu trabalho. Mesmo sendo uma atividade voluntária,
realizada sem qualquer custo para o poder público, encontrei barreiras que
dificultaram a continuidade das ações.
Mas aprendi que quem trabalha com cultura
popular precisa desenvolver uma qualidade fundamental: a persistência. E
persistir sempre foi uma característica presente em minha vida.
Em 2017, com a mudança da gestão municipal em
Baturité, vislumbrei novos horizontes. As portas das instituições de ensino
voltaram a se abrir. O Cordelizando na Escola retomou seu espaço.
Mais uma vez pude levar a poesia popular para
dentro das salas de aula. Infelizmente, continuei percebendo que a cultura
local nem sempre recebe a atenção e o cuidado que merece por parte daqueles
que, direta ou indiretamente, possuem essa responsabilidade.
Mesmo assim, o projeto continuou avançando, porque
sua força não estava nos gabinetes, estava nos estudantes, nos professores, nas
escolas que acreditavam em seu valor, e principalmente no poder transformador
da educação.
Ao longo dos anos, centenas de crianças e
jovens tiveram contato com a Literatura de Cordel através desse trabalho. Muitos
conheceram pela primeira vez uma das mais importantes manifestações culturais
do Nordeste. Hoje, quando olho para trás, considero o Cordelizando na Escola
uma das realizações mais importantes de toda a minha trajetória. Porque através
dele consegui unir as duas grandes paixões que sempre orientaram minha
caminhada.
A educação e a cultura. Duas forças capazes de
transformar vidas. Duas missões que Deus colocou em meu caminho e que sigo
desempenhando com amor, dedicação e esperança.
E enquanto houver uma escola de portas abertas
e um estudante disposto a ouvir uma história rimada, o Cordelizando na Escola
continuará cumprindo sua missão de semear conhecimento, identidade e cultura
pelas terras do Maciço de Baturité.
CAPÍTULO 18
CORDELIZANDO NO SÍTIO
Quando veio a pandemia
Então tudo se fechou
O isolamento social
O mundo todo adotou
Cantando Raul dizia
Hoje chegou o dia
Em que a terra parou.
Mestre Pádua de Queiróz – “versos soltos” - (2020)
Aproveitando o mote do Cordelizando na
Escola, permito-me dar um salto no tempo para falar de uma experiência que
nasceu em circunstâncias completamente inesperadas. O ano era 2021. O mundo
ainda enfrentava os efeitos da pandemia da Covid-19. As escolas haviam suspendido
suas atividades presenciais. Os eventos culturais também estavam suspensos.
As praças estavam vazias. Os abraços
tornaram-se raros. O isolamento social modificou a vida de milhões de pessoas. Para
quem trabalhava com educação e cultura, o desafio era enorme. Como continuar
levando conhecimento ao público?
Foi nesse momento que precisei me reinventar
mais uma vez. Até então, minha atuação estava muito ligada aos encontros
presenciais. Mas a pandemia exigia novos caminhos. Foi então que passei a
utilizar com mais frequência as redes sociais. Transformei meu sítio em uma
verdadeira sala de aula a céu aberto.
Entre árvores, pássaros, plantas e paisagens
serranas, comecei a gravar vídeos sobre Literatura de Cordel. Falava sobre a
história dos folhetos. Explicava a métrica. Ensinava a construção das rimas. Apresentava
grandes mestres da poesia popular.
A cada gravação, procurava mostrar que o
cordel continua vivo, atual e capaz de dialogar com todas as gerações. Mesmo
separados fisicamente, conseguíamos nos aproximar através da tecnologia.
Os vídeos passaram a alcançar pessoas de
diferentes cidades e estados. Alunos que antes participavam das atividades
presenciais agora acompanhavam as aulas pela internet. Professores utilizavam
os conteúdos em suas atividades pedagógicas. Novos admiradores da Literatura de
Cordel passaram a conhecer meu trabalho.
A experiência foi tão positiva que acabou
dando origem a uma nova vertente do projeto. Nascia ali o Cordelizando no
Sítio. Com o retorno gradual das atividades presenciais, passei a receber
estudantes, educadores, pesquisadores e amantes da cultura popular em minha
própria residência.
O sítio transformou-se em espaço de
aprendizagem, convivência e troca de experiências. O ambiente simples e
acolhedor aproximava as pessoas das raízes culturais da minha cidade serrana. Cada
visita tornava-se uma experiência única.
Os participantes podiam conhecer de perto meu
acervo de folhetos, ouvir histórias, fazer perguntas e compartilhar suas
próprias experiências. O mais emocionante era perceber o entusiasmo dos
estudantes.
Sempre
que uma nova turma chegava ao sítio, a animação tomava conta do ambiente. E
quase sempre alguém repetia uma frase que acabaria se tornando uma espécie de
marca registrada daqueles encontros:
—
Hoje tem cordel no sítio!
Ao ouvir essas palavras, meu coração se enchia
de alegria. Porque elas representavam muito mais do que uma simples visita. Representavam
o interesse dos jovens pela cultura e a continuidade de um trabalho iniciado
muitos anos antes, com a certeza de que as sementes plantadas através do
Cordelizando na Escola estavam produzindo frutos.
O Cordelizando no Sítio mostrou-me que a
educação não está limitada às salas de aula. Ela pode acontecer sob a sombra de
uma árvore. Sei que a pandemia trouxe desafios imensos para a humanidade. Mas
também nos ensinou novas formas de aproximação, e foi justamente naquele
período de distanciamento que descobri uma nova maneira de levar a Literatura
de Cordel ao encontro das pessoas.
Uma extensão natural de minha missão como
educador, cordelista e agente cultural. Uma prova de que a cultura popular
sempre encontra caminhos para florescer, mesmo nos tempos mais difíceis.
PARTE VI
A OBRA
CAPÍTULO 19
MEUS CORDEIS
Para mim é muito fácil
Abordar qualquer assunto
Em verso metrificado
Eu faço um belo conjunto
De estrofes que parece
Que o tema virou prece
E que Deus escreveu junto.
Mestre Pádua de Queiróz – “Versos soltos” (2000)
Quando alguém visita meu acervo ou conhece
parte de minha produção literária, costuma fazer uma pergunta que escuto com
frequência:
—
Quantos cordéis o senhor já escreveu?
A verdade é que perdi as contas há muito
tempo. Foram tantos anos dedicados à Literatura de Cordel que seria difícil
precisar a quantidade exata de folhetos publicados.
O que sei é que muitos já vieram ao mundo
através de minhas mãos e também sei que muitos outros ainda esperam sua vez de
nascer. Porque a inspiração não se aposenta, e o cordel continua sendo parte
fundamental da minha existência.
Mas confesso que nunca medi a importância de
um cordelista pela quantidade de obras que produziu. Na minha maneira de
compreender essa arte, cordelista não é aquele que escreveu mais. Cordelista é
aquele que ama e vive a Literatura de Cordel.
Ao longo de minha caminhada, o cordel
tornou-se a principal ferramenta de trabalho que utilizei para dialogar com a
sociedade. Se alguém me perguntasse qual foi o instrumento mais importante em
minha missão cultural, eu responderia sem hesitar:
A
Literatura de Cordel.
Foi através dela que encontrei uma maneira
simples, acessível e profundamente popular de comunicar ideias, transmitir
conhecimentos e preservar memórias. Cada cordel que escrevi nasceu de uma
motivação especial. Alguns surgiram da necessidade de registrar fatos
históricos que não poderiam ser esquecidos. Outros nasceram da vontade de
homenagear pessoas que contribuíram para a construção da identidade de nossa
região. Muitos foram escritos com objetivos educativos. Outros vieram da
observação do cotidiano. E alguns simplesmente nasceram da inspiração poética
que acompanha minha caminhada desde a juventude.
Meu acervo possui uma temática bastante
diversificada. Escrevi sobre a história de Baturité e sua Região. Sobre
educação, meio ambiente, cidadania, fé e religiosidade, acontecimentos históricos
e também desenvolvi um trabalho que se tornou uma marca registrada de minha
produção literária: as biografias cordelizadas.
Transformar a trajetória de uma pessoa em
versos tornou-se uma forma especial de eternizar memórias. Foi dessa
experiência que nasceu meu conhecido slogan: “Biografia Cordelizada: me conte
que eu conto.”
Ao longo dos anos, inúmeras famílias confiaram
a mim suas histórias. Recebi relatos de vidas simples e extraordinárias, e procurei
transformar cada uma delas em poesia popular. Sempre busquei utilizar uma
linguagem acessível.
Nas escolas, muitos dos meus folhetos passaram
a ser utilizados como material pedagógico. Professores encontraram nos cordéis
uma ferramenta eficiente para trabalhar interpretação textual, história,
geografia, cultura regional e produção de textos.
Quando observo meu acervo, não enxergo apenas
uma coleção de folhetos. Vejo capítulos da minha própria vida. Cada cordel
guarda um momento especial para mim. São páginas que registram minhas
preocupações, minhas esperanças e meu compromisso permanente com a cultura
popular.
Mais do que livros impressos ou folhetos
distribuídos em feiras e escolas, meus cordéis tornaram-se testemunhos de uma
missão construída ao longo da vida.
Uma missão que continua. Porque enquanto
houver uma história para contar, uma memória para preservar ou uma lição para
ensinar, sempre haverá espaço para um novo cordel nascer.
E enquanto Deus me conceder inspiração e
força, continuarei escrevendo versos para celebrar a cultura, a história e o
povo nordestino.
construída
ao longo da vida.
CAPÍTULO 20
QUEM ACENDEU LAMPIÃO?
Quem acendeu
Lampião?
Foi meu
primeiro cordel
Retratei
o cangaceiro
Da maneira
mais fiel
Foi o
meu primeiro passo
E eu
sigo neste compasso
Cumprindo
bem meu papel.
Mestre Pádua
de Queiróz – “Versos soltos” – 2011
Ao longo dos anos escrevi dezenas de cordéis
sobre os mais variados temas. Muitos deles receberam boa acolhida do público. Outros
foram utilizados em escolas, projetos culturais e atividades educativas. Todos
possuem importância em minha caminhada.
Mas existe uma obra que ocupa um lugar
especial em minha trajetória literária. Trata-se do cordel "Quem Acendeu
Lampião?" Mais do que um simples folheto, essa obra representa a
materialização de meu pensamento crítico e de minha maneira de enxergar a
história nordestina.
A ideia nasceu de uma pergunta aparentemente
simples: Quem teria acendido Lampião? Quem despertou naquele jovem sertanejo o
desejo de seguir o caminho do cangaço? A pergunta carregava uma reflexão
profunda.
Ao longo da história, muitas vezes se procura
compreender apenas os efeitos, sem investigar as causas. Lampião tornou-se uma
das figuras mais conhecidas do Nordeste brasileiro.
Herói para alguns. Bandido para outros. Personagem
complexo que continua despertando debates até os dias atuais. Mas eu desejava
olhar além do personagem. Queria refletir sobre as circunstâncias sociais,
econômicas e humanas que ajudaram a construir aquela trajetória.
Foi a partir dessa provocação que desenvolvi o
cordel. Utilizando pesquisa histórica, observação crítica e imaginação poética,
construí uma narrativa que convidava o leitor a pensar sobre um dos capítulos
mais fascinantes da história sertaneja.
Desde os primeiros versos percebi que aquele
trabalho possuía algo diferente. O tema despertava curiosidade imediata. As
pessoas queriam saber qual seria minha interpretação para aquela pergunta.
Quem
teria acendido Lampião? Seria a injustiça? A violência? A vingança? As
desigualdades do sertão? Ou a soma de todos esses fatores? A obra não pretendia
oferecer respostas definitivas. Seu propósito era provocar reflexão. Estimular
o debate.
Ao ser publicado, o cordel recebeu excelente
acolhida do público. Leitores de diferentes cidades demonstraram interesse pela
obra. Professores passaram a utilizá-la em atividades pedagógicas. Pesquisadores
e estudiosos da temática do cangaço também reconheceram o valor da abordagem
proposta.
Pouco a pouco, o trabalho começou a circular
em espaços culturais que eu jamais havia imaginado alcançar. O cordel ampliou
minha visibilidade como autor. Levou meu nome a novos públicos. Abriu portas
para palestras, apresentações e encontros literários.
Mas o reconhecimento não foi o aspecto mais
importante daquela experiência. O que mais me marcou foi perceber que os
leitores saíam da leitura fazendo perguntas. Questionando, refletindo e buscando
compreender melhor a história de seu próprio povo.
Esse sempre foi um dos principais objetivos de
minha produção literária. Utilizar a poesia não apenas para entreter, mas
também para educar. Não apenas para informar, mas também para provocar
pensamento crítico.
Afinal, a Literatura de Cordel possui essa
extraordinária capacidade de transformar temas complexos em leitura acessível e
envolvente. E foi através deste cordel que percebi claramente o poder da
palavra escrita.
Até hoje, quando alguém menciona essa obra,
recordo com carinho o caminho percorrido desde sua criação. Ela permanece como
um dos trabalhos mais lembrados por leitores, estudantes e admiradores de minha
produção literária. E continua sendo, para mim, a prova de que um cordel pode
fazer muito mais do que contar uma história.
CAPÍTULO 21
MINHA MÚSICA E
COMUNICAÇÃO POPULAR
A paródia
é uma releitura
De um
texto ou uma canção
Nunca considere
plágio
E nem
mesmo tradução.
Não é
obra original
É expressão
cultural
De nossa
rica Nação.
Mestre Pádua
de Queiróz – A moto velha (2014)
Ao recapitular minha trajetória, percebo que
não poderia deixar de dedicar um capítulo especial à música. Ela sempre esteve
presente em minha vida. Às vezes de forma discreta. Outras vezes ocupando papel
de destaque. Mas sempre caminhando ao lado da poesia.
Minha relação com a música começou ainda nos
tempos de escola. Foi ali que descobri o poder das paródias musicais. Gostava
de adaptar letras conhecidas para transmitir mensagens educativas, criar humor
ou abordar situações do cotidiano estudantil.
Sem
perceber, dava os primeiros passos em uma atividade que me acompanharia por
toda a vida. Com o passar dos anos, enfrentei momentos difíceis que exigiram de
mim capacidade de reinvenção.
Foi então que compreendi que meu dom para a
poesia poderia ultrapassar os limites do cordel. Passei a utilizar a música
como ferramenta de comunicação popular. Afinal, uma canção possui a capacidade
de alcançar pessoas que muitas vezes não têm o hábito da leitura.
No início, utilizei o futebol como tema
principal de muitas composições e paródias. O esporte era uma paixão que me
acompanhava desde a infância e servia como inspiração para inúmeras criações.
Mas foi após meu retorno definitivo a
Baturité, em 2012, que a música assumiu uma nova função em minha vida. Observando
de perto o mando e desmando da política local, encontrei na paródia musical uma
forma de exercer cidadania.
Através do humor, da crítica e da
criatividade, passei a denunciar problemas, reivindicar direitos e defender
aqueles que muitas vezes não possuíam voz nem vez. Quando os salários dos
servidores públicos municipais atrasavam, transformei a conhecida canção de
José Augusto, “Eu Quero Apenas Carinho”, em uma paródia intitulada “Eu Quero o
Meu Dinheirinho”.
A música rapidamente ganhou repercussão e
passou a tocar nas emissoras de rádio da cidade. Em outra ocasião, utilizei a
canção “Desiludido”, do cantor Paulo Sérgio, para protestar contra os problemas
no abastecimento de água. A paródia recebeu o título de “Dona CAGECE” e
refletia o sentimento de muitos moradores que enfrentavam dificuldades no
acesso ao serviço.
Confesso que perdi a conta de quantas paródias
produzi ao longo desses anos. Foram centenas. Músicas do cancioneiro popular
brasileiro ganharam novas letras, adaptadas à realidade do povo de Baturité e
do Maciço.
Mas meu trabalho musical não se limitou à
crítica social. Também utilizei a música como instrumento de conscientização. Compus
letras alertando a população sobre o combate ao mosquito Aedes aegypti. Produzi
canções incentivando a preservação das florestas. Defendi a proteção dos
recursos naturais. Incentivei o descarte correto do lixo. Abordei temas ligados
à saúde, à educação e à cidadania. Sempre procurei colocar a arte a serviço da
comunidade.
Durante essa caminhada tive a felicidade de
encontrar pessoas que acreditaram em meu trabalho. Entre elas, um irmão que a
cultura me presenteou: Ribamar Néco. Cantor, radialista e proprietário de um
estúdio de gravação em Baturité, Ribamar tornou-se um parceiro importante em
minha trajetória musical.
Com ele aprendi muito. Aprendi sobre
interpretação, gravação, produção
musical, e sobre o compromisso que um artista deve ter com a qualidade de seu
trabalho.
Nossa amizade transformou-se em parceria
artística. Juntos desenvolvemos diversos projetos e compartilhamos experiências
que contribuíram para meu crescimento como compositor.
Além
das paródias, também passei a investir cada vez mais em composições autorais. Ao
longo dos anos escrevi dezenas de músicas inspiradas em experiências pessoais,
sentimentos, temas culturais e questões sociais.
Entre essas composições, uma das mais
emocionantes foi “Pra Não Te Esquecer”.
A
canção nasceu em parceria com Ribamar Néco, como uma homenagem póstuma ao
cantor Genival Santos, artista que deixou sua marca na música popular
brasileira. A interpretação magistral de
Ribamar Néco deu vida à composição e tornou aquele trabalho ainda mais
especial.
Canção autoral como “Mestres da Cultura”
representa meu compromisso com a preservação da memória e dos saberes
tradicionais. Nessa obra procurei homenagear homens e mulheres que dedicaram e
dedicam suas vidas à manutenção da cultura popular cearense. Cada verso
funciona como um agradecimento àqueles que mantêm vivas nossas tradições.
Também destaco a composição “Eternamente”, outra
canção autoral que aborda sentimentos universais ligados ao amor, à saudade e à
dimensão afetiva da existência humana.
Meu objetivo sempre foi contribuir para que a
cultura popular ocupasse o espaço que merece. Hoje continuo escrevendo, compondo,
aprendendo e cada vez mais procuro aprofundar minha dedicação às composições
autorais. Porque a música, assim como o cordel, tornou-se uma extensão de minha
própria voz.
CAPÍTULO 22
FESTIVAIS, BIENAIS E
ENCONTROS
Chegar numa bienal
Foi difícil conseguir
Eu cheguei “qui nem matuto
No parque do Anhembi
Cordelizei em São Paulo
E fiz bonito ali.
Mestre Pádua de Queiróz – “Versos Soltos” (2024)
Participar
de uma bienal do livro é um sonho para a maioria dos escritores. Para mim não
era diferente. Durante muitos anos alimentei esse desejo em silêncio,
trabalhando, escrevendo e acreditando que um dia teria a oportunidade de levar
meus cordéis para um dos maiores eventos literários do país.
Em 2017, durante uma atividade cultural
realizada na ASSALCE — Associação dos Servidores da Assembleia Legislativa do
Ceará — tive a oportunidade de falar sobre minha trajetória e sobre meus
projetos culturais.
Em determinado momento, mencionei um sonho que
ainda não havia conseguido realizar. O sonho de participar de uma Bienal do
Livro. Falei sem imaginar que aquelas palavras produziriam algum resultado
concreto. Mas a vida costuma surpreender aqueles que perseveram.
No ano seguinte, recebi uma ligação da própria
ASSALCE. A notícia me encheu de alegria. Fui informado de que meu nome havia
sido indicado para participar da Bienal Internacional do Livro do Ceará. A
emoção foi enorme. Finalmente surgia a oportunidade tão esperada.
No entanto, para confirmar minha participação,
eu deveria entrar em contato com os organizadores responsáveis pelo espaço
dedicado à cultura popular e à Literatura de Cordel.
Foi aí que começou uma nova decepção. Perdi a
conta das ligações que fiz. Ninguém atendia. Enviei mensagens, não obtive
retorno, procurei pessoalmente uma das pessoas responsáveis pela organização do
espaço, pois conhecia aquele organizador, mas, mesmo assim, não fui recebido.
O tempo passou, Bienal aconteceu e eu fiquei
de fora. Posteriormente descobri que os responsáveis por aquele setor eram
ligados à mesma editora de Literatura de Cordel que, durante anos, exerceu
forte influência sobre determinados espaços culturais. Como eu não fazia parte
daquele grupo, minha participação acabou não se concretizando. Confesso que foi
doloroso. Não pelo evento em si. Mas porque percebi que ainda existiam
barreiras sendo erguidas contra artistas independentes.
Entretanto, a vida já havia me ensinado uma
lição importante. Tudo tem seu tempo e aquilo que nos pertence encontra o
caminho para chegar até nós. Continuei trabalhando. Continuei realizando
oficinas, palestras, saraus e projetos culturais. Sem guardar mágoas e sem
abandonar meus sonhos.
Foi então que, em 2024, aconteceu algo
completamente inesperado. Na gestão do prefeito Herberlh Mota, recebi uma
ligação que jamais esquecerei. Do outro lado da linha estava o próprio prefeito
de Baturité, que com simplicidade e respeito, fez um convite que me deixou
profundamente emocionado.
Representar nossa cidade na XXVII Bienal
Internacional do Livro de São Paulo, realizada no Parque Anhembi. Aceitei
imediatamente. No dia seguinte, recebi as passagens aéreas. Tudo aconteceu de
forma rápida. Mas, acima de tudo, aconteceu de forma sincera.
Viajei para São Paulo levando na bagagem muito
mais do que livros e cordéis. Levava minha história, levava minha cultura, levava
o nome de Baturité, levava o orgulho de representar o Ceará e o povo do Maciço
de Baturité.
Ao chegar ao evento, senti uma mistura de
emoção, gratidão e responsabilidade. Sabia que aquela oportunidade não era
apenas minha. Ela representava todos aqueles que acreditaram em meu trabalho ao
longo dos anos.
Fiz o que sempre procurei fazer. Apresentei
minha arte, compartilhei meus cordéis, defendi a cultura popular mostrando a
riqueza das tradições nordestinas. O resultado superou todas as expectativas.
Meu trabalho chamou a atenção do Sistema
Brasileiro de Televisão – SBT. A emissora realizou uma cobertura especial de
minha participação no evento. Ver meu trabalho sendo divulgado em uma rede
nacional de televisão foi uma experiência inesquecível.
Naquele momento compreendi que o
reconhecimento chega quando encontra terreno fértil. E que nenhuma porta
fechada é capaz de impedir definitivamente a caminhada de quem persevera. Mas
as boas notícias não pararam por aí.
No ano seguinte, recebi novos convites e novas
oportunidades. Fui contratado pelo Museu Ferroviário João Felipe, em Fortaleza.
Participei de atividades promovidas pela Secretaria da Cultura do Estado do
Ceará. Atuei em ações desenvolvidas pela Secretaria de Educação de Baturité. E,
em parceria com a Editora IMEPH, participei durante três dias da XV Bienal
Internacional do Livro do Ceará.
Dessa vez, não como alguém tentando entrar, mas
como alguém convidado para contribuir. Como alguém reconhecido pelo trabalho
que desenvolveu ao longo de muitos anos. Aquilo representou muito mais do que
uma participação em um grande evento. Representou a consolidação de uma
trajetória construída com esforço, perseverança e amor à cultura popular.
Ao longo dos anos também participei de
inúmeros festivais, feiras culturais, encontros literários, seminários,
congressos e eventos voltados para a valorização dos saberes tradicionais.
Estive na Casa de Saberes Cego Aderaldo, em
Quixadá.nParticipei dos encontros Conselheiro Vivo, em Quixeramobim. Realizei
oficinas e palestras em escolas de Fortaleza, Caucaia, Mulungu, Viçosa do
Ceará, Monsenhor Tabosa, Aratuba e diversos outros municípios. Integrei edições
do SESC Herança Nativa. Participei dos Encontros dos Mestres do Mundo. Compartilhando
experiências com artistas, pesquisadores, educadores e mestres da cultura
popular.
Mas nenhuma dessas conquistas apagou a
lembrança daquele escritor que, um dia, sonhou participar de uma bienal e viu
as portas se fecharem diante de si. Hoje compreendo que os caminhos da vida nem
sempre seguem a direção que desejamos.
Mas quando o trabalho é verdadeiro, quando a
dedicação é sincera e quando a missão é maior do que os interesses pessoais, o
tempo se encarrega de colocar cada coisa em seu devido lugar. E foi exatamente
isso que aconteceu comigo.
As portas que um dia se fecharam ficaram para
trás. Outras se abriram. E através delas pude levar a Literatura de Cordel, a
cultura popular e o nome de Baturité para novos horizontes.
PARTE
VII
RECONHECIMENTO
CAPÍTULO 23
A ACADEMIA CEARENSE DE
LITERATURA
Onde eu vou levo a cultura
Do cordel, minha poesia
Paródias músicas autorais
Histórias, muita alegria
Sou membro da ACLC
A nossa academia.
Mestre Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)
Outro acontecimento marcante de minha
trajetória literária também ocorreu durante o período da pandemia da Covid-19.
Em um momento em que o mundo enfrentava o isolamento social e as atividades
culturais precisavam se reinventar, surgiu uma iniciativa que fortaleceria
ainda mais a literatura de cordel no Ceará.
O idealizador desse projeto foi o poeta e
cordelista groairense Charles Melo, que reuniu doze poetas cordelistas de
diversas regiões do estado com o propósito de fundar uma instituição dedicada à
valorização e ao fortalecimento da poesia popular nordestina. Assim, no dia 23
de agosto de 2021, nasceu a Academia Cearense de Literatura de Cordel (ACLC).
Tenho a honra de fazer parte desse grupo
pioneiro, reconhecido como o conjunto dos membros fundadores da academia. Para
mim, aquele momento representou a concretização de um sonho que jamais imaginei
alcançar quando escrevia meus primeiros versos ainda na juventude.
As reuniões iniciais aconteceram de forma
virtual, uma necessidade imposta pelas circunstâncias da época. Mesmo separados
fisicamente, estávamos unidos pelo mesmo ideal: preservar, divulgar e
fortalecer a literatura de cordel cearense.
Durante esses primeiros encontros, foram
realizados os sorteios das cadeiras acadêmicas e a distribuição dos cargos
administrativos da nova instituição. Charles Melo foi eleito presidente da
ACLC, tendo o poeta cordelista Pedro Sampaio como vice-presidente.
Recebi dos confrades a honrosa missão de
exercer o cargo de primeiro-secretário da Academia Cearense de Literatura de
Cordel. Assumi a função com entusiasmo e senso de responsabilidade. Cabia-me
colaborar diretamente na organização administrativa da instituição, registrar
as decisões, acompanhar os trabalhos internos e contribuir para a consolidação
daquela importante iniciativa cultural.
O
trabalho foi intenso, mas profundamente gratificante. Com o passar do tempo, a
academia ampliou seus quadros e recebeu mais trinta e oito cordelistas,
completando as cinquenta cadeiras destinadas aos mais destacados representantes
da literatura de cordel do Ceará.
Cada novo membro incorporado fortalecia ainda
mais o projeto coletivo que estávamos construindo. Ao olhar para trás,
recordo-me dos tempos em que escrevia meus primeiros folhetos sem imaginar a
dimensão que a literatura de cordel alcançaria em minha vida.
Naquela época, meu objetivo era simples:
contar histórias, preservar memórias e compartilhar conhecimentos por meio da
poesia popular. O caminho, porém, foi longo.
Foram anos dedicados à pesquisa cultural, à
produção literária, às apresentações em escolas, às oficinas educativas, às
palestras e às inúmeras ações voltadas para a valorização da identidade
nordestina. Cada cordel publicado representava um novo passo.
Gradualmente, meus trabalhos passaram a
alcançar novos leitores. Professores, estudantes, pesquisadores e admiradores
da literatura popular começaram a acompanhar minha produção, abrindo portas
para novos espaços de atuação.
Entre esses espaços estavam justamente os
ambientes acadêmicos dedicados ao estudo, à pesquisa e à preservação da
literatura. Receber o reconhecimento de instituições literárias foi uma
experiência profundamente emocionante.
Não enxergava aquilo como uma conquista
exclusivamente pessoal. Via naquele reconhecimento uma homenagem a todos os
poetas populares que dedicaram suas vidas à preservação das tradições
nordestinas.
Sentia-me representando uma herança cultural
construída por gerações de homens e mulheres que transformaram a palavra em
instrumento de educação, memória e resistência.
Compreendi então que a academia e o cordel não
pertenciam a universos distintos. Eram caminhos diferentes que conduziam ao
mesmo objetivo: preservar, produzir e transmitir conhecimento.
Minha participação na Academia Cearense de
Literatura de Cordel fortaleceu ainda mais meu compromisso com a educação, a
pesquisa, a cultura popular e a valorização das raízes nordestinas. E
compreendi que aquela conquista não representava um ponto de chegada. Era
apenas o início de uma nova missão.
CAPÍTULO 24
MESTRE DOS SABERES E
FAZERES DAS CULTURAS POPULARES DE BATURITÉ
E em
dois mil e dezoito
A câmara
municipal
Me deu o
título de mestre
De nossa
cultura local
Pra mim
um reconhecimento
Que eu
achei sensacional.
Mestre
Pádua de Queiróz – “Minha história” (2022)
O ano de 2018 marcou um dos momentos mais
significativos de minha trajetória cultural. Naquele período, a Câmara
Municipal de Baturité, por iniciativa da vereadora Clarissa Calado, apresentou
um projeto de lei que tinha como objetivo reconhecer oficialmente os agentes
culturais que prestaram relevantes serviços à cultura do município.
A proposta criava o título de Mestre dos
Saberes e Fazeres das Culturas Populares de Baturité, uma honraria destinada
àqueles que dedicaram suas vidas à preservação, difusão e valorização das
tradições culturais de nossa terra.
Após a tramitação legislativa, a lei foi
aprovada pelos vereadores e sancionada, passando a integrar o conjunto das
políticas públicas de valorização da cultura popular do município.
Foi então que recebi uma notícia que me
emocionou profundamente. Meu nome havia sido escolhido para receber o título. Mais
do que isso. Eu me tornaria o primeiro Mestre dos Saberes e Fazeres das
Culturas Populares de Baturité. O primeiro da história do município.
Ser reconhecido em minha própria cidade foi
uma emoção difícil de descrever. Não poderia existir prêmio maior para mim. Receber
o reconhecimento do povo que acompanhou minha caminhada, que conheceu minhas
origens, minhas lutas e meus sonhos, representou uma das maiores honras de
minha vida.
Ainda hoje, quando recordo aquele momento,
sinto a mesma emoção que tomou conta de meu coração. Porque nenhuma homenagem
possui significado maior do que ser valorizado por sua própria terra.
Foi como receber um abraço coletivo de
Baturité, terra que me viu nascer, crescer e construir minha história. Confesso
que naquele momento uma sucessão de lembranças tomou conta de meus pensamentos.
Recordei os tempos difíceis da infância. As
primeiras experiências com a leitura. Os versos escritos em folhas simples de
papel. As apresentações realizadas em escolas, praças e eventos culturais.
Cada passo daquela caminhada parecia desfilar
diante de meus olhos. Ao longo da vida, jamais trabalhei em busca de homenagens
ou títulos. Ao receber essa homenagem, meu pensamento voltou imediatamente para
as pessoas que fizeram parte dessa caminhada.
Lembrei-me de minha querida mãe, Dona Quinca,
minha primeira referência de amor, trabalho e sabedoria. Lembrei dos
professores que me incentivaram a estudar e acreditar em meus sonhos. Lembrei
dos amigos que estiveram presentes nos momentos de alegria e também nas
dificuldades. Lembrei das crianças e dos jovens que participaram de meus
projetos educativos e culturais. Lembrei dos poetas populares, dos mestres da
tradição oral e dos cordelistas que me inspiraram ao longo da vida.
Compreendi mais uma vez que nenhuma conquista
é construída sozinho. Toda trajetória é resultado de encontros. De
aprendizados. Receber o título de Mestre dos Saberes e Fazeres das Culturas
Populares de Baturité fortaleceu ainda mais minha responsabilidade como
educador, escritor e agente cultural.
Percebi que aquele reconhecimento trazia
consigo uma missão ainda maior. A missão de continuar compartilhando
conhecimentos, e acima de tudo, um compromisso permanente com Baturité, terra
que me viu nascer, crescer e construir minha história.
Ser o primeiro Mestre dos Saberes e Fazeres
das Culturas Populares de Baturité é uma honra que guardarei para sempre em meu
coração. Não como um título individual. Mas como um símbolo de tudo aquilo que
a cultura popular pode transformar na vida das pessoas quando é cultivada com
amor, respeito e dedicação.
CAPÍTULO 25
TESOURO VIVO DA CULTURA
CEARENSE
Em dois
mil e vinte e dois
O melhor
aconteceu
A SECULT
CEARÁ
Meu
trabalho reconheceu
Lá na
cidade do Crato
Realizei
o sonho meu.
Mestre Pádua
de Queiróz – “Minha História” (2022)
Até aquele momento, eu nunca havia
participado de nenhum edital cultural. Também não tinha experiência com
concursos públicos voltados para a cultura. Na verdade, sequer conhecia a
existência da Lei dos Tesouros Vivos da Cultura do Ceará, uma iniciativa
pioneira criada pelo Governo do Estado para reconhecer e proteger mestres e
mestras detentores de saberes tradicionais.
Minha vida sempre esteve voltada para a
prática cultural. Eu escrevia cordéis, mas nunca havia pensado em disputar
editais ou concorrer a títulos oficiais. Tudo começou a mudar em 2022.
Certo dia, recebi uma ligação de um velho
amigo dos tempos de futebol na Vila Manuel Sátiro, em Fortaleza. Era Paulo
Queiroz. Durante nossa conversa, ele perguntou se eu já havia pensado em
participar do edital dos Tesouros Vivos da Cultura Cearense. Respondi que não.
Foi então que ele passou a me incentivar. Falou
da importância de minha trajetória. Lembrou meus trabalhos na literatura de
cordel. Destacou minhas ações culturais e educativas. Insistiu para que eu
apresentasse minha candidatura.
Confesso que, num primeiro momento, achei que
aquilo era apenas um sonho distante. O Ceará é um dos maiores celeiros
culturais do Brasil. Terra de artistas consagrados. De mestres da tradição. Concorrer
com pessoas daquela grandeza parecia algo impossível. Mas, Paulo insistiu
tanto, que decidi tentar.
Procurei algumas pessoas em minha cidade para
me orientar sobre como elaborar o projeto exigido pelo edital. As respostas não
foram animadoras. Alguns disseram não poder ajudar. Outros se dispuseram a
prestar assessoria, mas cobravam valores que estavam muito além de minhas
condições financeiras.
Voltei
para casa pensativo. Foi então que tomei uma decisão. Se outras pessoas
conseguiam elaborar aqueles projetos, eu também poderia aprender. Abri o
edital. Comecei a estudar cada página. Cada exigência. Cada documento
solicitado. Passei dias mergulhado naquele universo completamente novo para
mim.
Lembro-me
de uma noite em especial. Eu estava diante do computador, cercado por
documentos, anotações e dúvidas. Sentia-me perdido em meio a tantas
informações. Foi justamente naquela noite que recebi a visita de dois grandes
amigos vindos do Rio Grande do Norte.
Gabriel Demetrius, natural de São Paulo do
Potengi e servidor do IFCE Campus Baturité, Levi Medeiros, também potengiense e
funcionário da Ematerce. Ao perceberem minha dificuldade, decidiram ajudar. E
não foi uma ajuda qualquer.
Gabriel mergulhou profundamente no projeto. Estudou
o edital, organizou informações, pesquisou documentos. Levi também abraçou a
causa com dedicação e entusiasmo. Pouco tempo depois, juntou-se ao grupo mais
um colaborador fundamental: o professor Temilson Costa, natural da cidade de
Caicó, no Rio Grande do Norte.
Formamos uma verdadeira equipe na construção
de um projeto capaz de representar toda uma vida dedicada à literatura de
cordel e à cultura popular. O esforço foi enorme. Mas a dedicação daqueles
amigos foi ainda maior.
Quando o resultado foi divulgado, veio a
surpresa. Meu nome estava entre os aprovados, mais do que isso, obtive a
terceira maior nota entre todos os concorrentes do Estado do Ceará.
No dia 19 de dezembro de 2022, vivi um dos
momentos mais emocionantes de minha existência. No Centro Cultural do Cariri,
na cidade do Crato, recebi das mãos do então secretário da Cultura do Ceará,
Fabiano Piúba, o título de Mestre da Cultura Tradicional Popular do Estado do
Ceará.
Eu passava a integrar oficialmente o seleto
grupo dos Tesouros Vivos da Cultura Cearense. Naquele instante, senti que toda
uma vida dedicada ao cordel, à educação e à cultura popular estava sendo
reconhecida.
Compreendi que aquela conquista não era apenas
minha. Sem Paulo Queiroz, talvez eu jamais tivesse conhecido o edital, sem
Gabriel Demetrius, Levi Medeiros e Temilson Costa, talvez o projeto nunca
tivesse alcançado a qualidade necessária.
Sem o apoio permanente de minha esposa Marli,
que sempre esteve ao meu lado nos momentos mais difíceis, a caminhada teria
sido muito mais árdua. E ao lado deles existiram muitas outras pessoas que,
desde o início de minha trajetória, estenderam a mão sem esperar nada em troca.
No ano seguinte, outro momento de orgulho, recebi
da Universidade Estadual do Ceará (UECE) o diploma de Notório Saber em Cultura
Tradicional Popular. Era mais um reconhecimento que me emocionava
profundamente.
Doutor Poeta. Um título que carregava consigo
não apenas o reconhecimento acadêmico, mas sobretudo o respeito aos saberes
construídos na experiência, na vivência e na tradição popular.
Entre todos os reconhecimentos recebidos ao
longo da caminhada, poucos possuem significado tão profundo quanto o título de
Tesouro Vivo da Cultura Cearense.
Ser Tesouro Vivo significa compreender que os
conhecimentos acumulados ao longo da vida precisam ser compartilhados e
transmitidos.
PARTE
VIII
A
ESFEROGRAVURA E LEGADO
CAPÍTULO 26
COMO DESCOBRI A
ESFEROGRAVURA
Para ilustrar meus cordéis
Criei a esferogravura
Na arte de desenhar
Não tinha muita cultura
E com caneta na mão
E farta imaginação
Rabiscava uma figura.
Mestre Pádua de Queiróz – “Versos soltos” (2006)
A história da Esferogravura começou de
maneira simples, como costumam começar muitas das grandes descobertas. Naquele
período, eu estava concluindo mais uma obra em literatura de cordel. O texto já
estava pronto. Os versos haviam sido revisados. A publicação seguia seu curso
natural. Faltava apenas a capa.
Como todo cordelista sabe, a capa possui uma
importância especial. Ela é o primeiro contato do leitor com a obra. É o
convite visual que desperta a curiosidade e prepara o espírito para a leitura.
Sabendo disso, procurei um amigo desenhista
para produzir a ilustração. Expliquei o tema do cordel. Apresentei minhas
ideias. Contei como imaginava a imagem. Ele ouviu atentamente e respondeu que
poderia realizar o trabalho sem dificuldades. Animado, perguntei quanto
custaria a ilustração. A resposta veio imediatamente:
—
Como você é meu amigo, vou cobrar apenas mil e trezentos reais.
Por alguns instantes fiquei sem reação. Aquele
valor estava muito além de minhas condições financeiras naquele momento, agradeci
sua atenção. Reconheci a qualidade de seu trabalho. Mas, educadamente, precisei
desistir da encomenda.
Voltei para casa pensativo. Enquanto
caminhava, uma inquietação crescia dentro de mim. Não era revolta e não era
desânimo. Era algo diferente. Uma mistura de desafio, curiosidade e
determinação.
Ao chegar em casa, sentei-me diante de uma
mesa simples, cercado por livros, folhetos de cordel, papéis e anotações. Foi
então que travei um diálogo comigo mesmo. Uma conversa silenciosa que mudaria
os rumos de minha vida artística.
—
Se ele sabe fazer, eu também posso aprender.
Aquela
frase ecoou dentro de mim. Peguei apenas uma folha de papel comum e uma caneta
esferográfica, e comecei a desenhar. Primeiro vieram os rabiscos, depois os
contornos, ... novas tentativas. Passei
horas experimentando.
Quando parei, já tinha diante de mim o
primeiro desenho de uma caminhada que jamais teria fim. Pouco a pouco, comecei
a perceber que aqueles desenhos possuíam características próprias. E não eram
desenhos convencionais, era uma nova linguagem artística que acabara de surgir
em minha frente. Foi então que batizei a nova técnica. Nascia a Esferogravura.
O nome unia duas ideias fundamentais. "Esfero",
em referência à caneta esferográfica, e "gravura", em alusão ao
resultado visual alcançado. A Esferogravura tornou-se uma forma particular de
gravura desenhada à mão, produzida exclusivamente com caneta esferográfica.
Logo começaram a surgir capas ilustradas com
personagens populares, vaqueiros, agricultores, poetas, retirantes, animais,
igrejas, estações ferroviárias, serras e paisagens do Maciço de Baturité. A
arte que havia nascido da necessidade transformou-se em paixão e a paixão
transformou-se em missão.
A
Esferogravura passaria a ocupar um lugar definitivo em minha trajetória como
cordelista, pesquisador e Mestre da Cultura Popular.
CAPÍTULO 27
DA CANETA
ESFEROGRÁFICA A ARTE DE ENTALHAR
Com goivas e umburana
Fiz minha primeira xilo
Hoje xilogravurista
Entalho isto ou aquilo
Ilustro o meu cordel
E descanso mais tranquilo.
Mestre Pádua de Queiróz – “Versos Soltos” – (2023)
À medida que aprofundava minha experiência
como ilustrador e desenvolvia a Esferogravura, passei a observar com ainda mais
atenção a arte da xilogravura nordestina.
A xilogravura sempre esteve presente no
universo do cordel. Durante décadas, foi responsável por ilustrar capas que se
tornaram verdadeiros símbolos da cultura popular brasileira.
Desde os primeiros folhetos que tive em mãos,
admirava aquelas imagens marcadas pela força dos contrastes, pela simplicidade
dos traços e pela capacidade de contar histórias sem o auxílio das palavras.
Ao estudar essa tradição, encontrei inspiração
em grandes mestres da xilogravura nordestina. Entre eles destacavam-se três
referências fundamentais em minha formação artística: Mestre Francisco Correia
Lima, conhecido nacionalmente como Francorli, o Mestre
José Lourenço e o Mestre João Pedro, de Juazeiro do Norte.
As obras desses artistas impressionavam pela
força visual e pela capacidade de transformar simples pedaços de madeira em
verdadeiras obras de arte. Eu observava atentamente cada detalhe.
Um aprendizado construído através da
observação, da pesquisa e da admiração. Quanto mais estudava aqueles mestres,
mais compreendia a grandeza da xilogravura como expressão da cultura popular
nordestina.
A Esferogravura havia nascido da caneta
esferográfica, mas minhas inquietações artísticas continuavam me conduzindo por
novos caminhos. Foi então que decidi dar um passo além. Inspirado por Mestre Francorli,
Mestre José Lourenço e Mestre João
Pedro, resolvi experimentar também a arte da xilogravura.
Adquiri
minhas primeiras ferramentas. Procurei orientação em livros, vídeos e conversas
com artistas experientes. E comecei a talhar minhas primeiras tábuas de
umburana, madeira tradicionalmente utilizada pelos xilógrafos nordestinos.
Mais uma vez encontrei desafios. A madeira
exigia paciência. Exigia precisão. Cada erro ficava registrado na própria
matriz. Mas justamente por isso o aprendizado tornou-se ainda mais fascinante.
A cada nova gravura concluída, sentia-me mais
próximo da tradição que tanto admirava. Não buscava copiar os mestres, buscava
aprender com eles. Compreender seus ensinamentos. Absorver a essência de uma
arte que há gerações ajuda a contar a história do povo nordestino.
Assim, a Esferogravura e a xilogravura
passaram a caminhar juntas em minha trajetória artística. Uma nascida da
necessidade e da invenção, a outra herdada da tradição e do respeito aos
antigos mestres. Ambas alimentadas pelo mesmo sentimento: o amor pela
literatura de cordel e pela cultura popular nordestina.
CAPÍTULO 28
LEGADO E MISSÃO
Um sonho só se sonha só
Isso você percebeu
Sonho não tem bluetooth
Cada qual sonha o seu
Mas para realizar
É preciso misturar
O seu sonho com o meu.
Mestre Pádua de Queiróz – “Raul Seixas: início, meio e fim
(2026)
Quando olho para trás e percorro com a
memória os caminhos que trilhei ao longo da vida, sinto uma profunda gratidão. Gratidão
a Deus, à minha família, aos amigos, aos mestres que me ensinaram, às
comunidades que me acolheram, a todas as pessoas que caminharam ao meu lado.
Minha história começou de forma simples, como
a de tantos outros meninos nordestinos. Nasci no bairro Putiú, em Baturité,
cercado pelas serras verdes do Maciço de Baturité e pelos ensinamentos de uma
família humilde e trabalhadora. Naquele tempo eu não imaginava os caminhos que
a vida me reservaria.
Não imaginava que seria reconhecido como
Mestre da Cultura Popular e Tesouro Vivo da Cultura Cearense, e muito menos
imaginava que criaria uma técnica artística chamada Esferogravura. Mas a vida
tem seus próprios caminhos.
Aprendi que os obstáculos podem transformar-se
em oportunidades quando enfrentados com coragem. Ao longo de minha caminhada,
descobri que o verdadeiro sucesso não está na quantidade de títulos recebidos.
O verdadeiro sucesso está na capacidade de
contribuir para a vida das pessoas. Está na capacidade de deixar algo positivo
para as futuras gerações. Por isso sempre procurei utilizar meus conhecimentos
para servir.
Se existe uma palavra capaz de resumir minha
trajetória, essa palavra é missão. Sempre o vi como instrumento educativo. Nunca
enxerguei a cultura apenas como entretenimento. Sempre a vi como ferramenta de
transformação social. Nunca enxerguei a arte apenas como produção estética. Sempre
a vi como forma de preservar a memória coletiva.
Foi essa visão que orientou todos os projetos
que desenvolvi. Ao longo dos anos tive o privilégio de conhecer pessoas
extraordinárias. Cada encontro deixou marcas positivas em minha vida. Aprendi
que ninguém constrói uma trajetória sozinho. Toda realização é resultado de uma
rede de afetos, ensinamentos e colaborações.
Por isso considero cada reconhecimento
recebido uma conquista coletiva. Quando fui reconhecido como Mestre da Cultura
Popular, pensei em minha mãe. Quando recebi o título de Tesouro Vivo da Cultura
Cearense, pensei em meus amigos que estavam ali perto quando eu precisava. Quando
vejo meus cordéis sendo utilizados nas escolas, penso nos professores. Quando
observo jovens produzindo seus próprios versos, penso no futuro.
Porque o futuro sempre foi minha principal
preocupação. A cultura popular só continuará viva se for transmitida às novas
gerações. Os saberes tradicionais só sobreviverão se forem compartilhados. As
memórias só permanecerão vivas se forem registradas. E essa responsabilidade
pertence a todos nós.
Vivemos em uma época marcada por
transformações rápidas. A tecnologia aproxima pessoas, mas também pode provocar
esquecimentos. Muitas tradições correm o risco de desaparecer. É justamente
nesse contexto que a cultura popular se torna ainda mais importante.
Ao escrever meus cordéis, sempre procurei
construir pontes entre passado e futuro. Registrar memórias sem deixar de
dialogar com os desafios contemporâneos. Preservar tradições sem ignorar as
mudanças do mundo.
O equilíbrio talvez seja um dos maiores
desafios enfrentados pelos agentes culturais. Ao me sentir inspirado adquiri a
capacidade de inspirar outras pessoas a continuar essa caminhada.
Se
algum jovem leitor encontrar nestas páginas motivação para estudar, criar,
pesquisar ou preservar a cultura popular, sentirei que todo esforço valeu a
pena. Porque a verdadeira herança cultural não está nos objetos. Está nos
conhecimentos transmitidos. Está nas sementes plantadas. E eu continuo
acreditando que as sementes da educação, da cultura e da arte são capazes de
transformar o mundo.
“ O aprendizado é a essência da arte, e o ensinamento é a
tradução do sucesso.”
Mestre Pádua de Queiróz
CAPÍTULO ESPECIAL
COSTA SENNA: O
ENCONTRO COM O POETA QUE INSPIROU MINHA CAMINHADA
No verão ou no inverno
Todo dia tem cordel
Desempenho meu papel
Sem jamais fugir da raia
Enquanto a mente não “faia”
Vou seguindo a divulgar
A cultura popular
A arte que me completa
Só deixo de ser poeta
Quando a morte me levar.
Mestre Pádua de Queiróz – “Para Costa Senna” ( 2024)
Alguns encontros marcam nossa vida para
sempre. Outros, mesmo demorando décadas para acontecer, parecem ter sido
escritos pelo destino. Minha história com o poeta cordelista Costa Senna
começou no ano de 1986, quando eu era aluno da Escola Estadual Maria Thomásia,
em Fortaleza. Naquele período tive a felicidade de conhecer o professor Iton
Lopes, um educador que exerceu profunda influência em minha formação
intelectual e cultural.
Certo dia, o professor presenteou-me com uma
coleção de literatura de cordel escrita por Costa Senna, poeta cearense
radicado no Estado de São Paulo. Foi um presente simples. Mas transformador.
Ao começar a leitura daqueles folhetos, senti
algo diferente. Fiquei encantado. A linguagem era clara. As palavras fluíam
naturalmente. Os versos possuíam musicalidade. Os trocadilhos despertavam
curiosidade e humor. As mensagens chegavam ao leitor de forma direta e
acessível.
Era uma literatura popular que falava para o
povo. Naquele momento eu ainda não imaginava que um dia me tornaria cordelista.
Mas aquelas leituras deixaram marcas profundas em minha formação.
Cada folheto lido aumentava meu interesse pela
poesia popular. O tempo passou, aquele jovem leitor transformou-se em poeta
popular. Tornei-me Mestre da Cultura Tradicional Popular do Estado do Ceará e,
posteriormente, Tesouro Vivo da Cultura Cearense. Mas um sonho permanecia
guardado em meu coração. Conhecer pessoalmente Costa Senna.
Eu desejava apertar a mão do poeta que havia
ajudado a despertar minha paixão pelo cordel. Desejava agradecer a ele o quanto
sua obra havia contribuído para minha trajetória.
Durante muitos anos esse encontro permaneceu
apenas no campo da esperança. Até que surgiu uma oportunidade. No ano de 2024
fui convidado para participar da XXVII Bienal Internacional do Livro de São
Paulo.
A viagem representava um momento importante de
minha caminhada literária. Ao consultar a programação do evento, recebi uma
notícia que me deixou profundamente emocionado. Costa Senna também participaria
da Bienal. Mais do que isso. Ele se apresentaria no mesmo espaço em que eu
realizaria minhas atividades.
Meu coração acelerou. Passei a contar os dias, as horas e depois os minutos. Finalmente
teria a oportunidade de conhecer aquele que eu considerava um dos grandes
responsáveis por minha aproximação com a literatura de cordel.
Mas a vida, às vezes, gosta de testar nossa
paciência. Uma mudança inesperada em minha programação impediu que o encontro
acontecesse. Quando percebi, a oportunidade havia passado. Voltei para casa
carregando uma mistura de alegria e frustração.
Alegria por ter participado de um evento tão
importante, e frustração por não ter conseguido encontrar meu ídolo. Pensei que
talvez aquela oportunidade não voltasse a surgir.
Mas Deus costuma escrever histórias melhores
do que aquelas que imaginamos. No ano seguinte, fui convidado a participar da
XV Bienal Internacional do Livro do Ceará. E eu passaria três dias no Centro de
Eventos do Ceará.
Ao consultar novamente a programação, tive uma
agradável surpresa. Costa Senna também estaria presente. Desta vez participando
das atividades do Espaço Cordel e Repente.
Ao chegar ao evento, procurei imediatamente
informações. Perguntei a amigos cordelistas, organizadores e a colegas de
caminhada. Eu queria encontrá-lo. Em determinado momento, um dos companheiros
apontou para uma pessoa que estava próxima e disse:
—
Pergunte a esse sujeito aí do lado.
Olhei. Observei atentamente, e imediatamente
pensei: "Aquele homem tem jeito de Costa Senna, tinha o rosto de Costa
Senna e tinha a expressão serena dos grandes poetas populares.”
Aproximei-me. Antes mesmo que eu dissesse
qualquer palavra, ele abriu os braços e me abraçou. Foi um daqueles momentos
que dificilmente podem ser descritos. Durante alguns segundos senti como se o
tempo tivesse voltado a 1986.
O menino que recebeu os cordéis das mãos do
professor Iton Lopes estava finalmente diante do poeta que tanto admirava. Emocionado,
contei minha história, falei sobre o presente recebido na Escola Maria Thomásia,
sobre minha caminhada cultural, dos projetos que desenvolvi ao longo dos anos,
e falei sobre minha gratidão.
Costa Senna ouviu tudo com atenção e
generosidade. Em seguida falou de sua amizade com o professor Iton Lopes. Recordamos
com alegria aquele educador extraordinário que havia partido cedo demais, mas
que continuava vivo através das sementes culturais que plantou em tantas vidas.
Naquele instante compreendi algo importante. O
professor Iton Lopes havia sido uma ponte. Uma ponte entre o poeta Costa Senna
e o futuro cordelista Mestre Pádua. Sem aquele presente de 1986, talvez minha
história com o cordel tivesse seguido outro caminho.
Naquele mesmo dia vivi outro momento
inesquecível. Subi ao palco para apresentar meu trabalho. Mas a plateia era
especial. Ali estavam alunos da rede municipal de ensino de minha cidade,
Baturité. Jovens que, de alguma forma, representavam a continuidade da missão
que venho desenvolvendo há tantos anos.
E entre os presentes estava também Costa
Senna. O poeta que me inspirou, o homem
cujos versos ajudaram a despertar minha vocação, o mestre cuja obra atravessou
décadas para encontrar eco na trajetória de outro cordelista.
Enquanto apresentava meu trabalho, sentia uma
emoção difícil de explicar. Era como se um ciclo estivesse se completando. O
leitor havia encontrado o autor. Naquele dia compreendi que a literatura de
cordel é muito mais do que versos impressos em papel. Ela é uma corrente de
saberes. E eu tive o privilégio de viver um dos capítulos mais bonitos dessa
história.
Obrigado,
professor Iton Lopes.
Obrigado,
Costa Senna.
Vocês
fazem parte da minha caminhada, e fazem parte, para sempre, da história do
Mestre Pádua de Queiróz.
POSFÁCIO
O
CORDEL DOS CORDELISTAS
Eu cumprimento
feliz
O poeta meu
irmão
Cordelista do
Brasil
Que faz da
inspiração
Um grito forte
e valente
Defendendo
simplesmente
Nossa rica
tradição.
Do antigo ao
moderno
Do folheto ao
digital
Segue vivo o
nosso canto
Mesmo em tempo
desigual
Entre aplauso
e sofrimento
Cordel vira
instrumento
De um valor
cultural.
Já foi voz do
povo simples
Nas praças do
interior
Notícia, fé e
denúncia
Aventura e
muito humor
Hoje enfrenta
o mercado
Que não vende
nem fiado
O que nasceu
com amor.
O poeta
antigamente
Era dono do
fazer
Escrevia e
imprimia
Sem ninguém
interceder
Vendendo de
mão em mão
Levando
informação
Pra quem
queria saber.
Como fez com
maestria
Nosso mestre
pioneiro
Leandro Gomes
de Barros
Um poeta
verdadeiro
Sem depender
de engrenagem
Transformou
cada folhagem
Num tesouro
brasileiro.
Mas o tempo
foi mudando
E o sistema se
fechou
Editoras
dominando
O caminho que
restou
E o poeta
dependente
Paga caro
atualmente
Por aquilo que
criou.
Hoje seu verso
é refém
Realmente do
mercado
Quem não entra
no esquema
Já é deixado
de lado
Mesmo tendo
qualidade
Perde espaço
na cidade
Por não ser
apadrinhado.
Pra publicar
sua história
O poeta sofre
além
Paga capa,
paga gráfica
E divulgação
também
E no fim dessa
jornada
Sua parte é
quase nada
Do folheto que
contém.
Esse jogo
desigual
Vai cansando o
criador
Que sustenta a
cultura
Mas não colhe
o seu valor
Enquanto a
arte resiste
Tem sistema
que insiste
Em explorar o
autor.
E nas feiras
literárias
Que deviam
acolher
Só se vê os
mesmos nomes
Sempre a
aparecer
Quem é fora do
circuito
Mesmo sendo
bom e muito
Nem consegue
se inscrever.
É um círculo
fechado
De vitrine e
seleção
Onde poucos
têm espaço
E muitos ficam
no chão
Não por falta
de talento
Mas por falta
de assento
Na tal
“instituição.”
Mas o cordel
verdadeiro
Nunca foi só
um caminho
É até mais que
estrada
Que não se
abriu sozinho
Na cidade e no
sertão
Lápis, caneta
na mão
Rimando amor
com carinho.
A capa vi um
debate
Ontem mesmo
acontecer
O que era
alternativo
Virou regra
sem dizer
Pois a arte
que é livre
Hoje às vezes
sobrevive
Com padrão pra
obedecer.
Mas o moderno
chegou
Abrindo nova
janela
Com isopor e
nanquim
Ou com arte
mais singela
E também no
digital
Surge um mundo
plural
No visor de
uma tela.
E isso não é
ameaça
À tradição que
ficou
É continuação
da história
Que o tempo
transformou
E eu digo que
o cordel
Está escrito
no papel
E não no que
se talhou.
Tem também o
narcisismo
Que hoje vejo
em exposição
Mais
preocupado consigo
Do que com a
construção
Da poesia que
produz
Troca o verso
pela luz
Da própria
exaltação.
O cordel vira
vitrine
De um “eu” que
quer crescer
Mais do que o
próprio texto
Que deve
prevalecer
E o que era
voz do povo
Vira palco de
um só novo
Querendo se
promover.
Enquanto uns
querem palco
E aplauso
exagerado
Outros seguem
na missão
Segue firme e
dedicado
Na arte se
reconhece
E o cordel
permanece
Simples, forte
e engajado.
O cordel é
resiliente
E é bonito de
se ver
Na chama da
resistência
Ainda insiste
em viver
Na união dos
poetas
Que mantêm
portas abertas
Para quem quer
aprender.
Cordelista de
verdade
Não anda só na
estrada
Divide espaço
e saber
Na arte
compartilhada
Ensina quem tá
chegando
E segue sempre
ajudando
Sem querer
fama inflada.
O verdadeiro
poeta
Não precisa se
impor
Ele deixa que
o seu verso
Seja ponte e
condutor
De histórias
que caminham
E sozinhas se
alinham
Na memória do
leitor.
Pois nas
feiras literárias
Ainda existe
união
Um ajuda o
outro a vender
Dividindo seu
balcão
E quando falta
dinheiro
Se junta o
grupo inteiro
Pra manter a
tradição.
Quem entende a
essência
Sabe bem o seu
lugar
Jamais andará
sozinho
E nem precisa
se exaltar
Pois o brilho
verdadeiro
É fazer o povo
inteiro
No seu verso
se enxergar.
Poeta que
compartilha
Multiplica o
seu valor
E ao invés de
competir
Fortalece o
criador
E a arte
coletiva
Sempre cresce
mais ativa
Quando se faz
com amor.
Que as feiras
se abram mais
Pra quem quer
participar
Que não haja
exclusividade
Pra quem possa
publicar
Pois o cordel
é do povo
E precisa de
um novo
Jeito de se
espalhar.
Que o poeta
tenha acesso
Com o cordel
que é tradição
Que não
precise de selo
Na sua
apresentação
Que seu verso
tenha vez
Sem depender
de talvez
Para
autorização.
Que a capa
seja livre
Pra seguir a
criação
Seja em
madeira ou pixel
O que vale é a
intenção
De expressar
sentimento
Com verdade no
momento
De beleza na
expressão.
E que o verso
seja rei
Com estrofe
bem rimada
Que o poeta
entenda isso
E não caia em
cilada
Quem deixa o
ego de lado
E faz do povo
aliado
Segue longe
nessa estrada.
Que o cordel
siga livre
Sem nenhuma
imposição
Que o poeta
busque a rima
Na mais linda
inspiração
Pois o verso é
quem governa
Essa arte tão
eterna
Nascida do
coração.
Que a união
seja a base
Do respeito
que queremos
E na arte
popular
Juntos, sei
que podemos
Caminhar
independente
Com nosso
cordel à frente
E assim, nós
seguiremos.
Cordelista do
Brasil
Receba essa
saudação
Que seu verso
siga firme
Mesmo em
contradição
Entre luta e
esperança
Que jamais
perca a lembrança
De sua real
missão.
Eu já plantei
uma árvore,
Colhi frutos,
dividi,
Relatei minha
vivência
Em cordéis que
escrevi.
Nesta vida de
poeta
Com minha rima
completa
Cantei, chorei
e sorri.
Baturité, 26.04.2026
